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A greve geral
Opinião Sociedade 4 min. 21.10.2021
Estados Unidos

A greve geral

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A greve geral

Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 21.10.2021
Estados Unidos

A greve geral

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Os EUA enfrentam um dos maiores protestos laborais colectivos das últimas décadas. Já todos perceberam quem acumulou riqueza e quem segurou a economia durante a pandemia.

Um dos episódios do podcast da National Public Radio (NPR) This American Life, intitulado "Essential", anunciava, já em Agosto, a grande onda de despedimentos voluntários e greves que tomou os Estados Unidos. Os americanos fartaram-se de salários mínimos sem segurança nem compensações. E fartaram-se de ser explorados perante o enriquecimento evidente dos seus patrões.

Na primavera de 2020, a McDonald’s começou a doar comida gratuita aos "trabalhadores essenciais": 12 milhões de "refeições de gratidão" (thank you meals), anunciaram, a todos os trabalhadores na linha da frente do combate à Covid-19. Flato Alexander, trabalhador negro da McDonald's no Michigan, pensou: "Estas refeições são para pessoas como eu: estou aqui, a trabalhar para si, para que a comida chegue a sua casa; nós somos trabalhadores essenciais." Mas não: Flato não recebeu qualquer hambúrguer. E as refeições de gratidão só duraram 15 dias.

O trabalhador ficou grudado no gesto: como é que eles tinham dinheiro? Porque alguns trabalhadores, e não eles, essenciais à própria McDonald's, podiam receber comida de graça? Quem pagava pelos milhões de hambúrgueres?

Flato desconfia do gestor do seu restaurante mas também dos accionistas. Diz que os chefes nem puseram os pés na loja durante a pandemia. Muitos dos empresários, conta, até receberam apoio do Estado para manterem restaurantes abertos. Mas o pior foi quando o chefe apareceu com um carro novo. "Isso chocou-me. O chefe pagava-nos salário mínimo, nunca apareceu na loja durante a crise, nem para demonstrar apoio, e teve o desplante de comprar um Corvette."

Mais de 30 milhões de americanos abandonaram os seus empregos este ano, no que se chama já de 'A grande demissão'.

Como dizia esta semana a Economist, "a pandemia foi excelente para os corn flakes, e manteve bem ocupados aqueles que os produziam. Com tanta gente fechada em casa, o consumo de cereais disparou." E fala Kerry Williams que trabalhou horas extra na fábrica da Kellogg's, "por vezes mais de 16h por dia". O pior, diz, é ver a Kellogg's, o maior grupo de cerais de pequeno-almoço do mundo, "obter lucros gigantescos, quando o seu salário nem sequer aumentou": "Sentimos que é hora deste dinheiro 'baixar' [trickle down] até nós, porque sem os trabalhadores da base, não haveria Kellogg's", diz Kerry que, junto a 1.400 trabalhadores em todo o país, está em greve há duas semanas.

Não são os únicos: 10 mil trabalhadores em cinco Estados, da empresa de maquinaria agrícola John Deere; mais de 20 mil enfermeiros da empresa de saúde Kaiser Permanente. Mil mineiros no Alabama querem 1.1 mil milhões de volta em salários. Mais de mil trabalhadores da Nabisco (doces, padaria e tabacos) em luta contra longos turnos e horas extraordinárias – a primeira greve em 52 anos; 60 mil trabalhadores de cinema e TV de Hollywood ("invisíveis" do som, imagem, produção) votaram 99% a favor da greve.

O economista Robert Reich explicou no Guardian que os EUA estão numa enorme "greve geral". Não é concertada – porque não há centrais sindicais; não é negociada a nível nacional, nem sequer por sector ou Estado – porque as leis diferem entre Estados, e porque a legislação sindical nos EUA é restritiva. No papel, parece um direito; na prática, é mesmo difícil.

Mais de 30 milhões de americanos abandonaram os seus empregos este ano, no que se chama já de "A grande demissão"; muitos porque não podiam continuar a trabalhar (saúde, custos, falta de apoios), muitos à procura de algo melhor. Há 10 milhões de trabalhos por preencher. Se ninguém os "quer" é porque os salários não são dignos. Neste momento, há cerca de 100 mil trabalhadores na "grande greve". Já todos perceberam quem acumulou riqueza e quem segurou a economia durante estes dois anos: exigem aumento de salários, segurança e condições laborais. "A menos que essas faltas sejam corrigidas, muitos americanos não voltarão ao trabalho tão cedo", explica o economista.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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