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A pandemia prejudicou as mulheres e as queixas ouvem-se em português

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A pandemia prejudicou as mulheres e as queixas ouvem-se em português

A pandemia prejudicou as mulheres e as queixas ouvem-se em português

A pandemia prejudicou as mulheres e as queixas ouvem-se em português


por Teresa CAMARÃO/ 11.03.2021

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort

Havia dezenas de vozes lusófonas entre os milhares que saíram à rua no Dia Internacional da Mulher no Luxemburgo. O Contacto foi ouvi-las. São lutas sentidas e contadas em português.

"Sempre senti que tinha de provar o dobro para ter o mérito ou o reconhecimento que um homem luxemburguês branco tem quase imediatamente", atira Ana Martins. Consciente que a condição de mulher e emigrante lhe tem condicionado os passos, a portuguesa que chegou ao Grão-Ducado com apenas oito meses não esconde a satisfação "por ver tantos homens conscientes" no protesto que assinalou o Dia Internacional da Mulher no Luxemburgo, neste 8 de março. 

"Está mais que na hora de se perceber que queremos igualdade, não queremos melindrar ninguém, muito menos entrar numa luta para nos sobrepormos. Igualdade e reconhecimento", põe o pé no travão antes de nos guiar ao contexto familiar. Filha "de um homem das obras" e "de uma mulher da limpeza" fala na primeira pessoa sobre uma das quatro reivindicações que a plataforma feminista JIF (Journée International des Femmes) trouxe para a sua segunda greve das mulheres. "A redução do tempo de trabalho é transversal a todas, mas tenho a impressão que é particularmente importante falarmos disto com a comunidade portuguesa em que a mulher tem de fazer tudo", começa. "O meu pai sempre teve hora de entrar e sair, a minha mãe não. Era ela que nos fazia o pequeno-almoço, que nos ia levar e buscar à escola. É uma carga enorme. Mais do que isso é trabalho emocional que não é visto nem reconhecido como tal", prossegue na viagem ao próprio universo. 

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort

"As mulheres precisam de trabalhar menos, é uma coisa que toda a gente devia fazer, mas as mulheres em específico que acumulam funções atrás de funções deviam ter tempo e espaço e, sim, temos mesmo de olhar para isto porque não podemos deixar que, numa família, seja uma única pessoa a assumir tudo".

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Ricarda Ferraz conhece o tema de cor e salteado. "Femme de menage" há 22 anos – desde que aterrou no Luxemburgo – nunca teve um contrato de oito horas, apesar de passar o dia a correr "de um lado para o outro" e de assegurar todas as tarefas domésticas. Ao contrário do marido, que além do vínculo a tempo inteiro tem horário fixo, Ricarda faz limpezas em várias casas particulares. Veio sem ele, embora faça questão de dizer, que tem um feminista "atento aos direitos de todos" em casa. Sob o olhar atento das duas portuguesas que a acompanharam à manifestação resume o que a trouxe à luta em três ideias chave: "temos de trabalhar, temos de ter condições e ter um ordenado digno. É simples".

Preocupada com o futuro, a mulher que trocou a farda de jardineira da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pelo avental luxemburguês, culpa a pandemia "por todos os retrocessos a que estamos a assistir". Reivindicativa “desde que nasceu”, queixa-se da falta de união no mundo das mulheres, apesar de reconhecer que muitas "não podem" e "têm até medo" de falar. "Sinto-me respeitada no Luxemburgo, se disser que não houve melhorias em 20 anos estou a mentir, mas às vezes olho para as gerações mais jovens e cresce-me qualquer coisa cá dentro. Não sei. Acho que é o sentimento de injustiça", faz uma pausa para organizar as ideias. "Isto das casas é uma coisa sem explicação. Os mais novos não têm condições para pagar uma renda com o que ganham. Também é por isso que estou aqui. Por mim sim, mas mais pelos outros".

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort

Também é o caso de Isac Valente, o português que se juntou à plataforma de homens solidários com as iniciativas promovidas pelas feministas da JIF. "Acho essencial apoiar a emancipação da mulher e a causa feminista. Principalmente aqui no Luxemburgo como português, visto que somos uma das maiores comunidades emigrantes e somos também a mais precária", expõe, assumindo-se como marxista-leninista. "A nossa comunidade é uma das mais afetadas pela especulação imobiliária e essencialmente pela desigualdade entre homens e mulheres. Também somos a maioria no setor das limpezas ou a construção e estamos na linha da frente de todos os problemas. Desde a habitação à exploração. Basta ver que há muitas famílias portuguesas a morar do lado de lá da fronteira precisamente porque não conseguem arrendar uma casa no país onde trabalham e onde fazem a sua vida".


Desigualdade de género. Salários altos são quase "inatingíveis" para as mulheres
Apesar de terem mais qualificações, as mulheres estão em maioria nos cargos intermédios. Salários e cargos altos continuam território masculino.

A JIF sabe e foi precisamente por isso que, este ano, apostou na comunicação em português. "Sabemos que as trabalhadoras do setor dos cuidados são na maioria emigrantes e fronteiriças, não tem outros meios de participação política. Estar na rua é mesmo a única maneira de participarem de forma democrática e é importante para nós podermos falar para essas mulheres numa língua que elas percebem", sintetiza a ativista da plataforma feminista, Jessica Lopes. O resultado está à vista. Atualmente, dos 35 membros da JIF, seis têm nacionalidade portuguesa.

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"Mulheres livres, povos soberanos". Entre centenas de cartazes em francês, alemão ou luxemburguês, a língua portuguesa sobressaía nas mãos de uma brasileira. "É uma questão de representatividade trazer a nossa língua para aqui. Mostrar que não esquecemos a luta das mulheres que vivem em países de fim de linha como o meu, onde uma mulher morre a cada dez minutos, vítima de violência doméstica", engole em seco. Com 27 anos, Kauyini, que está a terminar o mestrado em Engenharia Civil, diz que "apesar de haver muito para conquistar" vive numa espécie de oásis. "É verdade que na minha turma somos duas mulheres e 16 homens, é verdade que neste ramo as mulheres se ficam pelos cargos mais baixos, é verdade que senti machismo quando trabalhei atrás do balcão de um café, mas pelo menos aqui tenho a sensação que é mais possível falar-se em dignidade do que no Brasil, que estamos mais perto de atingir as metas que não me permitem sequer pensar voltar", respira antes de se dirigir às conterrâneas. 

Kauyini, de 27 anos, é estudante de Engenharia Civil no Luxemburgo. É uma das duas únicas alunas duma turma composta maioritariamente por homens.
Kauyini, de 27 anos, é estudante de Engenharia Civil no Luxemburgo. É uma das duas únicas alunas duma turma composta maioritariamente por homens.
Foto: Teresa Camarão.

"Eu acho que até pode ser meio rude mas eu gostaria de pedir às mulheres que vivem aqui com o apoio do Governo luxemburguês para refletirem. Todas as políticas do Governo do Bolsonaro são extremamente capitalistas e os direitos das mulheres continuam a ser desfeitos. Aqui ainda há muito a fazer, mas há menos. Mesmo muito menos. Porque não lutamos também pelo mesmo no Brasil?"

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Há avanços mas não chegam para compensar os séculos de desigualdade entre homens e mulheres também por aqui, no Grão-Ducado.

Na sua mais recente visão sobre o assunto, o Statec conclui que, apesar de serem mais e melhor qualificadas, as mulheres continuam na base da pirâmide salarial. Nas hierarquias o padrão repete-se. Embora esteja em maioria nos chamados cargos intermédios, o sexo feminino continua praticamente arredado das posições de chefia.

O Parlamento é um bom exemplo da disparidade. Dos 60 deputados eleitos, apenas 19 são mulheres, correspondendo a uma percentagem de 30%. O único partido onde mais de metade das eleitas são mulheres é o Déi Gréng – cinco em nove. Mesmo no Governo, há 12 ministros contra cinco ministras. Um reflexo do tecido laboral luxemburguês.

Dados da desigualdade

Apesar de, atualmente, 38% da força de trabalho do Luxemburgo ser assegurada por mulheres, apenas 6% chegam ao topo da carreira, contra 11% dos homens. De qualquer forma, o sexo feminino tem mais qualificações: 44% das mulheres tem curso universitário, enquanto apenas 35% dos homens terminaram os estudos superiores.

De acordo com dados lançados pelo Instituto de Estatística luxemburguês só abaixo dos 40 anos de idade é que o salário médio das mulheres consegue ser superior.

Em comparação com os restantes estados membros e, juntamente com a Roménia, o Luxemburgo tem, no entanto, a menor disparidade salarial (7%) entre homens e mulheres da União Europeia.

Neste aspeto específico, o "teto de vidro" luxemburguês é o acesso os salários mais altos. O próprio Statec assume que parecem “permanecer inatingíveis” para as mulheres, independentemente da formação e das provas dadas em ambiente de trabalho.

Não admira portanto que as pensões das mulheres sejam tendencialmente mais baixas quando comparadas com as que são auferidas por indivíduos do sexo masculino. De facto, não só as mulheres estão em grande maioria nos setores que por norma são menos bem pagos – como a saúde, o comércio ou as limpezas – como também ocupam a maior fatia dos trabalhos a tempo parcial, pagos abaixo do salário mínimo nacional, representando mais de um terço destes vínculos precários. Feitas as contas, a diferença é de 30 pontos percentuais, sendo que 36% das mulheres não tem um horário de 8 horas. Em franca minoria, os homens são 6%.

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Elisabete Soares é a nova presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo.