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A UE não vai passar fome, mas África e Médio Oriente estão em perigo
Sociedade 6 min. 24.03.2022
Guerra na Ucrânia

A UE não vai passar fome, mas África e Médio Oriente estão em perigo

Trabalhadores numa padaria na capital líbia, em Tripoli. Os preços do trigo estão a atingir níveis recorde devido à guerra, pondo em causa a segurança alimentar de milhões de pessoas nos países mais pobres.
Guerra na Ucrânia

A UE não vai passar fome, mas África e Médio Oriente estão em perigo

Trabalhadores numa padaria na capital líbia, em Tripoli. Os preços do trigo estão a atingir níveis recorde devido à guerra, pondo em causa a segurança alimentar de milhões de pessoas nos países mais pobres.
Foto: Mahmud Turkia/AFP
Sociedade 6 min. 24.03.2022
Guerra na Ucrânia

A UE não vai passar fome, mas África e Médio Oriente estão em perigo

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Não se prevê falta de comida, mas o preço dos alimentos na UE vai disparar, alerta Bruxelas. Organismo apresentou esta quarta-feira um conjunto de medidas para apoiar os agricultores e consumidores europeus, os agricultores na Ucrânia, e ajudar a debelar a fome global que a guerra poderá provocar.

Não se prevê falta de comida, mas o preço dos alimentos na UE vai disparar. Quatro milhões de hectares de terreno em reserva ecológica vão ser transformados em área agrícola para prevenir faltas. A maior preocupação é com a possibilidade de uma fome mundial. Por isso, Bruxelas vai ajudar a fazer as sementeiras na Ucrânia, mesmo com os agricultores debaixo de fogo, e criar corredores de exportação através da Polónia.

A guerra na Ucrânia vai levar a uma subida de preços dos alimentos, à revisão de regras ecológicas, e a ajudas diretas a agricultores e famílias vulneráveis, mas a União Europeia não precisa de entrar em pânico e começar a açambarcar. Foi a mensagem que esta quarta-feira transmitiram aos jornalistas o vice-presidente da Comissão Valdis Dombrovskis e o comissário para a Agricultura Janusz Wojciechowski. Os dois representantes europeus apresentaram um conjunto de medidas para apoiar os agricultores e os consumidores europeus, os agricultores na Ucrânia e ajudar a debelar a fome global que a guerra poderá provocar.

A invasão da Rússia, segundo Dombrovskis, mostrou que a Europa tem que garantir a sustentabilidade e resiliência da sua cadeia alimentar. "Tínhamos a segurança alimentar como um dado adquirido. Mas agora temos que pensar melhor, é como a política de defesa". Mas, por enquanto, não há perigo. "A UE é largamente autossuficiente no que diz respeito a produtos alimentares. Não há dúvida que o nosso fornecimento de alimentos não está ameaçado", sublinhou Dombrovskis. No entanto, há algo a fazer: temporariamente, durante este ano, a Comissão vai suspender a regra de quatro milhões de terra agrícola, equivalente ao tamanho dos Países Baixos, que deveria ficar disponível para biodiversidade (não cultivada). "Vamos derrogar esta medida, mas só temporariamente", garantiu, dando resposta aos grupos ecologistas que têm alertado que as promessas verdes da Estratégia para a Biodiversidade e do Prado ao Prato iam literalmente ser mandadas às urtigas por causa da guerra.

Interromper parte das políticas verdes e fornecer ajuda aos agricultores e famílias pobres

É uma medida cautelar, excecional e provisória, para aumentar a produção europeia, durante este ano, respondeu Janusz Wojciechowski sublinhando que para o longo prazo as políticas de sustentabilidade da reforma da Política Agrícola Comum (PAC), serão para continuar até porque, disse, "é precisamente, a agricultura de precisão, os eco-esquemas, as práticas de bem-estar animal e a agricultura biológica que garantem uma maior produtividade a longo prazo".

Mas os lóbis ecologistas em Bruxelas têm avisado que os lóbis das grandes empresas agrícolas na UE estão já a pressionar os legisladores europeus para apoiar as explorações intensivas. "Em 2027 a área de produção orgânica será 18% na UE, quando agora é de 8%. E não há razão para que isso não aconteça. Mas tanto nas orientações Do Prado ao Prato, como na Estratégia de Biodiversidade está especificado que se podem mudar os objetivos caso seja preciso garantir a segurança alimentar, é que estamos a fazer, sem prejudicar a meta global".


Campo de trigo na região de Sumy Oblast, na Ucrânia.
Trigo, alumínio e titânio: as matérias-primas estratégicas da Ucrânia e da Rússia
Desde o início da invasão russa à Ucrânia, os preços mundiais de muitas destas mercadorias subiram para níveis sem precedentes.

Além de cultivar a terra que deveria estar a ser transformada em áreas selvagens, serão distribuídos aos agricultores afetados pela guerra 500 milhões de euros. Além disso, os Estados-membro podem adotar ajudas estatais temporárias de crise. Os fundos do REACT-EU - que foram usados para a covid-19 - podem também ser usados para defender os mais vulneráveis da subida de preço dos cabazes alimentares. 

Além do mais, salientou Dombrovskis, vai ser preciso alimentar os mais de 3.5 milhões de ucranianos que já fugiram à guerra e os outros milhões que se espera que o façam.

O mundo às portas de uma fome bíblica, alerta ONU

A Ucrânia é o quinto maior produtor de trigo do mundo e tem das terras mais férteis da Europa. "É o cesto do pão", classificou o vice-presidente Valdis Dombrovski. E embora, a UE não deva sofrer com despensas vazias, a fome global pode atingir proporções bíblicas. Diretamente por causa da guerra, desde o início da invasão russa, a 24 de fevereiro, o trigo subiu 17%. Para a Europa, as consequências não serão dramáticas.

Mas por a Ucrânia ser o principal fornecedor para grande parte do Norte de África e para o Médio Oriente há neste momento um alerta vermelho de uma fome sem precedentes nesta zona. Esta semana, o responsável pelo Programa Alimentar das Nações Unidas (UNWFP), David Beasley, esteve em Bruxelas para pedir ajuda de biliões. 


Anatoly Pavlovich vai continuar a trabalhar, apesar da guerra.
Ucranianos não deixam de trabalhar. “A guerra é guerra, mas continuamos a precisar de jantar”
Na aldeia ucraniana de Mezhyvichka, região de Jitomir, perto da Bielorrússia, Anatoly Pavlovich já sabe o que vai fazer na segunda-feira: começar a plantar batatas, mesmo que os russos encurtem os 50 quilómetros da linha da frente.

Ao jornal Politico disse que "se pensam que isto é o inferno na Terra, preparem-se", se não houver uma ajuda efetiva para garantir comida para os tradicionais importadores da Ucrânia. "Se não se encontrarem este ano uns mil milhões de dólares extra vamos ter fome em massa, desestabilizações e também migrações em massa", alertou. A UE doou 2,5 mil milhões, mas segundo Wojciechowski poderá haver mais dinheiro fresco e há outras ações que a EU está a desenvolver. O comissário europeu da Agricultura, salientou que dar dinheiro só não chega, é preciso garantir que haja produção agrícola. E é isso que a Comissão está a fazer com a ajuda da Polónia.

Rússia ataca deliberadamente estruturas agrícolas e alimentares

Foi um momento comovente quando o comissário Janusz Wojciechowski relatou que o ministro da agricultura ucraniano contou aos ministros europeus das pescas e agricultura reunidos nesta passada segunda-feira que "na Ucrânia, os agricultores são soldados de dia e tratam da comida à noite. E muitas vezes morrem como soldados". 


“A escassez de alimentos nas cidades e os milhões de refugiados e deslocados exigem que seja mandada ajuda alimentar urgente para a Ucrânia", refere um relatório da ONU.
Bruxelas acredita que Rússia quer deixar ucranianos morrer à fome
"É um método semelhante ao usado na década de 1930 pelos soviéticos na Ucrânia e no Cazaquistão, onde milhões de pessoas morreram à fome", disse disse hoje o responsável europeu pela Agricultura, Janusz Wojciechowski.

A Rússia, disse Wojciechowski, "está propositadamente a devastar os campos ucranianos para provocar fome em massa às populações mais vulneráveis do mundo". E não é a primeira vez que isto acontece. Nos anos 30, Estaline provocou a morte a milhões de ucranianos famintos, lembrou o comissário polaco. E, neste momento, além de matar os ucranianos, "Putin está em risco de provocar uma fome a nível global". Neste momento, relatou, "os agricultores trabalham debaixo das bombas para garantir a segurança alimentar na Ucrânia, na Europa e no mundo". Uma das instalações recentemente bombardeadas foi um aviário, onde morreram milhões de aves.

Garantir as sementeiras da primavera na Ucrânia

Por isso, disse, "perguntámos ao ministro ucraniano, o que era mais importante para a Ucrânia? Para já vamos entregar 50 mil toneladas de diesel por semana, para poderem fazer as sementeiras da primavera". O combustível será entregue através da Polónia (país de origem do comissário europeu da Agricultura). A coordenação será feita pelo governo de Morawiecki. E vai ser a UE a financiar a operação.

Normalmente, as exportações para o Norte de África e para o Médio Oriente seriam feitas através dos portos ucranianos (Odessa e Mariupol), que neste momento estão bloqueados pelos russos. Por isso, a Polónia vai também ter o papel de canalizar o combustível e a ajuda humanitária e de alimentos para dentro da Ucrânia e ser porta de escoamento de produtos, sobretudo cereais, com o destino longínquo do Norte de África e do Médio Oriente.

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