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A minha vida com o Grão-Duque

A minha vida com o Grão-Duque
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A minha vida com o Grão-Duque


por Tiago RODRIGUES/ 08.12.2021

Foto: Coleção Privada das Suas Altezas Reais o Grão-Duque e a Grã-Duquesa do Luxemburgo / Emanuele Scorcelletti

Maria Teresa casou com o Grão-Duque do Luxemburgo há 40 anos. Foi a primeira latina a entrar para uma família real. Em entrevista ao Contacto, revela o segredo do seu amor com Henri, fala da ligação especial com os portugueses e confessa as dificuldades que pesam na coroa. Para uma Grã-Duquesa sem sangue azul, como para outras princesas do povo que lhe seguiram, a vida não é um conto de fadas.

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Um amor improvável
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A história de Henri e Maria Teresa podia dar um filme de amor. Um amor improvável. Ele era o príncipe herdeiro do Grão-Ducado do Luxemburgo. Ela era uma comum jovem latino-americana a estudar em Genebra. Ele tinha 20 anos e uma vida de realeza pela frente. Ela tinha 19 e um futuro sem certezas na área da política. Ele nasceu num 'berço de ouro', no Castelo de Betzdorf, em 1955. Ela nasceu numa primavera da Revolução Cubana, em Havana, um ano depois. Ele seria o próximo Grão-Duque. E ela, sem saber, a próxima Grã-Duquesa.

Era uma vez uma bonita mulher, de cabelos e olhos escuros, que assistia à missa de domingo, na comuna suíça de Cologny. Corria o ano de 1975. A jovem Maria tinha acabado de se matricular na Universidade de Genebra. Ia estudar Ciência Política. Naquele dia, os pais e amigos queriam apresentar-lhe o jovem Henri, que seria seu colega de curso. Trocaram olhares depois da missa. E sorriram.

O jovem casal em Genebra, em 1979.
Foto: Coleção Privada das Suas Altezas Reais o Grão-Duque e a Grã-Duquesa do Luxemburgo

Foi amor à primeira vista. Parecia obra divina. Uma flecha de Cupido. "Lembro-me da primeira vez que vi o Henri. O meu coração saltou quando o vi ao longe... antes mesmo de o ter conhecido. Não consigo explicar, mas sei que me apaixonei no momento em que o vi. Sabia que iria partilhar a minha vida com ele", disse ela num livro, 46 anos depois. Tudo nele a seduziu. "O seu encanto, a sua elegância, mas também a sua natureza gentil e a bondade que irradiava dele, bem como uma certa timidez", recordou. O resto é história.

Namoraram durante os anos da faculdade. Em segredo. A 7 de novembro de 1980, depois de concluírem o curso, foi anunciado o noivado. Para se casarem, tiveram de ter a aprovação do então Grão-Duque Jean, conseguida com a ajuda da duquesa Charlotte, avó de Henri. A data do casamento não poderia ter sido mais romântica e simbólica. Deram o nó no Dia dos Namorados, a 14 de fevereiro de 1981, na Catedral de Notre-Dame do Luxemburgo. Já se passaram 40 anos. Desde então, Maria Teresa e Henri foram pais de cinco crianças, agora adultos, quatro príncipes e uma princesa, e já têm cinco netos. Uma família grande e feliz. E a linhagem real assegurada.

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A primeira latina
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A história, contada assim, parece um conto de fadas. Mas não é. A vida de uma Grã-Duquesa nem sempre é fácil. Especialmente a de uma Grã-Duquesa sem sangue azul. Maria Teresa foi a primeira latina a entrar para uma família real. Antes dela, só três plebeias tinham casado com um príncipe. Depois dela, surgiram outras latinas na realeza europeia. E abriu-se a porta a outras jovens que lutavam por um amor que até então era visto como impossível.

O exemplo mais recente – e talvez o mais famoso – é o da união do Príncipe Harry da Inglaterra com a norte-americana Meghan Markle, ex-atriz agora Duquesa de Sussex. O casal deu origem a uma das maiores polémicas da história da família real britânica, ao anunciar, em janeiro do ano passado, que iria abdicar dos títulos reais e mudar-se para os Estados Unidos. Quiseram tornar-se independentes. Romper com as obrigações da coroa. Um fardo que Maria Teresa conhece bem. "Pela minha experiência, sei que é uma vida que tem muitos privilégios, mas também muitas obrigações e muitos deveres. Não é uma vida fácil. É uma vida de exigências", afirmou a Grã-Duquesa, hoje com 65 anos, em entrevista ao Contacto.

A monarca lançou no mês passado um livro para celebrar os 40 anos de casamento com o Grão-Duque Henri. "Un Amour souverain" ("Um amor soberano", em português) é um convite à vida íntima do casal, com fotos inéditas e testemunhos sobre a história da família grão-ducal. Mas é também uma introspeção às dificuldades e desafios de uma união que, à altura, permanecia incerta. "Esta união não era óbvia nem previsível para uma jovem rapariga cuja família tinha fugido de Cuba uns anos antes. Só foi aceite após alguns encontros 'teste' que eu já esperava, aumentando o stress durante os meses que antecederam o casamento", escreveu Maria Teresa no livro.

Como outras princesas e duquesas, teve de abdicar da sua vida privada. "Renunciamos muito à nossa liberdade e temos de dar muito, dar muito pelo país que servimos. Por isso, luto constantemente contra esta ideia do conto de fadas. Não é um conto de fadas. É verdade que somos muito privilegiadas. É verdade que fazemos coisas extraordinárias, mas, em contrapartida, é-nos pedido muito e as exigências sobre as nossas vidas privadas são muitas", explicou ao Contacto, por ocasião de uma sessão de autógrafos do novo livro.

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A princesa cubana
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O facto de ter sido a primeira latina numa família real é motivo de orgulho. "É importante para mim. Espero ter trazido algum calor. É um privilégio", assumiu. Depois dela, seguiram-se outras princesas latinas, como a argentina Máxima da Holanda ou Ângela de Liechtenstein, do Panamá, ou Tatiana Casiraghi, descendente de sul-americanos (Colômbia e Brasil), que se casou com Andrea Casiraghi, filho da princesa Carolina do Mónaco.

Maria Teresa e outras jovens plebeias que chegaram à realeza, como Sílvia da Suécia, Sónia da Noruega e Grace do Mónaco, abriram caminho para que outras, como elas, se tornassem princesas e rainhas. Uma mudança de mentalidades. "Hoje em dia está melhor. Tornou-se uma coisa normal nas famílias reais, que os herdeiros, os príncipes, se casem com as mulheres que escolhem. São histórias de amor… Desejo que sejam duradouras e que tenham muito sucesso", expressou.

Maria Teresa e os irmãos Antonio, Catalina e Luis (da esquerda para a direita).
Foto: Coleção Privada das Suas Altezas Reais o Grão-Duque e a Grã-Duquesa do Luxemburgo

Foi também a sua história de amor que a levou ao Luxemburgo. Apesar de ser uma plebeia latina, recorda com carinho os primeiros tempos no país: "Foi uma experiência muito bonita a dois níveis. Primeiro, porque a minha nova e maravilhosa família me recebeu com enorme afeto. Depois, por todo o país a população acolheu-me de braços abertos e isso tocou-me muito".

Uma integração que ganha ainda mais significado tendo em conta as origens da Grã-Duquesa. "Digo frequentemente que quando se cresce exilado como eu... eu cresci no exílio... é ainda mais importante encontrar um novo país. Então, casei com o homem da minha vida, o amor da minha vida, e ao mesmo tempo encontrei um país a que pertenço. E isso é algo muito forte e que nunca poderá ser destruído", garantiu.

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A Grã-Duquesa do povo
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Apesar desta paixão pelo Luxemburgo e pelos luxemburgueses, a Grã-Duquesa não esquece as suas raízes. "A minha relação com Cuba é muito forte, é uma relação do coração. São as minhas origens, é o país onde nasci, é a minha ilha. Amo-a com todo o meu coração. Amo os cubanos e sou muito cubana", assegurou, orgulhosa. Maria Teresa nasceu no dia 22 de março de 1956, em Havana, capital de Cuba. É um dos quatro filhos de José António Mestre e Maria Teresa Batista-Falla de Mestre, banqueiros de uma família abastada da ilha, conhecidos pelas iniciativas na filantropia e cultura.

Em 1960, durante a revolução liderada por Fidel Castro, com apenas três anos trocou Havana por Nova Iorque, acompanhada pelos pais, os dois irmãos e a irmã – Antonio, Luis e Catalina. Numa entrevista à AFP, há uns anos, Maria Teresa disse que Fidel Castro "não era amigo nem inimigo", mas "foi a pessoa que causou a saída de toda a família da ilha de Cuba". Os pais, de origem espanhola, mudaram-se uns anos depois para a sua propriedade familiar em Santander, antes de se fixarem em Genebra, em 1965, onde mais tarde a jovem Maria iria conhecer o príncipe Henri.

Foto: Coleção Privada das Suas Altezas Reais o Grão-Duque e a Grã-Duquesa do Luxemburgo / Jacques Schneider

Na Suíça, prosseguiu o percurso académico e concluiu o bacharelado francês. Entretanto, obteve a nacionalidade suíça. Após o ensino secundário, matriculou-se na Universidade de Genebra, onde estudou Ciência Política. Foi então que conheceu o futuro marido, que seguiu estudos semelhantes. Tinha o seu destino traçado. A princesa latino-americana viria a tornar-se Grã-Duquesa do Luxemburgo no dia 7 de outubro de 2000, quando o pai de Henri, o Grão-Duque Jean, abdicou do título em favor do filho.

Por todo este percurso, Maria Teresa mantém uma relação de afinidade com os imigrantes, que como ela encontraram no Luxemburgo uma nova oportunidade para serem felizes. Uma grande parte deles são portugueses, que compõem a maior comunidade estrangeira do país. "Devido ao número de cidadãos portugueses e luxemburgueses de origem portuguesa atualmente, temos uma ligação muito especial à nossa comunidade portuguesa e tenho um afeto muito especial por todos os nossos portugueses no Luxemburgo ou de origem portuguesa", afirmou.


Grã-Duquesa. "Temos de abdicar da nossa liberdade quando entramos para uma família real"
Casar com um príncipe é casar também "com a instituição" e "com o país", declara Maria Teresa numa entrevista a um programa de TV dos EUA, onde deixa conselhos a Meghan Markle. Veja o vídeo.

 A Grã-Duquesa também se identifica com a comunidade lusa e lembra que a própria família grão-ducal tem sangue português: "Também me revejo neles, porque existe um lado latino que partilhamos. Compreendemo-nos, gosto muito deles e, claro, o meu marido teve como bisavó a Maria Ana de Bragança, o que torna estes laços com Portugal ainda mais fortes".

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A nora indesejada
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Este ano, o casal grão-ducal assinala as quatro décadas de casamento, as bodas de esmeralda. Mas qual é o segredo para manter vivo um amor durante tantos anos? "Penso que manter um amor vivo é sempre um esforço diário que se tem de fazer de ambos os lados. Há dois ingredientes que são muito importantes. Um é o sentido de humor. E, talvez mais importante, a comunicação e a capacidade de perdoar", afirmou Maria Teresa ao Contacto.

Porém, o casamento com um príncipe herdeiro nem sempre foi como imaginara. No livro, a Grã-Duquesa revela que os primeiros anos foram "intensos e complexos", enquanto descobria qual era o seu novo papel como uma princesa, as tradições de um país e uma nova língua. Ao mesmo tempo que tentava "construir uma vida de família o mais normal possível". Apesar de os pais de Henri, o Grão-Duque Jean e a Grã-Duquesa Joséphine-Charlotte, terem aceitado o casamento, tornou-se público que a relação entre Maria Teresa e a sogra foi complicada desde o início.

O casal grão-ducal num momento de cumplicidade, no palácio de Colmar-Berg, em março de 2021.
O casal grão-ducal num momento de cumplicidade, no palácio de Colmar-Berg, em março de 2021.
Foto: Jacques Schneider

Numa entrevista em 2002, ela falou da desaprovação de Joséphine-Charlotte, contando que a sogra não queria que o filho casasse com uma "simples plebeia". Maria Teresa disse ainda que, apesar de o sogro ter sido sempre um "homem gentil", nunca foi capaz de evitar as intrigas da mulher com a nora. A latino-americana chegou mesmo a afirmar, na altura, que a então Grã-Duquesa tinha tentado espalhar rumores de que Henri andava a trair a esposa. 

E Maria Teresa decidiu dar uma conferência de imprensa sobre o assunto, queixando-se aos jornalistas do tratamento que recebeu por parte da sogra, assegurando que ela tinha espalhado rumores e histórias falsas sobre a sua pessoa, tais como os supostos planos de fugir do Luxemburgo para regressar a Cuba. Joséphine-Charlotte considerava que a nora tinha um temperamento incontrolável e incompatível com a nobreza e sempre censurou a sua falta de títulos. Os rumores sobre as tensões entre Maria Teresa e a sogra duraram anos, mesmo depois do falecimento da antiga Grã-Duquesa, em janeiro de 2005.

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A mãe dedicada
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O casamento de Henri e Maria Teresa passou por vários testes, mas sobreviveu por mais de 40 anos. No fim, o amor prevaleceu. Foi isso que inspirou Stéphane Bern, jornalista francês conhecido como especialista em assuntos de nobreza e realeza, a escolher o título do livro, "Un amour souverain", que assina com a Grã-Duquesa. "Penso que é muito bonito e muito bem conseguido, porque entre nós o amor é sempre o mais forte, por isso o amor é soberano na nossa vida. Mas como o meu marido também é soberano, este é literalmente um amor soberano", justificou a monarca.

Esse amor resultou no nascimento de cinco filhos: o grão-duque herdeiro Guillaume (1981) e os príncipes Félix (1984), Louis (1986), Alexandra (1991) e Sébastien (1992). Apesar de terem nascido e crescido no seio da educação real luxemburguesa, os descendentes herdaram o lado cubano da mãe. No ano passado, Maria Teresa contou à imprensa espanhola que os filhos são muito ligados à ilha: "Os cinco têm um lado muito quente, têm um ritmo fantástico quando dançam, bom ouvido para a música e cantam muito bem".

Hoje, o casal grão-ducal também já tem cinco netos: Charles (2020), filho do Grão-Duque Herdeiro Guillaume e da Grã-Duquesa Herdeira Stéphanie de Lannoy, Gabriel (2006) e Noah (2007), filhos dos príncipes Louis e Tessy, e Amalia (2014) e Liam (2016), filhos dos príncipes Félix e Claire. A ligação forte que Maria Teresa mantém com os filhos e os netos foi uma das inspirações para o novo livro. Numa apresentação da obra, afirmou que pretendia deixar-lhes "algo belo".

Em "Um Amor soberano", a Grã-Duquesa confessa que o casal sempre tentou dar "prioridade à vida da família apesar das várias obrigações oficiais". Foi e é uma mãe e avó dedicada, assim como uma mulher que gosta de ouvir e estar com os mais jovens, que representam o futuro. "Para mim, é muito importante a passagem do testemunho e adoro falar com os jovens e não só com os meus filhos. Muitos jovens vêm ter comigo para descobrir como consegui, como me envolvi nas minhas causas, que querem que eu lhes diga como o fiz, como tive a força para fazer as diferentes coisas que fiz e gosto muito de partilhar isso com eles", disse ao Contacto.

Por esse motivo, o livro não é apenas dedicado aos filhos e netos, mas a "todos os jovens". "Adoro transmitir às pessoas quais foram as minhas motivações, porque fiz o que fiz, como o consegui fazer, quais foram ou não as dificuldades. E isso é algo com que eu e os meus filhos nos sentimos muito gratos", acrescentou.

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A mulher de causas
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Desde o casamento em 1981, a Grã-Duquesa tem iniciado muitos projetos para apoiar as pessoas vulneráveis no Luxemburgo e em todo o mundo, nomeadamente através da Fundação do Grão-Duque e da Grã-Duquesa, uma associação que preside. Maria Teresa é conhecida pelas suas iniciativas na filantropia e cultura, na defesa dos direitos humanos e em particular na defesa das mulheres. Ao longo dos anos, tem-se dedicado às causas sociais e de solidariedade.

Em 1997, foi nomeada embaixadora da boa vontade da Unesco na luta contra a pobreza, a promoção do microcrédito e a educação das mulheres. Desde 2007, quando o seu filho Louis foi diagnosticado com dislexia aos 10 anos, passou a ser também Defensora Eminente para as Crianças junto da Unicef, concentrando os seus esforços em ações para apoiar os órfãos com sida e as crianças-soldado. O mais recente projeto ligado à filantropia foi a iniciativa "Stand Speak Rise Up", em 2019, apoiado pela Fundação do Grão-Duque e da Grã-Duquesa, e que recebeu personalidades ligadas à promoção e defesa dos direitos humanos. 

Embora esteja muito envolvida nas causas sociais, Maria Teresa também valoriza a sua privacidade e gosta de passar algum tempo com a família e os netos em especial. Na sua juventude, praticou dança clássica durante 18 anos. Segundo a sua biografia oficial, tem interesse nas artes decorativas e design e também gosta de cantar e tocar guitarra. Desfruta dos passeios com os seus cães Yorkies e das atividades como o esqui, patinagem e os desportos náuticos.


Grã-Duquesa homenageada pela ONU por luta contra a violência sexual
Ao recebeu o prémio, a Grã-Duquesa lembrou que "defender a causa das mulheres é, antes de tudo, defender um humanismo universal. Não é a luta só das mulheres, é uma luta comum a todos".

É também apaixonada por literatura, tendo tido a oportunidade de ser membro do júri do prémio literário para romances históricos, o Prix des Princes, em Paris, em 2016. A Grã-Duquesa também redecorou o interior do palácio de Colmar-Berg, a residência privada da família grão-ducal: "Foi um trabalho muito grande que me encantou porque gosto muito de decorar", contou no livro. Mas, além da decoração, Maria Teresa também teria grande influência na administração da corte, nomeadamente na gestão dos funcionários. Um assunto sensível que viria a desencadear uma das maiores crises da monarquia luxemburguesa nos últimos anos.

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A monarca sem poder
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Apesar do nascimento do quinto neto do casal grão-ducal, o príncipe Charles, o ano de 2020 teve um sabor amargo para Henri e Maria Teresa, após a publicação do polémico relatório Waringo, sobre a gestão da corte. O documento retratava a Grã-Duquesa como estando no centro da gestão dos funcionários e com um papel demasiado presente nas decisões da casa real.

O relatório de 43 páginas foi elaborado por Jeannot Waringo, antigo diretor da Inspeção-Geral das Finanças, que foi nomeado pelo primeiro-ministro, Xavier Bettel, para inspecionar a forma como a casa real gere o pessoal e as finanças. Depois de passar seis meses no Palácio, onde teve a oportunidade de entrevistar a maioria dos funcionários e ex-funcionários, bem como assistir a algumas reuniões, Waringo concluiu que a situação não poderia "permanecer igual".

Nos cinco anos anteriores ao relatório, cinquenta e uma pessoas tinham deixado de trabalhar para a família grã-ducal. Houve 16 demissões, 11 despedimentos, 16 transferências de serviço e oito rescisões de contrato após um período de experiência. O número de empregados da corte grão-ducal oscilou entre 85 e 91, entre 2014 e 2019. No documento, Waringo sublinhava que "as decisões mais importantes relativas à gestão do pessoal são tomadas por Maria Teresa. É ela que trata dos recrutamentos, das colocações nos diferentes serviços e dos despedimentos".


Relatório Waringo. Uma pedra no sapato da realeza
Os gastos e o funcionamento da Corte foram objetos de uma inspeção decretada pelo primeiro-ministro.

O relatório foi entregue a Bettel e foi tornado público. A bomba explodiu na imprensa. O primeiro-ministro anunciou uma reforma no funcionamento da monarquia e a Grã-Duquesa foi a mais afetada pelas mudanças, passando a ter um papel meramente representativo. Questionada pelo Contacto sobre se se sentia injustiçada com o que aconteceu, Maria Teresa respondeu apenas: "Não vou comentar sobre isso".

A Grã-Duquesa Maria Teresa e o Grão-Duque Henri na cidade em que se conhecerem, Genebra, em 2020.
Foto: Marion Dessard

Numa carta, no ano passado, o Grão-Duque reagiu à polémica, defendendo a mulher e afirmando que a família estava a sofrer com a cobertura mediática do relatório. Henri escreveu que a Grã-Duquesa é "uma mãe dedicada e uma mulher de causas" e questionou: "Porquê atacar uma mulher? Uma mulher que sempre defendeu outras mulheres? Uma mulher a quem não se dá oportunidade de se defender?".

Na altura, chegou mesmo a especular-se sobre a possibilidade de o Grão-Duque abdicar do título em favor do filho mais velho, o herdeiro Guillaume. Um rumor que não se concretizou e que não deverá concretizar-se tão cedo. Sobre a hipótese da sucessão, a resposta da Grã-Duquesa foi evasiva: "A nossa família sempre teve essa tradição e é algo muito importante, por isso, claro que a dada altura, quando o meu marido decidir, vamos passar a tocha aos nossos filhos e isso é uma coisa muito boa. É assim que deve ser".

No livro que acaba de publicar, Maria Teresa revela algumas coisas do seu passado e da vida privada, tanto da sua como da do casal. Mas poucas que não fossem já do conhecimento público. Então, o que ficou por dizer? "Há muito mais a dizer e, claro, nunca se termina de contar uma história de vida. A vida de uma família inteira, por isso é claro que ainda há muito para contar", reconheceu. E depois de 40 anos de uma vida a dois, o que se segue para o casal grão-ducal? "50 anos de casamento", brincou, entre sorrisos. 

Talvez então, depois das 160 páginas de história, venha o filme. E que, mesmo não sendo um conto de fadas, termine com um "viveram felizes para sempre".

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