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A pandemia e as dating apps mudaram o amor para sempre?
Sociedade 8 min. 08.01.2021

A pandemia e as dating apps mudaram o amor para sempre?

A pandemia e as dating apps mudaram o amor para sempre?

Sociedade 8 min. 08.01.2021

A pandemia e as dating apps mudaram o amor para sempre?

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Nos últimos meses, as medidas impostas pela covid-19 obrigaram-nos a trocar primeiros encontros em bares por caminhadas no parque com dois metros de distância e jantares românticos no Zoom. Enquanto isso, tendências como as dating apps cresceram exponencialmente.

Fábio, 31 anos, aventurou-se numa dating app no início da quarentena. Sem oportunidades de conhecer pessoas novas num bar ou numa discoteca, como lhe seria habitual, decidiu criar um perfil: “Como tenho menos facilidade de sair à noite e de beber um copo, acabei por recorrer às aplicações”, conta Fábio.

“Estes hábitos que se criaram vão acabar por ficar, mas de um modo geral, acredito que as pessoas vão ter cada vez mais uma sede incrível de estar juntas, cara a cara”.

"  Não consegues engatar fisicamente, mas dá para engatares virtualmente.”

A perceção é que a covid-19 dificultou a formação de novos interesses amorosos. Sandra, 28 anos, concorda: “Onde é que vais conhecer pessoas novas? Num café às cinco da tarde? O facto de não haver bares, discotecas, de se conviver menos... as aplicações facilitam. Não consegues engatar fisicamente, mas dá para engatares virtualmente”.

Outros métodos mais tradicionais também registaram um aumento exponencial da procura na segunda metade de 2020. Liliana Paiva, psicóloga e coordenadora da AmoreNostrum, diz que a agência matrimonial viu um aumento de 50% no número de clientes assim que as restrições começaram a relaxar em Junho.

“Curiosamente – ou não – começámos a ter muita procura logo depois do confinamento, quando as coisas começaram a abrir mais um bocadinho”

“O facto de as pessoas ficarem em casa acabou por fazer com que sentissem mais a solidão e decidissem: okay, não vou adiar mais – porque eu não sei como é que vai ser o meu dia amanhã”, diz Liliana.

O serviço é essencialmente presencial, mas desde que começou a pandemia tiveram de se adaptar aos tempos e de abraçar as ferramentas digitais. A agência passou a oferecer também opção de fazer as consultas de matchmaking e acompanhamento psicológico por WhatsApp e pelo Skype.

Amor e restrições em tempo de coronavírus

Num esforço para desacelerar a propagação do vírus e “achatar a curva” da pandemia covid-19 no início de 2020, países em todo o mundo implementaram restrições históricas ao contacto social e à liberdade. Ordens para confinamento e “distanciamento social” causaram mudanças drásticas no dia-a-dia das populações.

No estudo “Online dating em tempos de covid-19: um processo de reimaginação de serviços e práticas”, Rita Sepúlveda e Miguel Crespo, do MediaLab do ISCTE consideram que “A covid-19 tem imposto desafios no âmbito da intimidade, incluindo em contextos de online dating, com as apps a apresentarem alternativas ao confinamento social e os utilizadores a reinventarem os encontros”.

Os investigadores defendem que na negociação da intimidade no âmbito de online dating, no pós-covid-19, várias questões se colocam não só do ponto de vista tecnológico, mas também do ponto de vista relacional.

 Carmo Gê Pereira, educadora sexual, acredita que as restrições impostas pela pandemia podem ter trazido um “reforço das relações românticas e afetivas como as principais, como relações nucleares”.

  “Quando nós somos fora da norma, a internet foi desde sempre um espaço para conhecer outras pessoas.”  

“Não que seja um problema que as pessoas tenham relações monogâmicas ou românticas – mas é um problema quando isto se torna a única fonte de toque e de contacto humano e quando isto se torna a principal ou a relação permitida, ou a relação não sancionada por questões de saúde pública.”

Carmo considera ainda que, apesar de a pandemia ter amplificado problemas de isolamento na sociedade, não os criou: “todas estas coisas partem de um pressuposto que eu acho que é o pressuposto um bocadinho da norma e da maneira como as pessoas dentro da norma faziam a sua sociabilidade sexual, afetiva e romântica”.

“Quando nós somos fora da norma, a internet foi desde sempre um espaço para conhecer outras pessoas”.

“É altura de aprendermos com estas comunidades quais foram as ferramentas que foram desenvolvidas”, conclui. “A tecnologia já é um facilitador há muito tempo e a quantidade de aplicações de dating dos últimos anos mostram-nos que tendencialmente tem sido muito mais fácil conhecer pessoas online.”

A ascensão das dating apps

O primeiro domingo do ano, ou Dating Sunday, que este ano calhou logo a 3 de janeiro, é uma data especial para quem encontrar o amor é uma das resoluções para o novo ano.

A Bumble previa três milhões de novos utilizadores entre o Dia de Ação de Graças e o Dating Sunday e OKCupid estima que o último domingo tenha sido o dia mais movimentado da história do site.

A pressão social em torno do Natal, Ano Novo e Dia dos Namorados, este ano aliada às restrições da pandemia, explicam porque o dia é tão popular.

A Match – o grupo por detrás do Tinder, OkCupid e Hinge – relatou um aumento de 11% na média de assinantes em um ano, um ganho de cerca de um milhão em relação ao mesmo trimestre do ano passado

Novas subscrições do Tinder aumentaram 20% entre março e julho e os downloads do Hinge duplicaram entre 2019 e 2020. Desde que começou o isolamento, a Bumble viu um aumento de utilização de 25% e atingiu os 100 milhões de utilizadores.

Paula, 58 anos, também conheceu pela primeira vez alguém virtualmente o ano passado: “foi muito giro. Passava imenso tempo ao telefone com ela e dávamo-nos lindamente, mas quando nos conhecemos ao vivo não tivemos química nenhuma.”

Para Paula, a experiência do isolamento da pandemia e os avisos à distância social “entranharam-se e condicionam” a intimidade. “Numa situação normal, talvez tivesse ido de coração mais aberto e mais disponível, mas neste contexto, mesmo inconscientemente, acho que acabamos por nos auto-castrar.”

Sandra, por outro lado, diz ter tido uma boa experiência. “Recomendo sempre às minhas amigas”, conta Sandra. Teve alguns encontros no início da pandemia, mas acabou por conhecer alguém com quem tem estado desde então. “Começámos a falar através das apps, falámos durante algum tempo e eventualmente combinámos encontrar-nos. Já lá vão uns meses”, conta.

Apesar de considerar que as apps lhe vieram facilitar a vida, para Sandra, a química em pessoa não é fácil de recriar. O conselho? Conhecerem-se ao vivo rapidamente. Mesmo em tempos de pandemia? “Sim, com o distanciamento e a segurança possível e respeitando o espaço do outro”.

Carmo Gê Pereira acredita que ter espaço e tempo para conhecer pessoas virtualmente permite-nos aprender a gerir expectativas e a comunicar, aprendendo a criar relações “cujo começo não seja com uma base de embriaguez, que nos prejudica na questão do consentimento, ou de atração física que muitas vezes apaga outros sinais de alarme aos quais deveríamos estar atentos”.

Manuel, 55 anos, é cético: “Se procuras conhecer realmente alguém a sério não sei se as redes são a melhor forma de o fazer”, explica Manuel, “se calhar tem a ver com a idade. É difícil estabelecer confiança online.”

As empresas de dating notaram a preocupação e têm investido na segurança e em funcionalidades que aumentem a confiança dos utilizadores. A tendência não é nova, mas intensificou-se no último ano – a Bumble, por exemplo, permite escolher se estão interessados em encontrar-se em pessoa, com ou sem máscara, ou por videochamada.

Namorar no mundo pós-pandemia

Um estudo do Kinsey Institute sobre o impacto da covid-19 no sexo e nas relações aponta também para um aumento nas pesquisas online de pornografia e de conteúdo erótico nas redes sociais, para além do crescimento das dating apps e de conteúdo erótico nas redes sociais.

A OnlyFans, por exemplo, uma rede que permite aos utilizadores aceder e partilhar conteúdo, geralmente erótico, em troca de um pequeno valor pago mensalmente. A plataforma, criada em 2016, tem atualmente mais de um milhão de criadores a partilhar conteúdo e, desde maio, viu o seu público crescer de 30 milhões para 85 milhões de utilizadores.

Este crescimento parece sugerir que estamos a meio de uma revolução – uma que poderia mudar permanentemente a forma como abordamos o amor e o sexo muito para além dos tempos pandémicos.

Em contraste, o estudo denota também que novas experiências sexuais baseadas na tecnologia não significam necessariamente uma melhoria na perceção da qualidade da experiência. Isso sugere que, embora seja mais comum incorporar tecnologia na vida sexual e afetiva, tal não parecia ser tão gratificante como as atividades que envolvem o contato em pessoa.

Para Rita Sepúlveda e Miguel Crespo, do MediaLab do ISCTE, “os últimos meses trouxeram mudanças do que são as interações normalizadas e padronizadas do romance, da intimidade”.

No entanto, os investigadores dizem ser possível que a adoção das plataformas digitais seja apenas um remédio temporário e que o uso da tecnologia diminua à medida que a pandemia for controlada.

Ana, 38 anos, sente que os planos de encontrar um parceiro a longo-prazo ou de começar uma família foram inevitavelmente adiados: “a pandemia colocou a minha vida romântica em standby”.

Face à situação, Ana também recorreu às dating apps. Ainda assim, tem dúvidas. “Será que ele é igual às fotos? Será que vai gostar de mim pessoalmente? É estranho – não acho que o futuro do amor seja virtual. Ou, pelo menos, espero que não.”

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