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A voz portuguesa das vítimas de abusos no Luxemburgo
Sociedade 7 4 min. 08.12.2022
Violência doméstica

A voz portuguesa das vítimas de abusos no Luxemburgo

Ana Pinto apela às vítimas que procurem a associação para serem apoiadas.
Violência doméstica

A voz portuguesa das vítimas de abusos no Luxemburgo

Ana Pinto apela às vítimas que procurem a associação para serem apoiadas.
Foto: Marc Wilwert / Luxemburger Wort
Sociedade 7 4 min. 08.12.2022
Violência doméstica

A voz portuguesa das vítimas de abusos no Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A associação "A Voz dos Sobreviventes" foi oficialmente apresentada na Orange Week, dia 23. À frente da luta e apoio às vítimas de abusos sexuais, físicos, psicológicos está a portuguesa Ana Pinto. Se é vítima, contacte a associação.

A associação “La Voix de Sobrevivant(e)s” (A Voz dos Sobreviventes) nasceu em agosto último, mas foi oficialmente apresentada no dia 23 novembro, no âmbito da Orange Week, que alerta para a violência sobre mulheres e raparigas, e decorre até dia 10. 

À frente desta nova associação presidida por Ana Pinto, ex-vítima de violência doméstica, estão igualmente outras vítimas de abusos, Liv, Christian e Pat. Juntos têm sido os rostos da coragem em revelar publicamente os abusos sofridos para ajudar todas as vítimas a “quebrar o silêncio doloroso e denunciarem os agressores”.

“Nós, como ex-vítimas compreendemos melhor do que ninguém o pesadelo de quem sofre abusos sexuais ou de outro género. A nossa associação tem por objetivo ouvir e encaminhar as vítimas e sobreviventes para os apoios certos, sejam legais, psicológicos ou de outra natureza”, vinca Ana Pinto.

Como revelam os resultados de uma sondagem do Statec, divulgados no âmbito da Orange Week, uma em cada três mulheres no Luxemburgo foi vítima de uma violação ou tentativa de violação, pelo menos, uma vez ao longo da vida. E, dois terços dos inquiridos dizem igualmente ter sido vítimas de violência física, psicológica, sexual ou económica, pelo menos, uma vez na vida.

Aos núcleo central da associação já se juntaram “mais de uma centena de pessoas” para apoiar a missão destes sobreviventes, fazendo chegar mais longe a sua voz e ajudar quem sofre.

E, por estes dias, após a apresentação oficial da associação e da marcha na Orange Week, mais pessoas, apoiantes e vítimas procuraram a Voz dos Sobreviventes.

As batalhas da associação

A par com o apoio às vítimas e sobreviventes, a associação está também envolvida em ações de sensibilização e de prevenção dos abusos sexuais, físicos, psicológicos e de todo o género, e pretende ser um elemento de pressão juntos das entidades oficiais, nomeadamente nos órgãos legislativos e de tomada de decisões.


A portuguesa Ana Pinto, ao centro, com Christian Faber e Liv Jeit-Wampach, fundadores da Associação "La Voix des Survivant(e)s".
Eles foram vítimas de abusos sexuais e querem dar voz aos sobreviventes
Liv foi abusada aos 14 anos por um dirigente musical, Christian aos 6 anos por um padre, e Ana sofreu 11 anos de violência doméstica. Agora eles fundaram uma associação para apoiar as vítimas de violência no Luxemburgo.

A reforma do direito penal sobre os crimes sexuais com a abolição de penas suspensas aos agressores condenados pela primeira vez é uma das lutas, vinca Ana Pinto. E dá como exemplo, o caso de Liv, que aos 14 anos foi abusada, ela e outras adolescentes por um dirigente musical. Este foi condenado a oito anos de prisão, mas com pena suspensa por ser primo-delinquente e Liv continua a ter medo de o encontrar na rua, o que já aconteceu por duas vezes, como a própria contou ao Contacto.

O reforço das ações de prevenção nas escolas é outra das missões de A Voz dos Sobreviventes. Ana Pinto já realizou inúmeras sessões nas escolas do Luxemburgo, contando o seu caso de violência doméstica durante 11 anos às mãos do marido e apelando às vítimas para quebrarem o silêncio, procurarem ajuda e denunciarem os agressores.

Desde que realiza estas sessões nas escolas secundários do país, mais de uma centena de alunas revelaram serem ou terem sido vítimas de abusos, “algumas fizeram-no mesmo durante a sessão e perante toda a classe tal era o seu sofrimento” diz Ana Pinto. As jovens foram de seguida encaminhadas para os serviços de apoio escolares, nomeadamente psicológicos.

O apoio psicoterapêutico gratuito às vítimas é mais uma batalha da associação. “As vítimas precisam de um longo acompanhamento psicoterapêutico para conseguir gerir o trauma e seguir em frente, só que muitas não têm poder económico para suportar os custos deste apoio fundamental”, vinca a luso-luxemburguesa.


Contacto,Interview Ana Pinto.Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort
A portuguesa que está a salvar vítimas de violência doméstica no Luxemburgo
Ana Pinto anda pelos liceus do Luxemburgo a contar como é possível deixar um casamento de violência e reconstruir uma vida feliz. Fundou uma associação e, ao seu lado, tem Liv e Patz, com iguais histórias de luta contra os agressores.

Christian Faber, outro dos elementos fundadores de "A Voz dos Sobreviventes", foi abusado aos seis anos por um padre de um internato religioso onde estava. Só décadas depois revelou os abusos e, após uma longa luta conseguiu que a igreja o reconhecesse como vítima, como também já revelou ao Contacto. Para que outras crianças não sejam mais vítimas e, que os adultos abusados na infância como Christian possam ser apoiados, a associação reivindica a criação de uma comissão independente sobre os casos de incesto e de violências cometidas às crianças no Luxemburgo, seguindo o modelo Civise de França, para se conhecer a real situação no país.

A todas as vítimas, portuguesas e de todas as nacionalidades Ana Pinto apela a quem “quebrem o silêncio”, e procurem a associação para que possam ser apoiadas e ajudadas. A sua batalha já chegou à representação portuguesa no Luxemburgo, tendo sido convidada pelo cônsul-geral de Portugal no país para uma audiência, onde deu a conhecer em pormenor a nova associação.

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