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Opinião Sociedade 4 min. 14.10.2020

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Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 14.10.2020

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Não tenho Netflix mas também vi o "Social Dilemma", documentário sobre vícios públicos e privados das redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter. O filme, em modo docu-drama/trágico, alerta para os malefícios das redes, dos algoritmos, dos dados recolhidos com o nosso cego consentimento. Discute as implicações éticas das empresas que nos tornam "escravos do algoritmo". Uma opinião de Raquel Ribeiro.

O grande dilema, contudo, é que uma plataforma de conteúdos dependente de algoritmos como a Netflix nos alerta para o perigo de plataformas de conteúdos dependentes de algoritmos como o Facebook.

Vários amigos abandonaram com estrondo o Facebook porque o documentário teve, entre eles, um grande impacto. Já viste o Social Dilemma? O perigo de estarmos nas mãos de empresas, grandes investidores anónimos a capitalizar em shares ou pequenos geeks agarrados a uma fórmula matemática, que vendem os nossos dados. Porque "se não pagamos pelo produto, nós somos o produto", explicam. Os nossos gostos, os nossos interesses, o tempo que levamos a contemplar um vestido, a velocidade de um scroll, com que páginas interagimos, os nossos perfis e fotografias, a nossa identidade, até, está à venda.

Quem compra? Empresas que gerem dados para desenhar perfis de consumidores, targets para os seus produtos. O que vendem? Dietas milagrosas e fique fit aos 40 em apenas 30 dias; móveis para decoração e roupas que não tenho orçamento para comprar. Isto é o que eu vejo: há quem veja metáforas terraplanistas, panegíricos anti-vacinas e a conspiração do 5G. Agora pesquisei óculos no Google e aparecem-me anúncios idênticos no Instagram. Já me aconteceu abrir o Youtube num computador novo: e o que ali se vê, numa tábua quase-rasa da existência algorítmica, explica como é que incels e homens que odeiam mulheres se agarram aos vídeos do Jordan Peterson à procura de doze regras porque não têm vida.

As redes sociais estão a mudar a forma como nos comportamos, como somos. Não é só sobre consumo, é sobre a nossa identidade. Isto é perigoso sobretudo para os mais jovens, já nascidos dentro das plataformas e com pouca informação que lhes permita distinguir verdadeiro de falso. Se se vende tudo, diz-se, vende-se também "desinformação como lucro, porque informações falsas dão mais dinheiro": porque a mentira vende. Também se acusa a China e a Rússia de espalhar teorias da conspiração, embora qualquer espetador informado saiba que um dos maiores superspreaders de fake news é o magnata dono de hotéis e campos de golfe que recomenda beber lixívia para curar o coronavírus e se senta ao leme do país mais poderoso do mundo onde, ironicamente, estas empresas estão sediadas.

Os que abandonaram o dot.com para contar as práticas pouco éticas das empresas dizem-nos que se o Facebook se lembrar que "agora quer desestabilizar o Quénia pode fazê-lo". Precisamente como o FMI e o Banco Mundial o fazem, precisamente como as sanções dos EUA contra países que pretendem "desestabilizar". "Imagine o que tudo isto significa nas mãos de um regime autoritário ou ditatorial", perguntam. Eles vendem tudo, "de sabonetes a presidentes": já o diretor da SIC dissera há mais de 20 anos. Hoje vende-se a extrema-direita e democracias em saldo.

O que preocupa na mensagem não é, contudo, o que os meus amigos que abandonaram o Facebook mais criticam. Até porque muitos continuaram no Instagram. Ou no Twitter. E sempre que pesquisam no Google, o modelo persiste. Persiste até quando um site que visitam pela primeira vez lhes pergunta – aceita cookies? – e eles dizem que sim. Alguns usam uber como táxi ou delivery. Muitos têm uma Alexa em casa, que lhes ouve (e grava?) as conversas, e no meio de uma reunião de família podem ordenar: – Alexa, play Nirvana - e a Alexa responde com a sua voz edulcorante "playing Lithium by Nirvana". Nesse momento o algoritmo regista qualquer coisa sobre raiva, depressão ou grunge.

Claro que receamos o caos gerado por um robot ou por uma rede social inflamada. No "2001" o Dave consegue desligar o Hal 9000 – e é um alívio. Mas na vida real, o ódio viral instigado contra um grupo étnico, na rádio e na imprensa, foi o comburente para o genocídio do Ruanda em 1994. Agora é mais rápido, mais contagioso, em maior escala. Também há muito mais dinheiro, gente a investir e a lucrar milhões para fazer render a nossa ansiedade, inteligência ou humanidade. Por isso é que é preciso estado(s): para regular, controlar, monitorar, taxar. Para cobrar impostos aos shareholders milionários, para monitorizar fake news, para criminalizar discursos de ódio, para controlar que informação e de que tipo as empresas coletam sobre os cidadãos. 

No mundo das redes sociais parece que vale tudo. Mas só vale tudo porque não há estado. A impunidade é geral porque nos tornámos “escravos do algoritmo”. Mas os estados cruzam os braços porque também eles querem beneficiar do investimento. Afinal, é como ter uma plataforma como a Netflix a dizer-nos que filmes é que devíamos ver. Pior, por que cinema temos, enquanto contribuintes, de pagar: um cinema de algoritmos em que viveremos na ilusão de termos alguma escolha ou de sermos os escolhidos.


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