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"A Terra é azul". A primeira viagem ao espaço foi há 60 anos

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"A Terra é azul". A primeira viagem ao espaço foi há 60 anos

"A Terra é azul". A primeira viagem ao espaço foi há 60 anos

"A Terra é azul". A primeira viagem ao espaço foi há 60 anos


por Bruno Amaral de Carvalho/ 12.04.2021

Foto: Lehtikuva/dpa

Faz esta segunda-feira 60 anos que o cosmonauta soviético Iuri Gagarin se tornou no primeiro ser humano a subir ao espaço. Durante 108 minutos orbitou o nosso planeta e descreveu aquilo que nunca ninguém havia visto.

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O sonho de tocar as estrelas
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Foto: AFP

Em 1920, o físico e engenheiro soviético Konstantin Tsiolkovsky, considerado na Rússia o pai da cosmonáutica pelo seu papel no desenvolvimento de foguetes, publicou o romance 'Fora da Terra', no qual apontava o ano de 2017 para a primeira viagem para fora da órbita da Terra. Tsiolkovsky não sabia que apenas 41 anos depois do seu livro o sonho se tornaria realidade. 

A corrida espacial entre a União Soviética e os Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial e já com a Guerra Fria em marcha, estimulou avanços tecnológicos na engenharia aeroespacial. Durante a primeira década, os soviéticos arrancaram sempre na frente.

Logo em 1957, Moscovo lançava o primeiro satélite artificial da história. Ao Sputnik-1 sucedeu-se o Sputnik-2 em que viajou a famosa cadela Laika. Depois de cumpridos os primeiros objetivos, em março de 1960, a URSS traçou como meta um voo espacial tripulado por humanos e criou uma equipa de aspirantes a cosmonautas.

Os candidatos foram treinados para resistir a um cenário desconhecido enfrentando várias provas que simulavam a viagem. Uma equipa de engenheiros soviéticos desenvolveu uma nave espacial e o programa Vostok, Leste em russo, enviou para a órbita da Terra os cães Belka e Strelka assim como dezenas de ratos e várias plantas. Foi a prova derradeira de que um organismo vivo poderia resistir a um voo deste tipo.

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A nave espacial
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Foto: AFP

A Vostok-1 pesava 4,73 toneladas e consistia em dois módulos. Um era o compartimento habitável, uma estrutura em forma esférica feita de liga de alumínio e protegida por um escudo térmico de 3 a 18 centímetros de espessura. Embora tivesse um diâmetro total de 2,2 metros, o volume interno era de apenas 1,6 metros cúbicos. O módulo estava equipado com sistemas de comunicação, navegação e cosmonáutica de suporte de vida. Tinha também duas escotilhas e uma de vigia através da qual o piloto podia observar o espaço.

O segundo módulo continha o equipamento necessário para o funcionamento do aparelho: balões de azoto e oxigénio, um sistema de orientação solar e um propulsor. Media 2,43 metros de diâmetro e 2,25 metros de comprimento e pesava 2,27 toneladas.

Segundo os planos dos engenheiros, para regressar à Terra, o módulo habitável deveria ser separado do outro módulo. Embora tenha sido concebido de modo a que o cosmonauta sobrevivesse à aterragem dentro do módulo de reentrada, era preferível que o piloto e a nave espacial descessem à Terra separadamente.

Para o conseguir, ao atingir uma altitude de sete quilómetros acima da superfície terrestre, foi ativado um assento ejetor para lançar o piloto para o exterior, seguido da abertura de um pára-quedas que devia fazer descer o piloto a cinco metros por segundo, metade da velocidade a que o módulo estaria a cair. 

A nave espacial foi levada para órbita pelo foguete Vostok, desenvolvido com base no míssil balístico intercontinental R-7 e testado pela primeira vez em setembro de 1958. Tinha uma altura de 38,36 e um diâmetro de 10,3 metros.

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Iuri Gagarin
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Foto: AFP

Iuri Gagarin era filho de uma camponesa e de um carpinteiro e tornou-se piloto da força aérea em 1957. Foi um dos 20 pilotos selecionados para a equipa inicial. Em outubro de 1960, o grupo ficou reduzido a seis pilotos e submeteu-se a um programa de treinos mais complexos e, em janeiro do ano seguinte, Gagarin obteve os melhores resultados.

Além da excelente preparação física, Gagarin possuía as qualidades psicológicas adequadas para o que se pedia. Sobre o seu perfil clínico-psicológico, os instrutores indicaram que "demonstrou grande precisão no desempenho de tarefas psicológicas experimentais" durante o treino. As suas reações a novas condições tais como a ausência de peso e o isolamento prolongado "estiveram sempre ativas". Ao mesmo tempo, tinha "uma elevada capacidade de relaxar mesmo em pausas curtas, [...] e de adormecer e acordar dentro de um período de tempo fixo". Os psiquiatras também destacaram a sua resiliência mental.

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Chegou o dia
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Foto: AFP

O dia 12 de abril de 1961 era esperado com expetativa. O lançamento estava marcado para o cosmódromo de Baikonour, no norte da República Soviética do Cazaquistão. No dia anterior, Gagarin escreveu à sua esposa. "Posso sonhar com outra coisa? É história, é uma nova era! Dentro de um dia, o meu voo descola. Acredito completamente na técnica. Não deve falhar. Mas por vezes acontece que um homem pode cair no lugar mais inesperado e partir o pescoço. Também pode acontecer neste caso. Mas não creio. Se algo acontecer, peço-te, Valiusha, não te mates por causa da tristeza". Era quase uma carta de despedida.

Às 9:07 daquele histórico dia, sentado no módulo habitável da Vostok, Gagarin pronunciou a sua famosa palavra: "Vamos!". Às 9:21, perdeu a gravidade. Minutos mais tarde, anunciou que estava sobre a América. Às 10:15, Gagarin voava sobre África, completando assim um círculo completo à volta da Terra. "A Terra é azul", comunicou. Após 10 minutos, começou a descida da cápsula. 

Durante dez dos 108 minutos do voo, Iuri Gagarin quase perdeu a vida porque o módulo de aterragem não se separava da nave espacial. O cosmonauta contou mais tarde que ficara impressionado com a forma como o revestimento protetor do veículo ardeu durante a aterragem e disse ter visto metal derretido. No entanto, o sistema de ejeção funcionou como planeado e a uma altitude de sete quilómetros saltou para fora da nave espacial, embora a quase 200 quilómetros do ponto planeado. 

Aterrou numa área habitada perto do rio Volga, na região de Saratov. A primeira pessoa a encontrar Gagarin foi a mulher de um guarda florestal que trabalhava no campo acompanhada da sua neta de cinco anos. Em 2016, Rumia Nurskanova recordou o momento que viveu com a avó. "Eu vi dois pontos vermelhos [no céu], mas a avó repreendeu-me e disse-me para continuar a plantar batatas. Concentrei-me no trabalho e esqueci-me do objeto. Depois vi muitas cordas no chão, de onde um monstro laranja se levantou, mas era bonito, e vinha na nossa direção". A avó e neta desataram a correr até que Gagarin gritou "sou um dos teus". "A minha avó ajudou-o a tirar o capacete, o rosto ficou à vista e vimos aquele homem sorridente", acrescentou Nurskanova.

Iuri Gagarin tornava-se assim mundialmente famoso e percorreu o planeta em diferentes iniciativas políticas, científicas e culturais. Em 1968, o primeiro cosmonauta da história acabaria por morrer a bordo de um caça MIG-15 enquanto efetuava um treino. Esta segunda-feira havia celebrações por toda a Rússia para recordar o homem que nos aproximou das estrelas.

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