Escolha as suas informações

A segunda vaga... da extrema-direita
Opinião Sociedade 3 min. 07.05.2020 Do nosso arquivo online

A segunda vaga... da extrema-direita

A segunda vaga... da extrema-direita

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 07.05.2020 Do nosso arquivo online

A segunda vaga... da extrema-direita

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A história já nos demonstrou demasiadas vezes a habilidade que os fascismos detêm para se alimentar do desemprego e do descontentamento popular, encontrando bodes expiatórios étnicos para problemas económicos complexos.

O explodir do flagelo global covid-19 trouxe a todos os democratas liberais uma singular esperança brilhando entre tanta angústia e infelicidade: poder significar o canto do cisne desse outro flagelo que é a vaga de populistas no poder, marcando o ponto de viragem em que a sua espessa capa de mentiras e culpabilização alheia cairia, expondo toda a gloriosa incompetência e mortífera inutilidade. O vírus seria uma espécie de “dia D” dos extremistas, o momento em que a realidade desfere um golpe fatal no castelo de cartas da propaganda. É que além de serem anti-verdade, os nacional-populistas são sistematicamente contrários às soluções centrais desta crise: anti-saúde pública, anti-intervenção do Estado na economia, anti-factos científicos.

As previsões rapidamente se revelaram certeiras: enquanto as democracias lideradas por mulheres (Nova Zelândia, Noruega, Finlândia, Taiwan, Dinamarca, Coreia do Sul, a própria Alemanha) se distinguem por lidar bastante bem com a pandemia, os membros da liga mundial nacional-populista (todos homens) tem caído, um a um, no mais abjecto ridículo. Donald Trump anda a vender todo o tipo de banha da cobra como cura para algo que tinha antes classificado como “conspiração democrata-chinesa”, tendo atingido um expoente com a sua recomendação de “injecções de desinfectante”; o ditador das Filipinas, Duterte, ordenou ao exército que atirasse a matar sobre quem não cumprisse as estritas ordens da quarentena. Quando confrontado com os números recorde de vítimas de um vírus que classifica de “um resfriadozinho”, Jair Bolsonaro respondeu “e daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres”. E na Europa, Boris Johnson foi salvo pelo serviço nacional de saúde – o mesmo que os seus conservadores desmantelam há anos; Marine Le Pen está perdida e confusa enquanto repete o mantra da “conspiração chinesa”; Matteo Salvini teceu tantas críticas estapafúrdias ao governo que os italianos desconfiam dele; em Espanha, muitos neofascistas do Vox foram infetados durante o próprio comício onde se riam da ameaça; até em Portugal a franja da população que segue o discurso “incómodo” de André Ventura perdeu alguma paciência para as suas atoardas. Por todo o lado, os peritos, os científicos, os que estudam, os que estão habilitados para falar sobre determinado tema foram reabilitados; por todo o lado, os que semeiam a discórdia e promovem a ignorância de forma a alçar-se ao poder ganharam um brilho ligeiramente mais pálido.

Só que não é tempo de baixarmos a guarda. Tal como o outro vírus, também a doença do nacional-populismo pode voltar com mais força, numa segunda vaga ainda mais difícil de combater. O próprio Trump parece estar a investir numa escapatória chamada “reabrir a América”, jargão para privilegiar a economia em relação à saúde e colher os louros de uma recessão menos grave do que o temido. Até os números altíssimos da epidemia – pelo menos um milhão de infectados e 60.000 mortos, a maioria nas grandes cidades cosmopolitas – podem ser apresentados pela Casa Branca como “uma vitória” contra algumas previsões catastrofistas que falavam em milhões de mortos.

O grande perigo, esse sim, chegará já nas próximas semanas com a viragem das preocupações da população em direcção à grande recessão que já estamos a atravessar. A história já nos demonstrou demasiadas vezes a habilidade que os fascismos detêm para se alimentar do desemprego e do descontentamento popular, encontrando bodes expiatórios étnicos para problemas económicos complexos. A retórica anti-chinesa já começou; em seguida seguir-se-ão as manobras para que os mesmos de sempre – todos nós – paguemos o mais duro da crise, salvando os “amigos do golfe” sentados na administração de bancos, companhias aéreas e petrolíferas. Completamente impreparada para enfrentar problemas difíceis, a extrema-direita ficou aturdida pela epidemia. Mas não desapareceu, está apenas em mutação.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.