Escolha as suas informações

A tranquilidade do amor banal
Opinião Sociedade 3 min. 28.09.2022
Andamos todos ao mesmo

A tranquilidade do amor banal

Andamos todos ao mesmo

A tranquilidade do amor banal

Opinião Sociedade 3 min. 28.09.2022
Andamos todos ao mesmo

A tranquilidade do amor banal

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Sem floreados, sem rococós, sem feitos extraordinários. Gostar de alguém é também ser capaz de admirar o outro nos momentos em que nada se passa.

"Ela nem é muito gira. Também não é feia. É normal. Faz um trabalho normal e tem um horário normal. É tudo muito normal. E eu gosto tanto."

"Ele é totalmente banal. Não tem nada de extraordinário e comporta-se como toda a gente. É um alívio."

Não faço por ouvir conversas que não me dizem respeito, mas gosto quando as palavras me chegam porque estou mais perto ou alguém fala mais alto. Gosto de ouvir um diálogo alheio que me deixa a pensar como será a vida daquelas pessoas, que chatices têm, o que as apoquenta, por que choram, o que as faz rir, onde vivem, porque sorriem tanto. 

E, gosto, claro, quando ouço conversas de amor. De paixão. De volúpia ou engate, de relações no início ou à beira do fim. De amores a começar ou casamentos a acabar. A autoestrada entre a cabeça e o coração tem muitos atalhos e não consigo evitar a viagem da imaginação ao pensar quais foram os caminhos que aquelas pessoas seguiram – ou as levaram a seguir – e que as conduziram ali.

Talvez seja por isso que continue à espera do dia em que ouvirei um estranho a falar do seu amor banal. Da sua pessoa especial que nada tem de especial além do facto de ser sua. Da tranquilidade segura que leva alguém a dizer que outrem é regular. Ordinário em vez de extraordinário. Normal em vez de fantástico.

Tenho esta coisa de precisar de admirar pessoas e de olhar para elas com uma mistura de inveja branca, respeito e agradecimento pelo tempo que dedicam a um tipo como eu. Isto não sou a menorizar-me ou a considerar-me inferior a quem quer que seja. Sou apenas eu a dar valor ao que os outros têm que os torna bons. Especiais. Pelas pessoas a que chegam, pelas palavras que escrevem, pela música que tocam, pela capacidade que têm de deixar o mundo melhor, mais belo, mais respirável. Ou porque me mostram esse lado mais belo e mais respirável.

Acho que não estou sozinho aqui. Não sou caso raro nesta necessidade de admiração do outro. Acontece, porém, que nesta vontade de elevarmos quem gostamos acabamos tantas vezes por os pousar num pedestal de onde é fácil caírem. Não por se terem colocado em bicos de pés ou por terem desejado alcançar mais do que conseguiam, mas apenas porque nós, os que precisamos de os admirar, os levantámos a um nível que eles até podem ter mas, sobretudo, que nós desejamos que tenham.

Às vezes, tantas vezes, só precisamos de gostar de alguém pela forma natural como consegue ser regular. Sem grandes floreados nem rococós. Sem grandes feitos ou promessas. Sem estar na calha para receber a próxima comenda, o próximo prémio, o próximo reconhecimento mundial ou dos seus pares Às vezes, tantas vezes, gostar de alguém é apenas – e isso é tanto – gostar da forma habitual como a pessoa se comporta, dos gestos banais que faz, da forma banal como tempera a comida, do jeito banal com que escolhe a roupa, da maneira banal com que se vira à noite na cama, do método banal que usa para estacionar o carro, do processo banal com que faz a barba ou do modo banal como segura o secador.

Às vezes, tantas vezes, gostar de alguém pode ser a coisa mais normal e banal do mundo. Sem deixarem de viver o incrível, mas sem o cansaço permanente e constante da procura do extraordinário. Aceitar isso pode ser meio caminho andado para a tranquilidade.

Eu não sei se conseguiria fazer isto. Mas gosto de pensar no dia em que o vou encontrar. Sobretudo quando escuto conversas alheias.


 

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.