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Jovens: "Vá lá é só um copo, bebe lá!"
Sociedade 5 min. 14.07.2021
Alcoolismo

Jovens: "Vá lá é só um copo, bebe lá!"

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Jovens: "Vá lá é só um copo, bebe lá!"

Foto: Shutterstock
Sociedade 5 min. 14.07.2021
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Jovens: "Vá lá é só um copo, bebe lá!"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Existe uma pressão social entre jovens para o consumo do álcool. Quem não bebe é "estranho". Os testemunhos e as explicações de um psiquiatra juvenil.

Emma, de 24 anos, perdeu a conta às vezes que ao longo da adolescência, desde que começou a sair, a pressionavam para beber bebidas alcoólicas. Quando todos pediam álcool, ela pedia água ou um sumo, porque não gosta de bebidas alcoólicas. “Não vais beber? Vá lá é só um copo, bebe lá desta vez”, diziam os seus amigos. Mas Emma resistiu e sempre negou. “Não consumo álcool e com o tempo o meu círculo de amigos foi-se convencendo e já não me perguntam”, conta.

A pressão social para o consumo de álcool é grande entre também entre os jovens. “Um jovem que não beba é visto como um estranho pelos outros jovens e muitos, nomeadamente raparigas acabam por beber apenas para impressionar os rapazes ou o grupo com quem estão a sair”, contou ao Contacto, Sophie, de 20 anos, que também é raro beber. “Muito, de quando em quando, bebo um copo de vinho e chega. Não quero perder o controlo da situação e quem bebe em excesso fica sem controlo”, vincou.

Christopher Goepel, psiquiatra do serviço de psiquiatria juvenil do Hospital de Kirchberg.
Christopher Goepel, psiquiatra do serviço de psiquiatria juvenil do Hospital de Kirchberg.

As jovens do seu liceu, que terminou este ano, “estão a beber muito e frequentemente”, disse. Aos fins de semana saem sempre e bebem demasiado. “Outro dia, uma rapariga ficou muito mal e o bar teve de chamar a ambulância e levá-la para o hospital”.

O Luxemburgo é o terceiro país europeu com a maior taxa de consumo excessivo de álcool num único período, o chamado ‘binge drinking’, entre adultos, a seguir à Roménia e Dinamarca, indicam dados de 2019, da OMS. Define-se por binge drinking quem consome seis ou mais bebidas na mesma situação, sendo cinco bebidas para os jovens. Um em cada três adultos residentes no país teve episódios de consumo excessivo ao longo de 2019.

Quanto aos jovens com mais de 15 anos, os dados incluídos no PALMA são de 2013-14 e indicam que a taxa de consumo de álcool semanal é das mais baixas da Europa. Só que desde então a perceção é de que estará a aumentar.

O problema, disse Sophie, é que os jovens “acham normal beber assim, tanto. Eu perguntava às minhas colegas e elas diziam isso mesmo, que não fazia mal, era só aos fins de semana”. “Claro que faz mal à saúde, além de que as raparigas quando bebem demais podem colocar-se em risco, perdem o controlo e podem ser vítimas de abuso sexual”.

Este perigo foi também foi apontado por Claude Besenius: “Parece-me que os jovens estão a beber mais e o binge drinking é um fenómeno preocupante. Os jovens têm de ser alertados que beber demais nesta idade vai gerar problemas ao nível do desenvolvimento cerebral. E para as jovens e mulheres o abuso do álcool tem outro perigo acrescido, o poderem sofrer de violência sexual”.

Sophie referiu ainda que há quem “misture o consumo de álcool com a toma de medicamentos, para potenciar os efeitos”. E na escola, havia “quem levasse garrafas de água, mas com vodka lá dentro para ir bebendo durante o dia de aulas”. Para esta futura estudante universitária de psicologia, os jovens que bebem em demasia “devem, no fundo, ter outros problemas e usam o álcool para conseguir gerir melhor esses problemas”.

Elas bebem para gerir emoções

Desde o começo que as mulheres escondem o consumo de álcool. “As raparigas tendem a beber, em segredo, a fim de regular as suas emoções ou de reduzir tensões psicológicas. Os rapazes tendem a beber em grupo e é socialmente aceite pelos seus pares”, explicou ao Contacto Christopher Goepel, psiquiatra do serviço de Psiquiatria Juvenil do Hospital de Kirchberg. Sobre o caso de mistura de álcool com medicamentos, este psiquiatra diz isso é “muito raro” nos menores de idade.


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Nas idades pedopsiquiátricas, até aos 18 anos, “o alcoolismo ou o abuso de álcool raramente é a única razão para internamento”, declarou este especialista. Entre as jovens que são internadas o álcool “está frequentemente ligado a uma desordem emocional ou a uma tentativa de suicídio (ingestão de comprimidos com consumo de álcool)”, vincou. No caso dos rapazes, “está frequentemente ligado a problemas de comportamento, a um transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (ADHD, sigla original), e muitas vezes ligado ao consumo de canábis”. Estes são, aliás, os principais problemas que obrigam ao internamento dos menores. Entre as raparigas, a automutilação é outro dos motivos, enquanto nos rapazes, a agressividade também é uma das razões, indicou Christopher Goepel. No entanto, o psiquiatra frisou que a maioria dos internados “não consome álcool”. E, adiantou “existe apenas uma fraca percentagem de binge drinking excessivo com enormes quantidades de álcool, mas aqui são raros os casos”.

O binge drinking é “raramente uma indicação para hospitalização”, disse. Neste caso, os pacientes “são tratados nas urgências e na reanimação e raramente há razões para um internamento em psiquiatria juvenil ou diagnóstico de tratamento por consumo excessivo”.

Nos adolescentes, até aos 18 anos, é geralmente demasiado cedo para falar de dependência do álcool, de facto, pode haver abuso de consumo de álcool, mas sem dependência, vincou Christopher Goepel. Contudo, frisou, “não se pode excluir uma futura dependência do álcool, especialmente, no contexto de outras perturbações psiquiátricas, tais como problemas de comportamento, de ADHD e consumo de cannabis, depressões ou ansiedade”. Nestes casos, sublinhou o psiquiatra, será necessário um “tratamento abrangente para estas comorbilidades, porque se focalizado apenas no alcoolismo não será eficaz”.

O aumento de problemas psicológicos e psiquiátricos ligados à pandemia poderá também potenciar um maior consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens, nomeadamente entre adolescentes, perspetivou Christopher Goepel. Atualmente, “detetámos um aumento de consumo de canábis relacionado com a crise da covid-19, embora ainda se dados exatos”, disse o psiquiatra juvenil adiantando que só os resultados dos estudos sobre os jovens e a pandemia que estão a decorrer, poderão revelar as repercussões da crise no consumo de bebidas alcoólicas na juventude.


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