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"Ainda temos tempo". Os oceanos estão em perigo e a precisar de uma boa campanha de relações públicas
Sociedade 7 min. 06.02.2020

"Ainda temos tempo". Os oceanos estão em perigo e a precisar de uma boa campanha de relações públicas

"Ainda temos tempo". Os oceanos estão em perigo e a precisar de uma boa campanha de relações públicas

Pixabay
Sociedade 7 min. 06.02.2020

"Ainda temos tempo". Os oceanos estão em perigo e a precisar de uma boa campanha de relações públicas

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
2020 é um ano crucial para a preservação dos oceanos. Divulgado numa conferência em Bruxelas o Manifesto Azul, entregue à Comissão Europeia, com medidas para salvar os oceanos.

Os oceanos estão em risco de colapso iminente e uma das soluções é alertar a opinião pública para exigir políticas vigorosas de proteção marinha. "Gosto da ideia de Fridays for Oceans", disse Bernard Friess, o director-geral das Pescas e Assuntos Marinhos da Comissão Europeia, a uma plateia de cientistas, políticos e ativistas que ontem se reuniu em Bruxelas numa conferência para colocar a defesa dos oceanos no centro da agenda europeia. "O público tem que exigir novas e urgentes políticas de proteção dos oceanos", defendeu, por sua vez, Heike Imhoff, a responsável dos Assuntos Marinhos do governo alemão.

"Há um déficit emocional em relação à aquasfera. A opinião pública tem que se aperceber da importância do que está em causa - a nossa sobrevivência", considerou Pascal Lamy, o anterior diretor da Organização do Comércio Mundial e atualmente responsável pela Missão por oceanos saudáveis, mares, áreas costeiras e sistemas aquáticos, da Comissão Europeia – uma das missões científicas lançadas pelo comissário português Carlos Moedas.

Uma defesa subentendida

O tom parece quase o do último grito de socorro de um náufrago. Que, neste caso, foi dirigido aos cidadãos na conferência da Seas at Risk, uma coligação de 33 ONG’s do ambiente de 7 países europeus e que há 30 anos faz pressão em Bruxelas em defesa dos mares. “Lóbing com muitos momentos de desânimo”, confessa a holandesa Monika Verbeek, diretora da Seas at Risk e que há 20 anos vive em Portugal.

Um dos momentos de desânimo, de acordo com vários intervenientes, foi o de não ver ao longo de páginas e páginas do Pacto Ecológico Europeu – Green Deal (PPE) referências à defesa dos ecossistemas marinhos. Isso estará abordado em profundidade na estratégia da Quinta ao Prato e na Estratégia sobre Biodiversidade (ambas a apresentar brevemente), explicou o jovem Comissário Europeu do Ambiente, Oceanos e Pescas, Virginijus Sinkevicius, durante a sua palestra. "Embora não esteja no texto do Green Deal, não está esquecido e terá medidas muito importantes", assegurou, tendo dito que a defesa dos oceanos está "subentendida" no texto genérico sobre a reconversão verde.

Precisamente para não ficar nas entrelinhas, as ONG’s de defesa dos oceanos presentes na conferência entenderam que é preciso deixar tudo preto no branco. Por isso, ontem foi divulgado o Manifesto Azul, um documento redigido pela Seas at Risk e quatro outras grandes organizações ambientais - Birdlife International, ClientEarth, Oceana e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) – e que constitui "um mapa detalhado sobre o que fazer nos próximos 10 anos em defesa dos Oceanos e que já entregámos à Comissão Europeia", explica Monika Verbeek. É nesse documento, com 32 medidas específicas de 2020 a 2030, que se defende que pelo menos "21 mil milhões de euros do Quadro de Financiamento Plurianual 2021-2027 seja dedicado a proteger a natureza". E que em 2021 a União Europeia adote uma reforma profunda da Política Agrária Comum, de forma a impedir a contaminação de rios e mares com nutrientes de fertilizantes.

2020, ainda a tempo?

"Este é um ano chave para defender os oceanos de uma morte que põe em risco a sobrevivência da Humanidade", apelou o embaixador dos Oceanos da ONU, Peter Thomson, numa comunicação pré-gravada. Com a Conferência sobre Oceanos da ONU a decorrer em Lisboa a 2 de Junho, o ano é visto como decisivo para definir toda a agenda ambiental para a próxima década. E o que sairá da Comissão Europeia em política de pescas e defesa dos oceanos, nos próximos meses, será determinante também para o documento sobre biodiversidade e proteção de 30% da superfície planetária que será assinado em outubro, na China. "É fundamental que a União Europeia insista na Convenção para a Biodiversidade, a decorrer na China, que se estabeleçam metas ambiciosas de conservação", defende Monica Verbeek. E ainda este ano será assinado o Tratado Internacional dos Oceanos. Muito está ainda em jogo.

"Temos que perceber que há muitas coisas que temos que fazer e todas valem a pena: proibir a pesca intensiva, acabar com a poluição, mas temos sobretudo de mudar como sociedade de uma forma fundamental. E temos que acabar já com os combustíveis fósseis. Parem de subsidiar. Tudo pode ser feito agora", apelou Bernard Friess.

Num tom geral de "ainda temos tempo", Claire Nouvain destacou-se como o exemplo contra-corrente. A francesa que criou há 20 anos a Bloom, uma organização não governamental que luta por acabar com a pesca de arrasto e proteger os fundos marinhos, não está para medir as palavras: "Nós dizemos a verdade. E a verdade é demasiado horrível sobre a má fé dos políticos europeus. Precisamos que os representantes nos representem, mas a política de Bruxelas é profundamente corrupta. Há muita gente que devia estar presa". Neste momento, confessa, vai desistir de lutar, tirar um ano sabático para se recompor. "Não aguento mais. Foram vinte anos muito duros, inclusive com ameaças de morte. E as coisas estão piores do que nunca. Não há tempo para mais estudos, está tudo em colapso", desabafa. O seu descrédito é enorme, sobretudo "porque as quotas de pescas foram muito aumentadas no ano passado e com o contributo dos votos dos deputados portugueses", disse ao Contacto. "Neste momento, já não há nada a fazer".

A última fronteira

Ann Dom, diretora-adjunta da Seas at Risk não está ainda preparada para baixar os braços: “A minha luta agora é a exploração dos leitos dos mares”. Ela está muito a sério quando diz: “Vamos fazer com que a extração de minérios dos fundos marinhos, uma prática devastadora para os oceanos seja impedida”. Há atualmente uma moratória internacional a impedir a escavação do fundo oceânico, e o que Ann Dom pretende é que seja proibida de uma vez por todas. “No mundo inteiro há mais de uma centena de organizações ambientalistas a lutar contra a mineração do fundo do mar. E temos uma pequena janela de oportunidade. É um setor em grande expansão e está a ser desenhada a regulamentação internacional”. Quando buldozers gigantes entrarem a escavar os abismos marinhos são ecossistemas inexplorados, mas de grande valor para o equilíbrio planteário que serão destruídos. De momento, há uma companhia belga a fazer testes no Pacífico. “Fala-se que poderá ser em 2024, ou 2027 que poderão começar a mineração industrial. Nós não precisamos de mais minérios. É possível reciclarmos o que temos. O grande problema é que já há grandes companhias na corrida ao fundo dos mares. E é muito difícil lutar quando já há milhões investidos”, explicou. É ainda mais difícil “ quando essa exploração se faz tão longe dos nossos olhos”.

Na crise de relações públicas que a superfície líquida da Terra atravessa, James Honeyborne, produtor executivo da série da BBC Blue Planet II, encontrou uma solução. “Quando em 2013 contei a um colega da BBC que ia fazer uma série sobre o

mar, ele perguntou-se como é que alguém ia aguentar sete horas sobre peixes”. O desafio era contar a crise em que os oceanos estavam, e aquilo que os cientistas e os ambientalistas estavam a descobrir, a um “público ávido de entretenimento num meio de difusão popular”. “Queríamos em primeiro lugar mostrar às pessoas a incrível beleza do mar. E chegar a elas contando uma história, porque não há nada mais poderoso de que uma boa história bem contada. Era preciso fazer com que as pessoas se apaixonassem por este mundo maravilhoso, no fundo do mar, nas escuridões, e que existe tão longe do nosso quotidiano”. A série da BBC narrada por David Attenborough ganharia o prémio Impact, pela mobilização da opinião pública internacional em relação aos plásticos, naquilo que ficou conhecido como o “efeito blue planet”. “Temos que tocar as pessoas pelas emoções”, afiança James Honeyborne.