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A inevitável politização
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2020

A inevitável politização

A inevitável politização

Foto: Anouk Antony
Opinião Sociedade 4 min. 30.12.2020

A inevitável politização

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
É disto que conservadores e reacionários têm medo: de pessoas que queiram, aprendam, saibam ler e pensar.

Um dos momentos mais tocantes de 2020 foi perceber que, apesar do caos emocional, económico, muitas vezes de frágil saúde mental, em isolamento, fragmentados, atomizados, a maioria dos meus alunos esteve presente, veio às aulas, leu os materiais, fez perguntas, entregou os ensaios, durante o primeiro semestre. Por vezes, escondiam-se, câmara e som desligados, certamente entre a má ligação de wifi e o pijama na aula das 9 da manhã (também eu, confesso, estive em algumas reuniões assim). Por vezes sentados em estreitos dormitórios universitários, viam-se posters do Bowie, dos Oasis, dos Smiths na parede. Quando lhes perguntava pelas referências musicais, respondiam-me “os meus pais adoram”. Senti-me muito mais velha.

Talvez porque dê aulas de literatura e cultura de língua portuguesa; talvez porque o meu curso do segundo ano seja uma espécie cronologia dos Estudos Portugueses em 22 semanas, sobre Portugal, Brasil e África Lusófona, a que chamo normalmente, em tom de piada “De Camões a Caetano”; talvez porque os meus alunos saibam muito pouco de Portugal ou do Brasil, a verdade é que sempre acabamos a conversar sobre política, mesmo quando lemos autores canónicos do século XIX, como Machado de Assis (esclavagismo, império, república no Brasil) ou Eça (decadência, império, monarquia e república em Portugal). Hoje isto chama-se “marxismo cultural” e é disto que conservadores e reacionários têm medo: de pessoas que queiram, aprendam e saibam ler. Sobretudo de pessoas que saibam ler e que não sejam filhos das elites com sangue azul-Iniciativa Liberal, que eles querem preparar para o sistema meritocrático do utilizador-pagador.

Pareceu-me inevitável que, em meados de dezembro, o Guardian revelasse uma sondagem da União de Estudantes do UK em que mais de 50% dos alunos admitiam ter-se politizado durante a pandemia, e mais de 60% afirmava que o Governo não tinha os seus interesses como prioridade. Este semestre deu-se a maior greve contra o pagamento de rendas de dormitórios em mais de 40 anos, em 20 universidades, incluindo das mais ricas, como Oxford ou Edimburgo; milhares de alunos rebelaram-se contra confinamentos forçados em dormitórios, que inevitavelmente os criminalizaram e penalizaram (com avultadas multas) pelo aumento de casos de covid. As universidades, desesperadas para garantir a sua sobrevivência, num sector cada vez mais dependente de propinas altíssimas (impostas pelo Governo Cameron em 2010), embarcaram num “venham e depois logo se vê”, ludibriando milhares de alunos que se deslocaram de todas as partes do país para se sentarem sozinhos, em frente a um ecrã, pagando rendas elevadas para sustento de um sistema universitário que acabará por ruir perante a crise económica em que estamos mergulhados.

Simultaneamente, a pandemia levou a uma crise de saúde mental que já se vinha agravando na última década – os impactos da neoliberalização da universidade, aliada ao aumento brutal das propinas, endividamento dos estudantes e das suas famílias, precarização do staff, mercantilização de todo o sistema de ensino (e de investigação), estão por apurar a fundo, mas não é necessário ser bruxo para perceber que esta é a geração mais castigada das últimas quatro décadas. Segundo estudos do Centro Nacional de Estatística no UK, mais de 50% dos alunos admitiram aumento da ansiedade, insónia, depressão, solidão. “Sentia-me tão isolado e só”, “não conheço ninguém, estou fechada no meu quarto em quarentena há quase duas semanas”, “não sabia com quem falar, a quem recorrer”, não são frases vazias ditas por estatísticas: ouvi-as de alunos este ano.

Saúde mental e rebelião. Não é propriamente um “desejo” para 2021: é uma inevitabilidade. E não se pense que, porque a maioria das universidades europeias não têm propinas como as britânicas, o ciclo de empobrecimendo, desemprego, dívida acumulada, precarização, ou até lumpenização desta geração, esteja ela ou não no ensino superior, é fenómeno alheio a todo continente, a par da maior crise económica das últimas décadas.

Há uns anos perguntei a alunos que então se graduavam quanto lhes tinha custado o curso. Não eram “apenas” as nove mil libras por ano em propinas: ao todo, 50 mil libras, aproximadamente, em dívida acumulada ao banco. Dinheiro que pagou, entre os 17 e 21 anos (na Escócia os cursos são de 4 anos), comida, renda, viagens, propinas, livros. 55 mil euros ao câmbio de hoje. São jovens que começam a sua vida com uma dívida maior do que muitas entradas em hipotecas para primeira habitação; que começam a sua vida laboral a pagar dívida em vez de poder amealhar qualquer tipo de poupança para comprar casa ou constituir família; que precisam desesperadamente de trabalho porque a primeira coisa que os pais lhes dizem quando se graduam é que agora têm de começar a pagar.

 A dívida, discutimos então, é o vigiar e punir deste século. E eles, na sua ainda (por vezes) embrionária politização, perguntam-se, baixinho mas cada vez mais numerosos – e se não pagarmos?

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