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A floresta do futuro
Sociedade 1 8 min. 28.03.2021 Do nosso arquivo online

A floresta do futuro

Agrofloresta

A floresta do futuro

Agrofloresta
Sociedade 1 8 min. 28.03.2021 Do nosso arquivo online

A floresta do futuro

Francisco COLAÇO PEDRO
Francisco COLAÇO PEDRO
O ‘eucaliptugal’ tem os dias contados. Mas o que virá depois? Florestas diversas e exuberantes, entrecortadas por pastagens, matos e lagos, num recomposto mosaico mediterrânico. Abundância de ervas aromáticas, plantas medicinais, frutos do bosque, madeiras nobres, cogumelos e frutos secos. De ar, água e solo sãos. Visões agroecológicas para o futuro da floresta, onde cada espécie – incluindo o ser humano – descobre o seu lugar.

“Isso não vai dar!” ouvia José Mateus, como tanto se habitou a ouvir, graças ao aspeto pouco convencional das suas experiências na terra. Estávamos em Grândola, e o biólogo cultivava uma horta sem estrume, que cobria de estilha de madeira. Hoje a horta é frondosa e abundante, e assim espera tornar-se toda a agrofloresta que está a implementar no monte do chef Ljubomir Stanisic no Alentejo. Num país onde 85% da floresta é propriedade privada, caso único em toda a Europa, José Mateus gosta de trabalhar diretamente com proprietários. Permite-lhe chegar a mais área e passar com facilidade das ideias à ação.

Desde criança, vive fascinado por tudo o que vive. O avô ensinou-lhe o nome da primeira planta: a esteva. “Hoje é uma planta com a qual trabalho bastante, e que é odiada, parece que traz o deserto. É das primeiras a produzir biomassa lenhosa. Cortamos, metemos organizada no sítio, trituramos se for em larga escala, para daí melhorar a condição do solo. Tenho feito esse trabalho de tentar dissociar o bem e mal, a dualidade, das plantas. Cada planta tem o seu lugar.”

E o eucalipto, hoje associado à desertificação e destruição da paisagem, pode ter um lugar fundamental na regeneração das florestas portuguesas. “Pode ser uma grande ferramenta. É uma planta incrível que está a ser incrivelmente mal usada”, observa o especialista em agrofloresta. “É um campeão de fotossíntese, muito eficiente a fixar dióxido de carbono e produzir celulose. Se for cortado e retirado com cuidado, podia-se produzir essa madeira e aproveitar plantas que estão lá já com 5, 10 anos, que nasceram à sombra. Podia ser plantado intervalado, ou semeado com bolota.”

Em vez de ter eucaliptos a criar desertos, podíamos tê-los a criar florestas. Esse é, para José Mateus, o seu verdadeiro potencial: uma “planta pioneira, como uma giesta, que entra no início da sucessão duma floresta, e depois deixa de ter o seu lugar. Com podas e manejo, podemos usar as folhas jovens para essências e aproveitar a madeira, as ramas e o que sobra da rebrota do eucalipto, essa biomassa, para dar apoio a plantas mais exigentes, voltar a conduzir um carvalhal ou sobreiral jovem por baixo e transitarmos para florestas mais biodiversas.”

A visão é partilhada por Paulo Pereira, biólogo especialista em botânica e ecologia. “É inglório tentar lutar contra o eucalipto. Temos de saber integrá-lo na lógica do mosaico mediterrânico, mas dando sempre primazia à floresta autóctone, baseada nos valores ecológicos locais. Devemos ser o mais humildes possível. Num terreno massacrado com três rotações de eucalipto, não vamos arrasar tudo para começar a plantar biodiversidade. Vamos olhar para o que lá está, perceber qual é a regeneração natural”. É o que faz no próprio terreno onde habita no centro do país, que se cobriu eucaliptos após os incêndios de 2017. Paulo vai retirando progressivamente a planta invasora, que usa para lenha, enquanto observa o que quer crescer.

“Respeito muito o eucalipto, por todas as suas propriedades medicinais, que permitem tratar problemas das vias respiratórias. E todos gostamos de papel”, afirma Fernanda Botelho, botânica e especialista em plantas medicinais. É a forma como o utilizamos que tem de mudar: “nutrindo o solo com muita cobertura de solo, com núcleos mais controlados e muito mais pequenos. Urge mudar de métodos de produção, e isso vale para o eucalipto como para a pera rocha, o tomate, o abacate, o milho ou o olival”.

Diz que tudo lhe interessa numa floresta, mas o que mais a fascina são as pequenas ervas que ninguém vê. “Sem elas as outras espécies não vivem! Atraem joaninhas, borboletas, dão alimento às aves, são nossas grandes aliadas como ervas silvestres comestíveis e medicinais. Desde o topo até ao que está debaixo do chão, está tudo ligado. Não se devia olhar para a floresta sem ver todos estes fios que fazem parte da imensa teia”, conta, antes de se por ao trabalho no seu jardim na região de Sintra.

Nas palavras de José Mateus, é tempo de passar do “degenerar pelo uso” ao “regenerar pelo uso”. Utilizar aquilo que já existe no terreno, trabalhar com a sucessão natural para regenerar cada ecossistema. Tal como propõe a ideia de agrofloresta, diz que é hora de começar a “juntar as disciplinas que estão todas separadas”: “usar num mesmo espaço ferramentas da horticultura, da engenharia florestal, da produção frutícola, da produção de animais. Pôr várias culturas ao mesmo tempo no mesmo sitio.”

“Eu vejo pequenas florestas de pequena escala”, conta Fernanda Botelho, que publicou este ano uma agenda dedicada às Árvores Medicinais. “Temos de apresentar propostas viáveis economicamente e também fazer entender que o dinheiro não é tudo. Antes de introduzir plantas da Austrália, tirar partido da nossa flora mediterrânica tão, tão rica. Mirtilos, maçãs, nogueiras, pilriteiros, alfarrobeiras, romãzeiras, sabugueiros... Têm tanto potencial! Do medronho só fazem aguardente, mas podemos usar para compotas e muitas outras funções. Com a bolota pode-se fazer ainda mais. Dependendo de zona para zona, podemos misturar muito mais árvores, fazer coabitar espécies como a videira e a oliveira. Podemos desidratar e vender plantas como ervas medicinais, para benefício da comunidade, resgatando o conhecimento ancestral que está a desaparecer.”

“Vejo as florestas a produzir imensa coisa. Temos a sorte de ter florestas super diversas, muitos microclimas, uma diversidade de espécies incrível”, concorda José Mateus. “Em cada ponto do país temos um potencial de floresta grande. Crescem a diferentes velocidades, com diferentes espécies, mas será uma floresta luxuriante, biodiversa e incrível.” O biólogo propõe, para cada lugar do país, indagar: qual é o potencial de floresta desta região? Em cada uma, predominará um tipo de carvalho – será a base, que terá mais ligações aos outros elementos e dará mais estabilidade ao sistema. Esse carvalho terá companheiros potenciais. “Para o sul devemos ter mais sobreiro ou azinheira, com a amêndoa, o pêssego; para o centro litoral mais carvalho cerquinho, com as nogueiras, que se dão bem no calcário; para o interior já podemos ter mais carvalho negral com a cereja; mais para o norte carvalho-alvarinho com castanha. Tudo sem rega. E podemos ter uma série de produtos: aromáticas, frutos do bosque, frutos secos, horta de culturas de inverno nas entrelinhas de floresta… Se quisermos mais escala, vamos para floresta para madeira, cogumelos, caça, turismo...”

“Quanto trabalho daria uma floresta multifuncional, com pessoas a cuidar dela? Quanto é que valeria uma paisagem assim transformada, para a retenção de água na paisagem, a prevenção de incêndios, a nossa alimentação, a criação de solo? O que é que voltaria de fauna selvagem?” Para o formador em agrofloresta, há duas medidas que podem ser tomadas já. Por um lado, estabelecer proteção para vários arbustos e árvores importantes, tal como existe para o sobreiro. Por outro, criar uma limpeza de mato mais seletiva, que jogue com a sucessão natural. “Ires eliminando essas fases mais espinhosas e aromáticas, as estevas, tojos e giestas, que ardem facilmente. E deixar arbustos de fruto, como medronho ou pilriteiro, menos amigas do fogo e mais amigas da fauna: todos os pequenos passeriformes e animais que vão equilibrar o sistema, protegê-lo de pragas.”

José Mateus facilitou uma formação em "Agrofloresta mediterrânica de sucessão" no centro do país no outono passado. As giestas cobrem as recém-plantadas linhas produtivas, que juntam uma variedade de aromáticas, legumes, arbustos e árvores em grande densidade.
José Mateus facilitou uma formação em "Agrofloresta mediterrânica de sucessão" no centro do país no outono passado. As giestas cobrem as recém-plantadas linhas produtivas, que juntam uma variedade de aromáticas, legumes, arbustos e árvores em grande densidade.
Foto: Inês Samba

Por todo o país, já brotam as sementes. As experiências de agrofloresta da Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo, são uma inspiração para José e para Fernanda. Linhas produtivas juntam uma variedade de aromáticas, legumes, arbustos e árvores em grande densidade, numa visão refrescante para o sistema de montado. Paulo aponta como exemplos a associação MilVoz, que criou e gere a Bio-Reserva Senhora da Alegria, junto a Coimbra, e a Herdade do Esporão, onde produção de vinho e regeneração da natureza se apoiam mutuamente. A vinha, em produção biológica, representa menos de metade da área da herdade, que a partilha com os matos, os prados biodiversos e as linhas de água restauradas.

“Estamos numa transição muito importante. A maior parte das pessoas começa a abrir os olhos.” Paulo Pereira cocriou recentemente a consultora Natural Business Intelligence, que propõe aplicar a ecologia e integrar a natureza no negócio dos seus clientes. “Muitos agricultores veem ter connosco pedir coisas que há dez anos seria impensável: alguém vai plantar amendoal, mas quer fazê-lo em respeito pela natureza, ou está a fazer vinha ou olival e quer tornar toda a exploração mais sustentável, em que a natureza trabalhe com a produção e não em conflito com esta.”

Foto: Inês Sambas

“Vejo cada vez mais pessoas a ir para o campo, trabalhar a terra e dominar estas artes”, observa José Mateus, que dá formações em agrofloresta, microbiologia do solo, produção de cogumelos, viveiros e sementes florestais. “O mais bonito dos novos métodos de agricultura é que, à luz dos conhecimentos atuais, conseguimos com pouco fazer muito. Criarmos e trocarmos entre nós as nossas plantas, as nossas variedades por enxertia, os nossos adubos a partir da reprodução de microrganismos – com pouca tecnologia e não precisando de indústria.”

“A gestão da floresta pode ser feita com os olhos no futuro em vez de com os olhos nos euros”, conclui Fernanda Botelho. “A floresta dá-nos tudo o que precisamos, tudo, tudo”.

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