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A vida nos campos
Opinião Sociedade 11 min. 17.12.2021
Sociedade

A vida nos campos

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A vida nos campos

"Milho ao Sol" de José Malhoa (1927), Museu Grão Vasco, Viseu.
Opinião Sociedade 11 min. 17.12.2021
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A vida nos campos

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Contudo, não esqueço que, desde sempre aprendi, que a aldeia e os campos em torno da quinta, eram também palco de gente que andava descalça, dos homens reunidos na taberna do Zé da Leonor e cujo principal traço era o do alcoolismo, da violência doméstica não muito escondida, do trabalho infantil, iniciado desde tenra idade, quer nos campos, quer nas obras.

Quem escreve para jornais, tal como quem os lê, mora em cidades. Viaja e circula entre cidades. E tem dos campos, da paisagem e do mundo rural uma percepção que oscila entre uma imagem idealizada e um retrato das duras condições de vida que ali se experimentam. A este respeito, as imagens da arcádia campestre são hoje favorecidas pela cultura das viagens de turismo rural, por uma espécie de vulgata ecológica de comunhão com a natureza e por concursos de televisão do tipo “Quem quer namorar com o agricultor?”. Enquanto a dureza da vida nos campos tanto surge sob a forma da aparente descoberta de uma população envelhecida, deixada ao abandono e desdentada, que os incêndios de Pedrógão puseram a descoberto; como é representada pelo cenário de exploração das estufas de Odemira, onde contingentes de trabalhadores migrantes vivem sem condições mínimas de saúde, habitabilidade e dignidade.     

Tais imagens contrastadas, que envolvem narrativas morais de sentido bem antagónico, têm uma longa história. João Leal – um antropólogo português que tanto estudou comunidades rurais que se viram, em parte, na necessidade de emigrar e de recompor as suas marcas identitárias, como refletiu sobre as percepções intelectuais respeitantes à vida nos campos, partilhadas pelos seus antecessores de ofício – reconstituiu um dos momentos dessa mesma história. As suas conclusões são bem mais pertinentes para compreender a famigerada identidade nacional do que as considerações labirínticas e pseudo-filosóficas de Eduardo Lourenço e José Gil. 

No seu entender, desde a década de 1930, duas figuras centrais da cultura portuguesa, o geógrafo Orlando Ribeiro e o etnólogo Jorge Dias representaram os campos portugueses como uma espécie de arcádia onde reinava a harmonia social. Claro que havia diferenças entre os dois e pouco importa que esta estivesse situada nas aldeias comunitárias a norte, para Dias, e nas planícies alentejanas, para Ribeiro. Só José Cutileiro, num livro intitulado Ricos e Pobres no Alentejo, escrito em inglês, mas que só foi traduzido para português em 1977, contrariou o mito da arcádia, denunciando as condições de exploração dos trabalhadores e dos ranchos migrantes, para sustentar que “não havia muito a celebrar na ruralidade mediterrânica portuguesa” (João Leal, Antropologia em Portugal: Mestres, percursos, transições, Livros Horizonte, 2006, p. 166). 

À luz das mesmas preocupações de uma etnografia crítica, mais recentemente, Catarina Alves Costa publicou um livro sobre os filmes dos realizadores portugueses posteriores à Segunda Guerra Mundial que se interessaram sobre a vida rural (Cinema e Povo: Representações da cultura popular no cinema português, Edições 70, 2021). Uma das conclusões a que chegou foi a de que o peso das realidades da vida rural, documentadas por esses mesmo filmes, se impôs a quase todos os realizadores.  A tal ponto que “a realidade registada, a experiência da constatação de um mundo” acabou por ser mais “mais importante do que a autoria” (p. 365). Ou seja, o peso do que os realizadores viram e procuraram documentar, com toda a sua carga de denúncia política em relação às duras condições de vida nos campos e às misérias ali experimentadas, acabou por afastá-los “das grandes influências cinematográficas da época” (p. 365).   

O exercício de analisar representações doutas dos campos, com base quer no trabalho de cientistas sociais (geógrafos e etnógrafos), quer em filmes e documentários, poderia ser levado mais longe. A literatura, por exemplo, já tinha ensaiado as mesmas imagens contrastadas dos campos, situadas entre a arcádia e a denúncia politizada das misérias e exploração da vida rural. 

Na literatura portuguesa, basta recordar o episódio do Jacinto de A Cidade e as Serras de Eça de Queirós. Regressado de Paris, cansado dos progressos da suposta civilização, o senhor de Tormes deixa-se, a pouco e pouco, impressionar com essa aparente arcádia de simplicidade da aldeia e da vida rural. Tudo isto até ao dia em que finalmente descobre e se choca com as condições de miséria e de fome em que viviam os seus próprios caseiros.   

Ao longo do século XX, a literatura portuguesa foi palco de várias contendas. Uma delas diz respeito ao modo como diferentes escritores representaram a vida nos campos. Por exemplo, o romance Servidão (1946) de Assis Esperança, que pertenceu ao círculo de Ferreira de Castro, para citar um dos mais esquecidos casos que foram sujeitos à influência do neo-realismo – e que devem ser vistos em concorrência ou até mesmo em antecipação relativamente a uma etnografia crítica – centra-se na descrição das misérias da Ria de Aveiro.  

Frente a todas estas formas doutas e letradas de representação da vida nos campos, sinto-me impelido a partilhar a minha experiência mais pessoal, pelo menos até aos dez anos. Nascido e criado no centro de Lisboa, de pais e avós quase todos também alfacinhas (à excepção de uma avó natural de Coimbra, onde conheceu o meu avô ainda estudante), a minha experiência de vida campestre traz consigo as marcas da minha educação privilegiada. De facto, tanto o meu pai como o meu avô paterno tinham feito a escola primária em Vale da Pinta, numa aldeia a 4 quilómetros do Cartaxo. Advogado, escritor e ministro mais do que uma vez durante a Primeira República, meu avô, órfão de pai desde os 2 anos, veio a comprar ao seu próprio padrasto, grande proprietário falido devido ao vício do jogo, uma pequena quinta nas imediações da aldeia. Quinta essa onde o meui avô veio a colocar, julgo que a partir de 1919, a sua mulher, o seu filho e uma família alargada que vivia, sabe-se lá por que razão, a expensas suas. 

Explicar como é que um jovem republicano se transformou em senhor de uma quinta que nunca foi viável economicamente não é uma tarefa fácil. Estou mesmo longe de conseguir compreender este processo. Aparentemente, ele esconde uma intenção de nobilitação ou de arcaísmo, centrada no regresso à terra e às hierarquias que ela comprometia. Contudo, na prática, talvez o que estivesse em causa fosse uma intenção de arrumar, por assim dizer, uma família alargada, composta pelos sogros e por cunhadas, que se casaram tarde ou nunca chegaram a fazê-lo e que tinham como única fonte de rendimento a casa. O mesmo princípio se aplica aos dependentes e empregados, tanto domésticos como caseiros, a ponto de ter sempre ouvido dizer que o melhor ano de produção de vinho do Cartaxo levou o meu avô a gastar 29 contos e a ter de rendimento 27...

Se conheço esse mundo da aldeia, que recua à década de 1920, por histórias que ouvi na minha infância e por fotografias, as minhas próprias memórias são da década de 1960. O meu avô e o meu pai morreram entre 1961 e 1962. A nossa quinta estava hipotecada e tinha sido passada para as mãos de uma tia-avó, devido ao facto de o meu avô ter sido credor de uma antiga empregada doméstica que falira, depois de ter aberto um café ou um restaurante não me lembro onde. As terras, cerca de 12 hectares, estavam arrendadas ao Sr. António de origem cigana e o seu rendimento servia, apenas, para pagar a hipoteca. Os filhos do rendeiro eram dois. O Zé, que já trabalhava com o pai, desde os doze anos, e o Joaquim, talvez dois anos mais velho do que eu, que também começou cedo a ajudar o pai. 

Uma vez que os carros circulavam pouco pela estrada que unia Vale da Pinta à Ereira, recebi a minha primeira bicicleta quando tinha sete anos. E fiz-me à estrada... Quem me ensinou a pedalar foi o Edmundo, filho da Sr.ª Amélia, que trabalhava para nós em Setembro e no resto do ano, apenas, para o médico da aldeia. Através do Edmundo, que nos primeiros anos ainda andava descalço, parti à descoberta da aldeia e da miudagem que por ali andava.      

Havia também a família dos antigos caseiros que viviam ao nosso lado e que tinham deixado de o ser, a partir do momento em que a quinta fora arrendada, para pôr cobro a despesas. Os quatro netos eram todos nossos amigos e continuam a ser. E quando o pai deles morreu – pedreiro de profissão, homem inteligentíssimo, que chegou a vir ter de trabalhar para Algés de bicicleta – no Hospital de Santa Maria, ainda me lembrou dos remédios que o meu pai, médico de profissão, lhe tinha receitado quarenta anos antes. Esses sim é que o tinham curado. 

A viuvez da minha mãe esteve sempre ligada a um processo de progressivo empobrecimento envergonhado, logo, de enorme contenção de despesas em casa, numa luta pela manutenção do estatuto social. Talvez por isso me lembre bem da alegria que partilhávamos em casa de Lisboa e na nossa quinta com a visita e, sobretudo, com o cabaz de compras da minha tia-avó rica, pelo lado materno. 

Com tantas referências à desgraça e falta de afluência em minha casa não estou sequer a insinuar que a situação da minha família pudesse ser comparável aquela que me rodeava nos arredores do Cartaxo. Hipotecada e arrendada, a nossa quinta foi, aliás, a única nas redondezas – daquela parte mais pobre do Ribatejo, que não se confunde com a região das grandes quintas à beira Tejo – que, desde a década de 1970, não passou de mãos. A única coisa que pretendo insinuar – seguindo aliás uma pista que li  num pequeno ensaio de Roland Barthes, no qual este argumentou que os sociólogos não tinham capacidade para descrever a vila onde nascera – é que existem inúmeras situações de não correspondência entre o estatuto elevado e até o poder de mediação de indivíduos e famílias, relativamente à sua débil condição económica. No caso da minha família, sempre é a disjunção entre o estatuto republicano e aristocrático, num mundo arcaico cheio de preconceitos sociais, e a ausência de rendimento que se torna muitas vezes invisível em muitas análises sociológicas. 

Retomando o fio à meada. É claro que as memórias da minha infância – onde fui aos pássaros com uma fisga, construí cabanas no alto das árvores com os meus amigos da aldeia, andei à solta pelos campos, comi o maravilhoso e único pão feito no forno pela Teresa, comecei a participar em pequenas patuscadas, ouvi falar pela primeira vez em raparigas e em relações sexuais – constituíram-se na minha arcádia. Uma arcádia a que acresciam as memórias do meu pai e do meu avô, que mal conheci, transmitidas pelos seus velhos colegas dos bancos de escola, de que faziam parte o Humberto, que foi sargento da Marinha de Guerra, e o grande Zé Bedo, o barbeiro da aldeia, conhecido por desafiar com os seus saberes a autoridade de padres e professores. 

Contudo, não esqueço que, desde sempre aprendi, que a aldeia e os campos em torno da quinta, eram também palco de gente que andava descalça, dos homens reunidos na taberna do Zé da Leonor e cujo principal traço era o do alcoolismo, da violência doméstica não muito escondida, do trabalho infantil, iniciado desde tenra idade, quer nos campos, quer nas obras. Mais tarde, pude aliás constatar, que os meus amigos da aldeia não tiveram direito a nenhum tipo de elevador social. Só o Filipe, filho do padeiro, veio a ser empresário da noite no Algarve. Os outros lá seguiram procurando profissionalizar-se no exército, empregando-se nas obras, emigrando sem deixar rasto e, infelizmente, houve também os que não resistiram ao consumo das drogas. Numa palavra, a reprodução social funcionou em pleno. 

Infelizmente, o abandono a que os campos são, hoje, votados – o que contraria qualquer tipo de uma arcádia campestre – tem paralelo nas minhas memórias familiares e pessoais. 

 

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