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Acordar e não cheirar o café. A experiência dos que perderam o olfato por causa da covid-19
Sociedade 10 min. 08.08.2020

Acordar e não cheirar o café. A experiência dos que perderam o olfato por causa da covid-19

Acordar e não cheirar o café. A experiência dos que perderam o olfato por causa da covid-19

Foto: DR
Sociedade 10 min. 08.08.2020

Acordar e não cheirar o café. A experiência dos que perderam o olfato por causa da covid-19

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
A perda de olfato, ou anosmia, é agora reconhecida como um dos principais sintomas da covid-19. Apesar de parecer um efeito secundário menor, a verdade é que os resultados podem ser devastadores e durar vários meses.

Numa manhã do início de abril, Victoria estava a tomar o pequeno-almoço quando o marido a alertou para o cheiro a queimado das torradas. Victoria correu a abrir os armários da dispensa e rapidamente percebeu que tinha perdido o olfato: “Não conseguia cheirar café, manteiga de amendoim, nada”. 

A perda de olfato, ou anosmia, é agora reconhecida como um dos principais sintomas da covid-19. Apesar de ter sido diagnosticada com a doença, Victoria nunca teve um teste positivo: “o processo de testagem no Reino Unido era tão lento em abril que só consegui marcar um teste para seis dias depois de desenvolver sintomas. Devido a possíveis imprecisões, acabei por não fazer”.

Um estudo publicado pela Universidade de Oxford sugere que entre 34% e 98% dos pacientes hospitalizados reportam anosmia ou outra disfunção olfactiva como sintoma de infecção pelo novo coronavírus. A maioria serão mulheres.

Para grande parte dos pacientes de covid-19 que sofrem de anosmia, o olfato regressa ao final de algumas semanas. No entanto, para outros como Victoria, a experiência prolonga-se durante vários meses. 

Apesar de a perda de olfato parecer um efeito secundário menor, a verdade é que os resultados podem ser devastadores. Não só o olfato está intrinsecamente ligado à capacidade de reconhecer sabores complexos e desfrutar de comida, mas também à nossa sobrevivência - permitindo-nos detetar fumo, fugas de gás ou alimentos estragados.

Dominika Uhráková, que também perdeu o olfato como resultado da covid-19, acabou por sofrer de uma intoxicação alimentar por não ter conseguido detetar que o fiambre que comia estava estragado: “é uma experiencia bizarra. Nós não nos apercebemos o quanto dependemos do nosso olfato até deixarmos de o ter. É como estar num quarto vazio sem nenhum cheiro distintivo: isso é o que me acontece independentemente de alguma coisa estar a arder ou de ter acabado de usar lixívia”

“Para além da questão da comida, acontece-me estar a limpar a casa-de-banho, por exemplo, e não me aperceber que há demasiados químicos no ar até me sentir tonta. É um processo de aprendizagem, e acabamos por ter de depender muito dos que estão à nossa volta no que toca a estas coisas”.

É um vazio total e é muito frustrante porque eu me lembro de como e que as coisas deviam cheirar. É uma perda imensa e está a ter um impacto significativo na minha vida", diz Victoria.
É um vazio total e é muito frustrante porque eu me lembro de como e que as coisas deviam cheirar. É uma perda imensa e está a ter um impacto significativo na minha vida", diz Victoria.

O olfato tem também um papel fundamental na vida emocional, e está profundamente ligado à forma como experienciamos memórias e afetos. Uma das queixas mais comuns de pessoas que sofrem de anosmia é precisamente uma sensação de isolamento, depressão e dificuldade em criar intimidade.

“É difícil de explicar. Creio que já todos experienciamos alguma perda de olfato por uma razão ou outra: constipação, nariz entupido, mas isto não e comparável. É um vazio total e é muito frustrante porque eu me lembro de como e que as coisas deviam cheirar. É uma perda imensa e está a ter um impacto significativo na minha vida e bem-estar emocional. Estou a passar por um período de luto”, conta Victoria. 

A perda do olfato afectou também a sua vida profissional: “é especialmente difícil porque sou apaixonada por gastronomia e trabalho como dietista pediátrica. Estou no processo de lançar um negócio de comida para bebé, portanto isto tem sido muito desgastante. Torna-se impossível desligar ou não pensar nisso”.

Victoria perdeu completamente o olfato e o paladar durante seis semanas. Depois de sentir algumas melhorias (estima ter recuperado entre 50 a 60%), desenvolveu parosmia. 

Parosmia e o termo medico que define uma distorção no olfacto. Ao contrário da perda de olfacto, anosmia, quem sofre de parosmia é capaz de detectar odores, mas o cheiro de certas coisas - e por vezes de todas as coisas - é distorcido e, na grande maioria dos casos, desagradável. 

“Cosméticos, incluindo pasta de dentes, creme hidratante e gel de banho, e também a maior parte da comida, cheiram a amoníaco, carne podre, esgoto e bolor - há semanas que não consigo comer carne ou beber vinho ou café”, diz Victoria. 

“Soa absolutamente horrível e debilitante mas asseguraram-me que esta fase e um sinal de recuperação e que significa que os neuronios estão a começar a regenerar-se. Estou esperancosa e a tentar-me manter positiva em relação ao futuro. Mal posso esperar para cheirar relva acabada de cortar, roupa lavada, pão fresco e voltar a desfrutar de um bom bife e de um copo de vinho!”.

Julia Chisholm também terá perdido o olfato no início de abril: “um dia acordei e não conseguia cheirar o café. Tem sido uma verdadeira montanha-russa. Não ter cheiro foi complicado, mas não me incomodava assim tanto - a fase mais difícil tem sido de há duas semanas para cá”.

“De repente, comecei a sentir um cheiro horrível, como se tivesse estado junto de uma fogueira e todo o fumo me tivesse entrado no nariz. É difícil de descrever, mas talvez uma mistura entre fogueira e detergente para a louça”, conta, “há dias em que me sinto deprimida e com pena de mim própria e outros em que me sinto uma sortuda por ter sobrevivido”, explica.

Porque é que a covid-19 causa disfunções olfativas?

Anosmia e outras disfunções do olfato podem surgir como resultado de uma infecção viral, como no caso da covid-19 ou da gripe, ou por causa de uma lesão cerebral. Há também quem nasça sem olfato e quem o perca como consequência de tratamentos para o cancro ou doenças como Parkinson ou Alzheimer. Outra das principais causas para a perda do olfato, é a idade. Estima-se que cerca de 5% da população seja funcionalmente anósmica e o número sobre para 30% na população acima dos 75 anos. 

A comunidade científica está agora a começar a investigar porque é que a covid-19 causa perda do olfato e se esta afecta o sistema olfativo de forma diferente de outras infecções virais. 

Segundo o que se sabe, o Sars-CoV-2, o vírus que causa a covid-19, possui uma instalação especial para penetrar nas células do epitélio olfativo, que reveste o teto das narinas. O epitélio é um tecido composto por três tipos de células: células basais, neurónios sensoriais olfativos e células de suporte.

Ao analisarem a expressão genética destas células, os cientistas descobriram que as células de suporte apresentam uma alta expressão dos genes ACE2 e TMPRSS2. Ainda que seja necessário que a comunidade científica valide os resultados do estúdo para confirmar a localização destas proteínas nas membranas das células de suporte, é possível suspeitar que o Sars-CoV-2 infecta as células de suporte do epitélio olfativo utilizando as proteínas ACE2 e TMPRSS2 como porta de entrada, danificando as células de suporte e afectando os neurónios sensoriais olfativos.

O paladar é a outra vítima. Ainda não se sabe o nível de expressão das proteínas ACE2 e TMPRSS2 nas papilas da língua, mas é provável que o vírus infecte as papilas gustativas da mesma forma que faz no nariz.

Agora que os cientistas estão a começar a descobrir como a covid-19 afeta este sentido, há esperança de que estas descobertas ajudem os milhares de pessoas anósmicas à procura de respostas.

A falta de olfato, provocada pela doença, tirou empatia social em Julia.
A falta de olfato, provocada pela doença, tirou empatia social em Julia.
Foto: DR

 

Ainda assim, pacientes como Julia e Victoria reportam falta de empatia da comunidade medica para o problema e agradecem a organizações como a Fifth Sense UK e a AbScent pela informação. 

“Tive uma consulta por telefone com um médico de família que sabia muito pouco, menos que eu, e que apenas sugeriu que continuasse o que estava a fazer”, conta Victoria. 

Confrontada com a falta de suporte dos médicos, Victoria encontrou ajuda na internet. “Estas organizações e os grupos de suporte no Facebook têm sido o meu principal apoio. São a minha oportunidade de partilhar histórias, dicas e, sobretudo, esperança”. 

Kelly é uma das principais organizadores das sessões para tentar recuperar o olfato.
Kelly é uma das principais organizadores das sessões para tentar recuperar o olfato.
Foto: DR

Também são organizados workshops de treino olfactivo e webinars através de plataformas como o Zoom, que contam com a presença de especialistas em otorrinolaringologia. Chrissi Kelly é a principal responsável por estas sessões.

Chrissi fundou a AbScent depois de ter perdido o olfacto em 2012: “foi um evento profundamente angustiante para mim e não conseguia ver nenhuma saída dessa angústia. Criar esta organização foi a minha terapia e, à medida que recuperava, o meu fascínio pela perda do olfacto e o olfato em geral cresceu”.

“A minha missão sempre foi criar para os outros o que eu sentia que precisava: informação científica confiável baseada em provas, um espaço seguro para interagir com outros que estivessem a passar pelo mesmo que eu e um protocolo de treino olfactivo que me pudesse ajudar no meu caminho. Descobri que é melhor ser estudante da minha aflição do que vítima. Assumir a responsabilidade pelo problema ajudou-me muito”, relembra Chrissi. 

A 1 de fevereiro deste ano, o grupo de Facebook da AbScent contava 1545 membros. Entretanto, foi criado um grupo específico para pessoas que sofrem de anosmia como resultado da covid-19 e outro para pessoas que sofrem de parosmia. Desde então, Chrissi estima um aumento entre três a quatro vezes no número de membros: “estamos perto dos 9.000 membros e não há sinais de que vá abrandar. Nos grupos, temos pessoas de todos continentes (exceto na Antártica, pelo menos que eu saiba) e muita gente utiliza o Google tradutor para comunicar com outros membros do grupo. O nosso website registou um aumento de tráfego similar”. 

Karen Selby, uma das pessoas que se juntou ao grupo para combater estas sequelas da covid-19.
Karen Selby, uma das pessoas que se juntou ao grupo para combater estas sequelas da covid-19.

Karen Selby foi uma das pessoas que se juntou ao grupo depois de ter visto uma entrevista de Chrissi Kelly na televisão: “os médicos com que falei disseram-me que não havia nada a fazer se não esperar. Passaram-se meses depois de ter tido covid-19, e ainda só consigo cheirar poucas coisas - talvez 30% de sumo de limão ou acetona, e entre 10% a 20% para cheiros como protetor solar ou baunilha. Tudo o resto não tem cheiro ou tem um cheiro terrível a podre. Frango, bacon e ovos são o pior”.

“Desde então comecei a fazer treino olfativo, de acordo com as recomendações, e comprei um kit com 12 aromas que cheiro duas vezes por dia. A semana passada fui a um jardim com a minha filha e senti o cheiro a rosas durante uns segundos. Fiquei tão emocionada que até chorei”.

Este treino olfativo, ou “smell training”, é apontado como um dos principais caminhos para a recuperação. Ainda que não seja uma cura, o smell training é uma espécie de fisioterapia para o nariz, através de um trabalho com óleos essenciais (a AbScent recomenda rosa, limao, cravo-da-índia e eucalipto) de forma a estimular os nervos olfativos. Para ser eficaz, é recomendado que se cheire cada frasco durante cerca de vinte segundos, duas vezes por dia, por um mínimo de quatro meses. 

Á falta destes óleos, podem também ser utilizados produtos comummente encontrados em casa como graxa, café ou especiarias. O mais importante é a intenção e concentração na memoria desses cheiros.

Para os que estão a passar por este problema, Chrissi Kelly deixa um conselho: “é fundamental mantermo-nos informados. Nós somos os nossos melhores defensores. É importante tambem ouvir os medicos e os cientistas que têm conhecimento no assunto. Estamos a lidar com um novo vírus e não sabemos ainda quais as consequências para a saúde humana a longo prazo, mas isto não significa que a medicina nos falhou. Significa apenas que precisa de tempo para se atualizar.”

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