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Comprimido anticovid. A nova arma para combater a vaga da pandemia
Sociedade 11 min. 18.11.2021
Covid-19

Comprimido anticovid. A nova arma para combater a vaga da pandemia

Comprimido anticovid-19 da Pfizer num dos laboratórios da farmacêutica, em Freiburg, Alemanha.
Covid-19

Comprimido anticovid. A nova arma para combater a vaga da pandemia

Comprimido anticovid-19 da Pfizer num dos laboratórios da farmacêutica, em Freiburg, Alemanha.
Foto: AFP
Sociedade 11 min. 18.11.2021
Covid-19

Comprimido anticovid. A nova arma para combater a vaga da pandemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
É o primeiro antiviral oral que previne a covid-19. Não substitui a vacina, mas tomado aos primeiros sintomas, em casa, evita muitas hospitalizações e mortes, explicam especialistas ao Contacto. As autoridades europeias estão a acelerar o processo para que o medicamento chegue rapidamente mercado e ajude a travar esta onda pandémica.

Aos primeiros sintomas de gripe vai-se à farmácia e compra-se um antiviral para travar a progressão da doença, evitar dias na cama e rapidamente resolver a situação. Em termos simples, é assim que funciona o primeiro comprimido contra a covid que está prestes a chegar ao mercado: a toma oral, de várias cápsulas por dia, em casa, aos primeiros sinais da doença, durante cinco dias, para acelerar a recuperação, prevenir as formas graves da infeção, e consequentes hospitalizações e mortes. A seguir à vacina este é o maior avanço no combate à pandemia. Não substitui a vacinação, mas vai ser o seu "maior aliado". Até agora, para a prevenção só existe a vacina e os tratamentos para a covid administrados em meio hospitalar.

Este primeiro tratamento profilático contra a covid é destinado às pessoas de risco e foi desenvolvido por duas farmacêuticas, a Merck Sharp & Dohme e a Pfizer, com cada uma a apresentar a sua nova "arma" num espaço de dias.

Este fármaco pode diminuir a nossa imunidade para futuras infeções, ou seja, não substitui a necessidade da vacina.

Trung Nguyen, virologista no Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo

O princípio de ação é o mesmo, em ambos os comprimidos, e os resultados dos ensaios clínicos foram tão promissores que no Reino Unido, a agência do medicamento inglesa já autorizou a introdução no mercado do comprimido da Merck, o molnupiravir (também conhecido como MK 4482 ou Lagevrio), e o governo encomendou 480 mil ciclos do tratamento completo, com o comprimido da Merck, e outros 250 mil do antiviral da Pfizer. Nos EUA, a Pfizer vai pedir a autorização de emergência à FDA, o regulador norte-americano, para o seu antiviral oral, o Paxlovid, tendo igualmente o governo de Biden já encomendado milhões de ciclos deste novo antiviral.


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O regulador britânico tornou-se o primeiro no mundo a aprovar o comprimido antiviral da Merck - molnupiravir - descrevendo-o "como seguro e eficaz". Deverá ser tomado durante cinco dias.

Perante a nova vaga da covid que assola a Europa, os Países Baixos já decretaram mesmo um novo confinamento, a Agência Europeia do Medicamento (EMA) anunciou há dias que "está a rever os dados disponíveis sobre a utilização do medicamento molnupiravir, da Merck, de forma a apoiar as autoridades nacionais, caso estas decidam utilizar este novo fármaco para o tratamento da Covid-19, antes da sua autorização efetiva". 

Em comunicado, a EMA anunciou que "concordou em conjunto com os chefes das agências de medicamentos com a necessidade de orientações adicionais sobre os tratamentos Covid-19, no seguimento do aumento das taxas de infeção e mortes por Covid-19 em toda a União Europeia (UE)".

Como atuam os dois comprimidos? De forma semelhante, reduzindo a replicação do vírus no nosso organismo, evitando que evolua para doença grave e promovendo uma recuperação mais rápida. Os ensaios clínicos da Merck revelaram que o seu comprimido reduziu em 50% o risco de hospitalização e morte, que nenhum dos doentes do grupo a quem ministrou o molnupiravir faleceu, enquanto no grupo do placebo houve oito mortes.

O comprimido anticovid-19 da Pfizer numa linha de fabrico em Freiburg, na Alemanha.
O comprimido anticovid-19 da Pfizer numa linha de fabrico em Freiburg, na Alemanha.
Foto: AFP

Por seu turno, a Pfizer divulgou que o Paxlovid diminuiu em 89% o risco de hospitalização ou morte em adultos vulneráveis à covid, segundo os dados preliminares dos resultados de ensaios clínicos, que estão mais atrasados do que os da Merck.

Um grande avanço

"Estes comprimidos representam um grande avanço. Os resultados dos ensaios clínicos são muito promissores. Não vêm substituir a vacina, mas vêm criar condições para que algumas pessoas, com risco de desenvolver formas graves da doença, possam ter uma evolução mais favorável e, eventualmente, podermos prevenir o desenvolvimento da covid, através da sua utilização em profilaxia", declarou ao Contacto o pneumologista Filipe Froes, consultor da Direção-Geral da Saúde em Portugal e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos. Filipe Froes adiantou que, no caso do molnupiravir, "os ensaios clínicos tiveram resultados tão favoráveis que foram interrompidos, não sendo necessário levá-los até ao fim, devido à robustez da evidência e o antiviral já foi autorizado no Reino Unido".


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O pneumologista português é peremptório: "Este antiviral oral representa uma mudança nas regras do jogo no combate à pandemia. Neste momento, estamos a assistir a uma mudança do paradigma da abordagem terapêutica da covid. Este medicamento tem uma dupla vantagem, a de proteger as pessoas mais vulneráveis, evitando formas graves da doença e concomitantemente diminuir a necessidade de recursos diferenciados nas estruturas hospitalares que já estão sobrecarregadas". 

Por isso, este especialista acredita que a EMA irá autorizar o mais rápido possível esta "nova arma", tendo garantida a sua eficácia e segurança. Além de que, salienta, é bom haver dois comprimidos de farmacêuticas diferentes, "pois há mais opções disponíveis e há concorrência, o que tem vantagens".


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Provada a eficácia e segurança para os doentes, há outros fatores, por apurar, no novo maior aliado da vacina. "Falta prever o potencial de desenvolvimento de resistências que o antiviral tem, a sua segurança nas pessoas com menos de 18 anos e grávidas e a segurança de utilização por mais dias. Além de um dado fundamental que é o preço do fármaco, sobretudo em países como Portugal", salienta Filipe Froes.

Nos Estados Unidos, a Merck tenciona cobrar 712 dólares (622 euros) pelo antiviral, um preço ajustado ao mercado norte-americano, mas que na Europa é demasiado elevado, como vinca o pneumologista. Na Europa, ainda se desconhece o preço a ser acordado. Contudo, se este medicamento de ambulatório previne gastos em internamentos hospitalares e sobrecarga dos serviços, é mais vantajoso pagar o preço elevado do fármaco, entende Filipe Froes. 

O pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da covid-19 da Ordem dos Médicos.
O pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da covid-19 da Ordem dos Médicos.
LUSA

Disponibilidade imediata

A disponibilização deste novo antiviral oral, o primeiro específico para tratar os sintomas iniciais da covid, no mercado é vista com urgência, numa altura em que se aproxima o inverno e a Europa voltou a ser o epicentro de uma vaga da pandemia, apesar da vacinação. Mais 64% da população adulta da União Europeia e 76% da população do Espaço Económico Europeu e UE já está vacinada, revela o mais recente relatório do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo da Doença (ECDC, sigla em inglês).

Mesmo assim, o aumento de infeções bate recordes em países como a Alemanha, e atinge novos picos como nos Países Baixos, que está em novo confinamento parcial nas próximas três semanas. Por toda a Europa, assiste-se a um crescimento de casos de infeções diárias que se traduzem numa quinta vaga. O mapa da covid no velho continente voltou a estar pintado de vermelho em muitos países, nomeadamente o Luxemburgo, a Alemanha e Bélgica, a cor que indica maior número de casos por 100 mil habitantes. Portugal está a laranja (nível abaixo), bem como a maior parte das regiões francesas, dados de dia 12. A organização Mundial de Saúde já alertou também para esta "tendência preocupante" da transmissão do vírus da Europa. 

Como é possível? O regresso do frio, aliado a grandes diferenças de cobertura vacinal entre os países da Europa e do mundo, e o relaxamento das medidas de proteção individual são fatores que contribuem para o agravamento da situação atual, indica ao Contacto o virologista Trung Nguyen, responsável pelo serviço de virologia e serologia do departamento de microbiologia do Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo.

A nível europeu, Portugal é o mais com a mais alta taxa de vacinação completa de adultos (91,8%) e 81% de população total vacinada, indica os dados de dia 12, do ECDC. Já Bulgária o país com mais baixa vacinação, 22,9%. O Luxemburgo tem 75,8% da população com mais de 18 anos vacinada, taxa que desce para 65,2% na população em geral.


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Trung Nguyen também concorda que o comprimido anticovid é "um importante avanço na luta contra a pandemia, sobretudo pode ser útil em caso de infeção, para proteger pessoas com alto risco de hospitalização ou morte que, por várias razões, não são imunes à covid-19. Os primeiros resultados do estudo classificam o tratamento como promissor, mas temos de aguardar a decisão das agências de medicamentos, para uso em caso de emergência sanitária".

"A prioridade continua a ser a vacinação para reduzir as infeções e evitar a sobrecarga hospitalar, os doentes graves e mortes", realçam em uníssono o virologista e Filipe Froes. Trung Nguyen realça ainda que o novo antiviral oral não é útil para os assintomáticos, "como não têm sintomas não se apercebem que foram infetados e não tomam o comprimido". Para reforçar que o novo antiviral só pode ser entendido como complemento da vacina, o pneumologista português lembra que se desconhece ainda o seu efeito na imunidade contra a doença a longo prazo. "Ao impedir a replicação viral e diminuir o grau de resposta do hospedeiro até que ponto este fármaco pode diminuir a nossa imunidade para futuras infeções, ou seja, não substitui a necessidade da vacina".

O virologista Trung Nguyen, responsável pelo serviço de virologia e serologia do departamento de microbiologia do Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo.
O virologista Trung Nguyen, responsável pelo serviço de virologia e serologia do departamento de microbiologia do Laboratório Nacional de Saúde do Luxemburgo.

Os riscos da nova vaga

"A vacinação é a arma mais eficaz na gestão da pandemia da covid e isso tem sido comprovado, e com o aumento atual de infeções é fundamental que as pessoas se vacinem. Enquanto tivermos parte da população por vacinar, o vírus vai continuar ativo, a propagar-se e a contaminar", relembram.

As baixas temperaturas do outono e inverno, são mais uma vez, impulsionadoras de casos de covid. "Com o frio, a sobrevivência do vírus é mais longa, e por outro lado, as pessoas concentram-se mais nos espaços interiores, o que aumenta o risco de contágio", nota o virologista do Luxemburgo, apelando à vacinação dos residentes do país.


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"É fundamental para quem tem uma vida social ativa, como os mais jovens. Aconselho-os a vacinarem-se, pois apesar de correrem menos riscos de contrair uma forma grave da doença, continuam a pôr em risco os familiares e pessoas em seu redor, nomeadamente as mais vulneráveis". Por outro lado, acrescenta Trung Nguyen, a vacinação contra a covid "facilita que as pessoas tenham vida mais normal no dia-a-dia, e uma vida social mais normal, devido ao regime CovidCheck em vigor no Luxemburgo".

Sim, é verdade, a vacina não impede a infeção, mas protege da doença grave, reduz internamentos e mortes, fazem questão de vincar os dois especialistas. No Luxemburgo e em Portugal, a grande maioria dos doentes internados não está vacinado, sobretudo nos cuidados intensivos.


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Na situação atual, é ainda muito importante acelerar o reforço vacinal sobretudo entre as pessoas de risco, as mais idosas e os profissionais de saúde, aconselha Filipe Froes. O pneumologista e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública em Portugal vai mais longe: "a terceira dose deveria ser alargada rapidamente a todas as pessoas com mais de 50 anos e a adultos com determinadas patologias não incluídas nos imunodeprimidos, como a diabetes, obesidade mórbida, a insuficiência cardíaca, doença respiratória crónica e doença renal crónica".

"Atacar em todas as frentes"

Os especialistas lembram que a pandemia continua ativa e que cada país não vive numa 'bolha'. Enquanto houver países na Europa com baixa taxa de vacinação e zonas do globo, como África ou América do Sul com pouco acesso à vacinação e poucas pessoas vacinadas, o vírus vai continuar a circular, a infetar, e a influenciar a situação epidemiológica dos países mesmo com boas taxas de vacinação. No Luxemburgo e em Portugal "as pessoas devem vacinar-se para diminuir a circulação do vírus".


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Com a escalada de infeções aconselha-se todas as pessoas, mesmo os vacinados a cumprir rigorosamente as medidas de proteção individual de acordo com as circunstâncias. "Deve-se usar máscara no interior e em espaços com muita gente, manter a boa higienização das mãos e o distanciamento social. Estas medidas que têm de voltar a ser adotadas por cada um para travar uma maior subida da curva da doença".

A pandemia "tem de ser atacada em todas as frentes" e com todas as armas disponíveis. Contudo, o que vai "condicionar indiscutivelmente a subida das infeções é a desejável cobertura vacinal à escala global", frisa o especialista português.

No imediato, e perante a nova vaga na Europa, é possível que mais países imitem a Holanda e adotem também novos confinamentos, "sobretudo nos países europeus com menor taxa de cobertura vacinal e menor adesão às medidas de controlo de transmissão", estima Filipe Froes. Em Portugal, o primeiro-ministro vai fazer o ponto da situação sobre a nova vaga na próxima sexta-feira (dia 19), não estando de parte o regresso de medidas mais restritivas.

Para Trung Nguyen o confinamento é a última das medidas desejáveis, e no Luxemburgo ainda não está no horizonte. "Com o aumento da vacinação, o regime CovidCheck e os gestos barreira individuais podemos controlar a doença no Luxemburgo e evitar a saturação dos serviços hospitalares".

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