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A portuguesa que chegou a Marte

A portuguesa que chegou a Marte

Foto: Frederic J. Brown/AFP
Sociedade 9 min. 05.12.2018

A portuguesa que chegou a Marte

Catarina OSÓRIO
Joana Neto Lima esteve envolvida na missão InSight em Marte, que lançou com sucesso uma sonda em maio deste ano. Após quatro anos no Centro de Astrobiologia em Madrid, a portuguesa procura agora regressar como bolseira para continuar a investigação sobre possível vida noutros planetas.

A frase do Skype de Joana podia bem ser o seu lema de vida: "Into the stars :)". E é-o verdade no sentido literal. "Nunca na minha vida imaginei que pudesse fazer uma coisa destas", reflete. Com quase 30 anos, o sonho que julgava "impossível" começou a desenhar-se quando decidiu ir estudar para Madrid, no Centro de Astrobiologia. "A minha mãe dizia quando eu era pequenina que a primeira coisa que eu fazia era apontar para as estrelas (...) E a minha mãe e a minha avó não deixavam por que se dizia que ganhavas aftas", conta a portuguesa ao Contacto.

Para além disso, não se enquadrava ao estereótipo de um cientista espacial, "senhores de meia idade, com aspeto estranho, super génios e americanos". Em 2008, "em plena crise em Portugal", Joana concorreu ao programa Erasmus. Aproveitando o facto de poder escolher onde poderia fazer o intercâmbio tentou "fazer o impossível": concorrer ao Centro de Astrobiologia, em Madrid. 

O centro pertence ao Instituto Nacional de Tecnologia Aeroespacial, e está localizado numa antiga base militar americana, com uma forte ligação à NASA. "Fomos o primeiro centro científico ligado ao NASA Astrobiology Institute fora de solo americano (...) e estamos envolvidos em todas as grandes missões", refere com orgulho.

Bióloga convertida em geóloga

Os investigadores do centro, onde se inclui Joana, estiveram envolvidos em missões de que ouvimos falar na imprensa ao longo dos anos, por exemplo o Curiosity (programa de exploração de Marte) ou a sonda Rosetta (que orbitou entre as órbitas da Terra e de Júpiter). "Atualmente estamos envolvidos nos próximos rovers que vão a Marte (veículos motorizados automatizados capazes de andar sobre a superfície do planeta) e nas futuras missões nas luas geladas como a Europa (em Júpiter) e Encélado (em Saturno)", explica. Refere-se de forma inconsciente a 'nós', apesar de já só colaborar atualmente com a equipa a partir de Portugal.

Joana trabalhou na missão InSight a partir do Centro de Astrobiologia em Madrid.
Joana trabalhou na missão InSight a partir do Centro de Astrobiologia em Madrid.
Foto: Joana Neto Lima

A portuguesa de 34 anos relata intensamente quatro anos felizes da sua vida em Madrid. Ia com a expectativa de ficar seis meses mas acabou por ficar quatro anos, numa bolsa de formação em Planetologia, na equipa de Planetologia e Habitabilidade. Os seus colegas engenheiros constroem os instrumentos que serão, no futuro, levados para o Espaço em missões. Pelo meio, estes instrumentos são estudados em sítios com climas extremos na Terra, como forma de simular superfícies espaciais. Numa fase posterior, Joana e os colegas analisam os dados em laboratório das amostras de rochas que são trazidas pelas equipas e comparam com dados existentes sobre a superficie destes planetas. "A parte mais chata mas que eu adoro", brinca.

Estas análises ajudam a "interpretar de uma forma mais objetiva os processos que estiveram na origem daquilo que estamos a ver [por exemplo] em Marte", explica. Amostras rochosas do deserto do Atacama (no Chile), da Antártida, da Islândia ou Etiópia já passaram pelas mãos de Joana, formada em Ciências do Meio Aquático na Universidade do Porto. Em 2017 esteve, inclusive, no Japão a estudar zonas de subducção, áreas de convergência de placas tetónicas, durante um mês e meio. Conhecimento que "pode ser aplicado ao estudo do Espaço", explica. 

Esteve também envolvida na missão InSight, o programa da exploração de Marte. Em maio passado fez questão de se juntar aos colegas em Madrid para acompanhar o evento de lançamento da sonda. A plataforma que aterrou com sucesso em novembro passado vai estudar o subsolo marciano nos próximos anos. O evento em maio, foi um momento de "orgulho" e de "matar saudades" da equipa, agora que os seus dias são passados longe do laboratório em Madrid.  

Das Novas Oportunidades à ciência espacial 

A equipa que integrou era constituída maioritariamente por espanhóis e longe de qualquer rótulo. "Não somos génios, saímos à noite para tomar uns copos e, apenas gostamos muito daquilo que fazemos", conta. Portugueses ainda são poucos na área, denota. A cientista não conseguiu bolsa para o doutoramento no mesmo centro, pelo que teve de regressar a Portugal. "Andamos todos assim infelizmente. Mudaram-nos os critérios à última da hora e ninguém entrou (...) exigiam dois mestrados", lamenta. Neste momento, pretende focar-se na geologia para complementar a formação. "Era bióloga mas converteram-me em geóloga, não vale a pena resistir", sorri. 

Até chegar a Madrid, o caminho nem sempre foi alegre para Joana. Ainda na casa dos 20 parou os estudos devido a um problema familiar que a atirou para uma depressão, e decidiu entrar para o mercado de trabalho. No âmbito do programa Novas Oportunidades (programa criado pelo então governo liderado por José Sócrates, com o objetivo de facilitar o acesso à escolaridade) trabalhou como técnica administrativa. Quando o programa chegou ao fim, Joana, na altura com 29 anos, ficou sem emprego, "tal como muito portugueses", o que a levou a regressar à licenciatura que tinha suspendido, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS).

Durante os próximos tempos, a cientista planeia ficar em Portugal, a fazer a tese de mestrado, a publicar os seus artigos científicos em revistas da área e a escrever sobre ciência. O tema da dissertação será provavelmente Marte, apesar de o seu coração bater mais forte pela lua Europa, no planeta Júpiter.

Exploração de minérios no Espaço "só daqui a 25, 30 anos"

Vamos viver em Marte um dia? Joana explica que ainda é cedo para afirmá-lo com certeza mas a acontecer não será para breve. Após décadas e tentar perceber o que lá existe, o que está na origem das suas formações geológicas, os investigadores estão agora na fase de interagir com o planeta, "como é que nós podemos aproveitar o que lá está e o que é que aquilo nos vai dar", argumenta.


Luxemburgo já está no Espaço
O Luxemburgo inaugura hoje uma nova etapa na história do país: uma agência dedicada à exploração do Espaço. O projeto tem como objetivo apoiar o desenvolvimento económico da indústria espacial.

Um ponto que desvia a conversa para a recém-criada Agência Espacial Luxemburguesa, com o objetivo de explorar comercialmente os recursos naturais presentes no Espaço. Joana é muito cautelosa em relação à efetiva exploração de minérios no éter, pelo menos no futuro próximo. "Até que as Nações Unidas definam uma legislação não irá avançar. (...) E temos a proteção planetária", justifica. Esta última consiste numa elite de cientistas que concede ou não autorizações a todas as missões fora da Terra, uma espécie de 'autoridade' que pretende conservar os planetas de possíveis danos resultantes da intervenção humana no Espaço. "Há sítios de Marte que estão vedados. Não podemos aterrar ali porque tem água, e há o risco de a contaminar", exemplifica.

Por este motivo, as ambições espaciais do Luxemburgo são olhadas com alguma reserva pela portuguesa. "Se eles [proteção planetária] disserem a essas empresas 'estes sítios estão vedados por uma questão de proteção de potencial vida ou preservação de alguma coisa' ninguém vai.. (...) São eles que dão a última palavra", assegura.

Mais, avançar já para a exploração mineira poderá ser um passo maior que a perna, considera. "Quando me falam da mineração no Espaço eu sou muito conservadora quanto a isso. Até chegar ao momento em que se diz quais são os minérios dispensáveis, ainda não fizemos esse tipo de mapeamento. (...) É como irmos para a Amazónia buscar árvores e nós nem sabemos o que lá está". Num cenário realístico, a exploração de minérios no Espaço "deverá acontecer só daqui a 25, 30 anos", projeta a cientista.

Para além de que projetos como estes podem demorar décadas a concretizar-se, como foi o caso da sonda Rosetta ou a lua Europa, uma lua que poderá ajudar os investigadores a compreender a origem da vida na Terra. Em relação a esta última, há três anos que a equipa do Centro de Astrobiologia tenta obter autorização para aterrar um sonda no local. O projeto levou mesmo Joana a Houston, onde esteve à mesa das negociações com a proteção planetária. "Vamos ficar velhinhos antes de conseguir lá chegar", brinca.  

Em relação a Portugal, a investigação ligado ao Espaço é ainda um nicho onde, prevalece a "pequena" mentalidade portuguesa e onde "não há outra ciência para além da engenharia", considera a jovem. "Agora que fui para fora e que vi que efetivamente são os nossos sonhos que nos limitam a nós mesmos. (...) Começo a entender muita coisa, porque é que nós não conseguimos ser competitivos a nível de ciência e fico muito triste. Porque nós temos muito potencial, temos pessoas espetaculares a trabalhar fora", lamenta.  

"Quero acordar Portugal para a ciência espacial"

Da mesma forma, Joana faz uma avaliação negativa da comunicação de ciência em Portugal. "Muita da ciência que é feita não é feita por cientistas, é feita por jornalistas", e muitas das vezes com "informação errada" ou "mal explicada". E dá como exemplo a recente descoberta de um lago subterrâneo em Marte, um lago "massivo, supostamente à superfície, com metros de profundidade" mas que não passava de uma "coisa minúscula", refere.

Situações como estas motivam Joana a colaborar com diversas entidades que comunicam ciência, entre elas uma plataforma online de cientistas (Bit2Geek) e a revista Bang! da FNAC, em colaboração com a editora Saída de Emergência. "Faço um esforço no meu tempo livre. porque nada é pago, falo em conferências de ficcão científica, falo para o máximo de pessoas que me possam ouvir, exatamente porque é importante divulgar ciência", firma. 

Uma conversa com a investigadora é, aliás, uma aula de história espacial. Joana conta-nos as rivalidades entre russos e americanos e porque a Guerra Fria 'impulsionou' a exploração espacial. Fala-nos também da água em Ceres, o planeta anão, e porque o estudo do Espaço está na origem de tecnologias que hoje damos como adquiridas. Por exemplo, o ar condicionado. Fala-nos também dos seus ídolos, Stephen Hawking e Carl Sagan. "Gostava de dizer uma mulher mas infelizmente é muito difícil encontar mulheres exemplo [na área] porque elas viviam muito escondidas", repara. Atualmente, considera a sua tutora no Centro de Astrobiologia "um ídolo".

Após o mestrado, a portuguesa aguarda com muita expectativa poder regressar ao Centro de Astrobiologia, onde será "muito bem recebida". O objetivo é ganhar uma bolsa para terminar o doutoramento em Madrid, se possível relacionado com a lua Europa. Até lá vai continuar a valorizar-se enquanto cientista, tentando publicar o trabalho que desenvolveu até agora em revistas académicas. 

"Sei que a minha tutora está a lutar por mim", remata confiante. E apesar de não o planear a curto prazo, Joana quer um dia trabalhar no seu país, uma vontade que se estende a alguns colegas lusos na área. "Queremos acordar Portugal para a ciência espacial", projeta, enumerando as críticas de muitos quanto à exploração do Espaço. Para esses Joana ergue-se em nome do éter: "Usas o Google Maps? Usas o Facebook? É por isso que se mandam coisas lá para cima".

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