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A Irlanda já está noutra
Editorial Sociedade 3 min. 20.02.2020

A Irlanda já está noutra

A Irlanda já está noutra

Foto: dpa-tmn
Editorial Sociedade 3 min. 20.02.2020

A Irlanda já está noutra

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
No circulo do avanço da História, a pequena ilha já está uma paragem à frente.

Em 1992, o escritor Francis Fukuyama proclamou que tínhamos atingido o fim da História no seu livro chamado, “O Fim da História”. Basicamente a sua teoria central era que as ditaduras totalitárias tinham desaparecido, o estilo de sociedade europeia/americana triunfava globalmente e, embora ainda pudessem existir alguns percalços ou retrocessos temporários no caminho, basicamente o destino natural de todos os países seria viver em eterna, liberal e ocidental democracia.

Fukuyama estava totalmente enganado, claro. A História não acaba, quando muito repete-se; e essa circularidade é feita de avanços e retrocessos, não está nada claro que a tendência de longo prazo seja a de uma evolução linear em direção a um magnífico cume democrático. Bem pelo contrário, o que define o nosso presente é um regresso ao passado, com um encolhimento coletivo para dentro de linhas imaginárias, nacionais, religiosas ou identitárias, sempre guiados por “homens providenciais” que agitam muitas bandeirinhas coloridas e se aproveitam dos medos da população para erguer muros reais e metafóricos.

Muitos desses medos são provocados pelas forças inexoráveis da globalização, que cria claros vencedores e perdedores. Onde estes últimos existem, o populismo nacionalista resulta: mais obviamente nos EUA, no Reino Unido, no Brasil, na Índia, e cada vez mais em vários países da velha Europa – até mesmo os que até aqui pareciam imunes ao vírus, como Portugal ou a Irlanda. Esta última saiu agora de eleições e os resultados foram chocantes, porque o Sinn Féin, partido que nasceu como braço político do IRA, passou de irrelevante para… o mais votado de todos.

Mary Lou McDonald, presidente do partido de esquerda Sinn Fein.
Mary Lou McDonald, presidente do partido de esquerda Sinn Fein.
Foto: Niall Carson/PA Wire/dpa

Nem o próprio Sinn Féin esperava ganhar as eleições (tanto que, para reduzir custos, apenas apresentou 42 candidatos para um parlamento de 160). Afinal, os esquerdistas radicais tinha obtido apenas 9% dos votos em Maio último, e a Irlanda desde sempre foi governada pelos mesmos dois partidos centristas. Mais importante, a economia vai bem: crescimento interessante, desemprego em queda ininterrupta há sete anos, investimento estrangeiro em explosão também devido à loucura do Brexit – caiu no Reino Unido, enquanto na Irlanda aumentou 52% só no ano passado. O país é um enorme beneficiário da globalização e seria preciso que o Sinn Féin jogasse uma enorme cartada nacionalista, por exemplo propondo a união com a Irlanda do Norte, para encontrar algum eco no eleitorado.

Nada disso. O que interessa aos irlandeses já não são as questões de identidade, as bandeirinhas e os problemas fronteiriços – mas sim o terem sido deixados para trás na distribuição dos frutos da prosperidade. Em Dublin há prédios novos feitos em vidro e aço, e os advogados expatriados que neles trabalham enchem os bares e os restaurantes caros; desde 2013, os rendimentos médios subiram em 13% e isso é simpático – só que o preço das casas, e as rendas com eles, subiram em 62%. Os jovens têm empregos, frequentemente até empregos bem pagos, mas não conseguem pagar as rendas. Os mais velhos, em contrapartida, não obtêm bons cuidados de saúde – porque o sistema neoliberal que protege e exonera de impostos as multinacionais instaladas no país não consegue criar um SNS decente. O Sinn Féin recebeu muitos votos (até de pessoas que nunca teriam pensado votar no braço político de um antigo grupo terrorista) porque as suas propostas de uma sociedade mais justa, equilibrada e sustentável ultrapassaram os gritos estridentes do populismo onde o resto do mundo parece encravado. No círculo do avanço da História, a pequena ilha já está uma paragem à frente.

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