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A imensa dor de perder assim um pai

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A imensa dor de perder assim um pai

A imensa dor de perder assim um pai
Greenpeace/50 anos

A imensa dor de perder assim um pai


por Luís Pedro Cabral/ 16.09.2021

Foto: Greenpeace

No dia 10 de Julho de 1985, os serviços secretos franceses cometem um atentado para afundar o Rainbow Warrior, o mítico navio da Greenpeace, que cumpre agora 50 anos de vida. Ancorado em Auckland, Nova Zelândia, preparava-se para zarpar para o atol de Mururoa, na Polinésia Francesa, para impedir mais um teste nuclear francês. Duas bombas explodiram no navio. Neste, morreu Fernando Pereira, fotógrafo português. Marelle, a filha mais velha, não descansa enquanto não levar os responsáveis à Justiça. Uma luta sem fim.

7 de Junho de 1985, aeroporto de Amesterdão. Nos aeroportos, as emoções ficam à flor da pele, os abraços são mais demorados, mais apertados, as palavras parecem adquirir vida própria, mais quando se apropriam da mente de uma criança. Marelle tinha 8 anos. Não havia maneira de desfazer os seus braços do pescoço do pai, como se fosse ela um cadeado, perguntando-lhe por que tinha de viajar de novo, para o outro lado do mundo, lutar contra um gigante. 

Disse-lhe, não vás, pai! Se partires nunca mais voltas.

Marelle Pereira, filha de Fernando Pereira.

Ele tinha um bigode farfalhudo e negro, olhos castanhos brilhantes e um sorriso aberto, que nele parecia mais uma característica fisionómica do que um traço de personalidade. Ela teve uma vida inteira para se recordar das exactas palavras que lhe disse na despedida. Ainda hoje não sabe se terá sido uma construção póstuma ou se lhe terá dito o que pensa que disse: “Disse-lhe, não vás, pai! Se partires nunca mais voltas”.

É daquelas frases que desarmam os pais, mesmo quando estes são pacifistas, mesmo quando no seu ADN se encontra o acto de partir. Fernando Pereira era português. Tinha feito 35 anos há menos de um mês. Sorriu-lhe, disso ela tem a certeza. “Querida, não te preocupes que o papá volta para casa”, ter-lhe-á dito, caso aquela frase, que estranhamente se tornou tão real na sua memória, seja tão verdadeira como ela acha que é. A memória tem uma relação ambígua, por vezes nebulosa, com as circunstâncias. Nesse aspecto, tem uma certa afinidade com as fotografias capturadas num filme. Se fosse isto, ela saberia. O seu pai era fotógrafo.

O fotógrafo português, Fernando Pereira, foi a única vítima mortal do atentado contra o Rainbow Warrior, o mítico navio da Greenpeace. Foi a 10 de Julho de 1985 no porto de Auckland, na Nova Zelândia
O fotógrafo português, Fernando Pereira, foi a única vítima mortal do atentado contra o Rainbow Warrior, o mítico navio da Greenpeace. Foi a 10 de Julho de 1985 no porto de Auckland, na Nova Zelândia
Foto: Greenpeace

Fernando Pereira foi a única vítima mortal do primeiro atentado terrorista na Nova Zelândia. Um atentado levado a cabo pelos serviços secretos franceses no porto de Auckland, numa clara violação da soberania neozelandesa. Uma acção de sabotagem ao Rainbow Warrior, o mítico navio da Greenpeace, que resultaria num homicídio, deixando em Amesterdão uma viúva e dois filhos órfãos de pai. Marelle Pereira era a mais velha. Paul, o seu irmão, tinha cinco anos. Foi no dia 10 de Julho de 1985. Um dia negro na História de França e desta família.

No dia seguinte, o Rainbow Warrior ia partir para o atol de Mururoa, para tentar impedir os testes nucleares na Polinésia Francesa, para alertar o mundo para as suas terríveis consequências. Nessa altura, esta organização ambientalista não tinha a dimensão planetária que hoje tem, mas já tinha conquistado a sua voz incómoda.

Os inimigos do planeta eram os seus. Eram muitos. E poderosos. Há 50 anos, como agora. A ameaça nuclear está na génese da Greenpeace, em 1971. O mar sempre foi a sua via. Foi no mar, numa estranha forma de mar, que Fernando Pereira perdeu a vida. No fim do arco-íris.

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A era nuclear
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Em 1985, o mundo estava ainda sob o permanente efeito colateral da Guerra Fria, que já ia longa, mas sempre presente, como um cenário teimoso que se recusava a abandonar o imaginário colectivo, que vivia atormentado por pesadelos de botão vermelho, pela eclosão da III guerra mundial, uma guerra nuclear, com os seus imensos cogumelos atómicos da destruição, capaz de reduzir a cinzas a própria Humanidade.

A corrida ao armamento nuclear não era um fantasma, nem uma quimera hiperbólica, como as quimeras são. Era uma realidade, então no apogeu, que ainda hoje persiste. França estava nessa corrida, apostada no reforço do seu poderio militar. A velha história do mundo, na sua versão nuclear.

A Greenpeace, no seu activismo “radical”, era uma espinha na garganta. As nações poderosas não sabia ainda como lidar com esta nova estirpe ambientalista, que saira da posição de flor-de-lótus e dos cartazes para o coração dos problemas, enfrentando-os, ainda que com a desproporção de um David contra Golias. A organização, aliás, nasceria em Vancouver, no Canadá, sob o nome “Don´t Make a Wave Comittee”, fundado por Bob Hunter, Paul Watson e Patrick Moore.

A origem deste nome estava directamente relacionada com mais um teste nuclear que os EUA se preparavam para fazer na minúscula ilha de Amchitka, ao largo da costa ocidental do Alasca. Os norte-americanos preparavam-se para detonar uma bomba nuclear com 1,2 megatoneladas. Ainda não existiam as chamadas organizações ambientalistas, mas havia ambientalistas, amantes da natureza, intelectuais, jornalistas, académicos que se organizaram para impedir este teste nuclear, de proporções imprevisíveis. Em 1964 tinha havido um terramoto no sul do Alasca. Temia-se uma catástrofe, um “tsunami” gigantesco de consequências bíblicas. Amchitka era uma reserva natural de diversas espécies em vias de extinção.

Do porto de Vancouver partiu o “Phyllis Cormack” numa manhã de setembro de 1971, navegando de encontro à bomba atómica. A embarcação, que mais parecia ter zarpado de Lilliput se comparada com os navios da marinha de guerra USA, queria colocar-se no território da bomba, para impedir a sua detonação. Seria, porém, interceptada muito antes. Esta jornada não impediu a detonação da bomba, mas detonou outra na consciência do mundo, alertando publicamente para os testes nucleares americanos, até então secretos, e para as consequências que estes tinham para o planeta. Não aconteceu o tal “tsunami”, mas gerou-se em torno dos EUA uma enorme vaga de protestos que, aliás, tiveram resultados nesse mesmo ano: os norte-americanos deixaram Amchitka em paz, declarando-a oficialmente um santuário “natural”.

Tinha nascido a Greenpeace, que tem hoje sede em Amesterdão, na Holanda, e uma dimensão e força verdadeiramente globais, tal como as causas ambientais às quais se dedica, um pouco por todo o mundo. A Greenpeace conta actualmente com mais de três milhões de activistas em 55 países do mundo.

Se França pretendia silenciar esta organização afundando o Rainbow Warrior, para além de todas as humilhações de um estado democrático ter conduzido um atentando terrorista noutro, perdeu copiosamente esta guerra. Contra pacifistas. Fernando Pereira foi o seu mártir. Perdeu a vida, mas não a perdeu em vão.

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Operação "Satanique"
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Entre 1966 e 1996, França detonou nos atóis de Mururoa e Fangataufa um total de 197 bombas atómicas, só abandonando estes territórios no ano 2000. Segundo relatórios das próprias autoridades francesas, 110 mil pessoas foram afectadas severamente pela radioactividade. À época dos testes nucleares, que França não conseguiu manter secretos, em grande parte pela acção da Greenpeace, a população da Polinésia Francesa não ultrapassava 120 mil habitantes. A grande maioria das indemnizações que a França pagou até hoje foi a antigos militares franceses no Pacífico. 

No dia 11 de Julho de 1985, a França preparava-se para testar uma das armas nucleares mais poderosas que a tecnologia da morte havia concebido. Havia razões concretas para que o ministro da Defesa francês, à época Charles Hernu, amigo pessoal do presidente François Mitterrand, não querer a Greenpeace naquelas paragens.

Meses antes, começou a ser planeada pela DGSE (Direction Générale de la Sécurité Extérieure), serviços secretos franceses, a “Opération Satanique”. Uma operação de sabotagem ao braço operacional da Greenpeace, assim como um dos seus símbolos históricos: o Rainbow Warrior. A história deste caso, que tem ainda muito por contar, provaria que o próprio presidente francês, embora alegadamente desconhecendo pormenores, tinha conhecimento desta operação. Por outras palavras: autorizou-a. 

A operação de sabotagem teve o carimbo dos serviços secretos franceses e ficou conhecida como "Operação Satanique".
A operação de sabotagem teve o carimbo dos serviços secretos franceses e ficou conhecida como "Operação Satanique".
Foto: John Miller/Greenpeace

As repercussões políticas foram imediatas. Conforme a imprensa francesa e neozelandesa iam juntando peças do envolvimento dos serviços secretos franceses no afundamento do Rainbow Warrior e que este complot chegava ao Palácio do Eliseu, cabeças rolaram pelo caminho. Entre as quais, as de Charles Hernu; e do almirante Pierre LaCoste, director da DGSE, que se demitiu no dia 15 de Setembro de 1985. François Mitterrand atravessou incólume esta tempestade. O afundamento do Rainbow Warrior é ainda como um puzzle, que se reconstitui lentamente no tempo.

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À lei da bomba
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A viagem do Rainbow Warrior para a Nova Zelândia, ao contrário da operação “Satanique”, não era secreta. A DGSE lançou para o teatro de operações três equipas. A primeira, partiu da Nova Caledónia em direcção ao porto de Parengarenga, no norte da Nova Zelândia, a bordo de um iate, de nome Ouvea. Alain Mafart e Dominique Prieur navegavam sob o disfarce de um casal em lua-de-mel. Tinham ambos passaportes falsos, suiços, sob o nome de matrimónio Turengue. Nesse iate, transportavam explosivos e equipamento de mergulho. Noutro veleiro, viajaram outros três operacionais da DGSE e um médico especialista em “medicina de mergulho”. 

Mais tarde, chegaram à Nova Zelândia os dois mergulhadores com a missão de colocar os explosivos no Rainbow Warrior. Entraram no país como Alian Tonel e Jacques Camurnier. Eram, na realidade, Jean-Luc Kister e Jean Cammas, peças fundamentais da operação, comandada no terreno pelo tenente-coronel Louis Dillas, da DGSE, que tinha igualmente conseguido infiltrar uma agente entre os activistas da Greenpeace. A espia francesa (Christine Cabon) durante meses fez-se passar por amante da causa ambientalista, tendo viajado a bordo do Rainbow Warrior, em estilo “flower-power”, colhendo informações sobre a embarcação e sobre as acções da Greenpeace.

No dia 7 de Julho de 1985, o Rainbow Warrior não chegou discretamente à Nova Zelândia, nem essa era a intenção da Greenpeace, que queria convocar os olhares do mundo para os testes nucleares no Pacífico. Ao aproximar-se do porto de Waitemata, em Auckland, o navio do “arco-íris” foi recebido por dezenas de pequenas embarcações locais que se juntaram à causa, antes de tudo neozelandesa. Seriam a guarda-de-honra do Rainbow Warrior na viagem para o atol de Mururoa.

Querida, não te preocupes que o papá volta para casa.

Fernando Pereira

A Greenpeace não estaria sozinha nesta jornada, que exigia logística e planeamento. O Rainbow Warrior lançou âncora por uns dias. No dia 10, tudo parecia organizado. Em torno do navio da Greenpeace reinava um espírito de fraternidade ambientalista. Os activistas da Greenpeace já não eram propriamente debutantes em acções como esta, embora fosse de enorme envergadura. Era o aniversário de Steve Sawyer, que era o director mundial da Greenpeace e estava presente. A tripulação quis fazer-lhe uma festa-surpresa. O cozinheiro de bordo fez um bolo de aniversário. Com a tripulação e uma série de ambientalistas locais, juntaram-se a bordo do Rainbow Warrior perto de 50 pessoas. Fernando Pereira, fotógrafo oficial da Greenpeace e companheiro de muitas batalhas pelo Ambiente, estava presente.

A festa arrastou-se pela noite, embora comedida, pois tinham todos uma missão a cumprir na manhã seguinte. Enquanto as conversas fluiam e os copos se uniam em brindes, debaixo de água, dois mergulhadores dos serviços secretos franceses, cumpriam a sua. Usavam fatos de mergulho especiais, que não debitavam bolhas de ar para a superfície. Jean-Luc Kister colocou a primeira bomba debaixo da casas das máquinas, Jean Cammas colocou o segundo engenho explosivo junto à hélice e acertaram os “timmers” com três minutos de diferença. A primeira bomba, que tinha menor potência, detonaria às 23h50. A segunda, bastante mais potente, às 23h53. A primeira carga constituiria um alerta, para o caso de alguém se encontrar no Rainbow Warrior. A segunda, era para cumprir o objectivo: afundar o inimigo dos testes nucleares.

A festa terá acabado pelas 22h30, ficando no Rainbow Warrior os capitães das embarcações que no dia seguinte acompanhariam o navio até ao atol de Mururoa. Sairam cerca de uma hora depois. Só uma parte da tripulação lá ficou, incluindo o capitão Peter Willcox e Fernando Pereira. A primeira explosão, deitou o Rainbow Warrior numa cama de mar, com a sua pomba branca no casco e o arco-íris acima, a inclinar para o céu. Peter Willcox acordou com a explosão. Pensou que mais ninguém estaria no navio quando o abandonou, pouco antes de explodir a segunda bomba.

Lembro-me que chorei e chorei durante dias.

Marelle Pereira

Em vez de sair do Rainbow Warrior após a primeira bomba, Fernando Pereira desceu, para procurar uma mulher que ele julgava abaixo do convés e para retirar do navio a máquina e o material fotográfico. Terá perdido os sentidos no embate causado pela explosão da segunda bomba. No dia seguinte, seria encontrado por mergulhadores da marinha neozelandesa, com a face para baixo, os rolos fotográficos enrolados nas pernas e nos pés, mas com o seu corpo intacto. 

Nascido em Chaves em 1950, Fernando Pereira, que havia “fugido” da ditadura de Salazar emigrando para a Holanda, tornando-se cidadão holandês, trabalhando para o jornal De Waarheid (A Verdade), em Amesterdão, onde conheceu Joanne, a sua mulher, onde nasceram os seus filhos e onde ele se juntou às fileiras da Greenpeace, em 1982, tinha morrido afogado, afundando com o mais importante dos seus símbolos.

Marelle, que hoje é professora em Amesterdão, onde sempre viveu, era então aluna. Estava numa aula quando alguém bateu à porta para a chamar. Além de tudo, estranhou a extrema delicadeza com que a chamaram. “Lembro-me que chorei e chorei durante dias”, disse Marelle Pereira, no dia que se assinalaram 20 anos sobre o afundamento do Rainbow Warrior, no exacto local onde o seu pai tinha morrido. Marelle seguiu as pisadas do pai no activismo pela causa ambiental e noutra luta sem fim: levar os responsáveis pela sua morte à Justiça. 

Não há um dia que não pense nele.

Marelle Pereira, filha de Fernando Pereira.

Após o afundamento do Rainbow Warrior e a morte do pai, a polícia neozelendesa conseguiu capturar dois dos envolvidos: Alain Mafart e Dominique Prieur, ambos acusados de acto de terrorismo e de homicídio involuntário, ambos julgados e condenados a 10 de prisão, ambos libertados depois de cumprir uma pena de dois anos, fruto das pressões diplomáticas de França. Em solo francês, não cumpriram um minuto de prisão, o mesmo acontecendo com todos os envolvidos na operação “Satanique”.

Muitos desses envolvidos, com participação directa no atentado, já mostraram até o seu arrependimento, pedindo desculpas formais à Nova Zelândia, à Greenpeace e à família de Fernando Pereira. Dizem que eram jovens e militares. Que cumpriram ordens, que a intenção era somente afundar o navio, sem causar vítimas. Um misto de arrependimento com “je ne regrette rien”, 36 anos depois. 

A França também já pediu desculpas pelo “lamentável” acontecimento, indemnizou a família Pereira em 2,3 milhões de francos, a Nova Zelândia em 9 milhões de dólares e a Greenpeace em 8,1 milhões de dólares, que permitiu à organização adquirir um novo navio. Mas nada disso acalma a dor de uma filha que perdeu um pai. É uma dor que não acaba, talvez porque ela não é capaz de encontrar descanso, sabendo que os culpados da morte do seu pai andam por aí. “Não há um dia que não pense nele”. Não há um dia que não pense neles. Nos homens que julgaram poder afundar um arco-íris.

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