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A extinção do protesto
Opinião Sociedade 3 min. 12.05.2021

A extinção do protesto

Protesto dos activistas pelo clima Extinction Rebellion (ER) em frente ao Parlamento francês, a 4 de maio deste ano.

A extinção do protesto

Protesto dos activistas pelo clima Extinction Rebellion (ER) em frente ao Parlamento francês, a 4 de maio deste ano.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 12.05.2021

A extinção do protesto

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A nova lei britânica anti-protesto ilude a ideia de um excesso de segurança que protege uma maioria silenciosa. Mas é carta branca para excesso de força das autoridades.

Uma das fundadoras do grupo de activistas pelo clima Extinction Rebellion (XR) foi presa por conspiração por causar danos criminais e fraude, atentar contra a segurança de bancos e encorajar desobediência financeira. Gail Bradbrook e outros activistas foram protagonistas de inúmeros protestos contra o aquecimento global, em Londres, onde partiram montras das sedes de bancos Barclays e HSBC.

A alegação de fraude refere-se a uma campanha de desobediência financeira, encorajando pessoas e empresas a não pagar dívida de cartões de crédito e doar esse dinheiro para fundos e campanhas contra alterações climáticas. Em Abril, os Extinction Rebellion pintaram a fachada do Banco de Inglaterra de preto num protesto simbólico contra os combustíveis fósseis.

Lutar pelo clima. Exactamente como a Greta Thunberg mas menos bem-comportados: atravessam-se no meio da estrada, impedem a circulação de carros, perturbam "a ordem". Os XR organizaram três grandes protestos nos últimos dois anos contra a escalada ecocida e a emergência climática. Neles, mais de 3.400 pessoas foram presas e 1.700 formalmente acusadas de ofensas públicas, no que especialistas dizem ser uma das maiores repressões contra protestos na história jurídica britânica. O grupo já foi incluído na lista de organizações terroristas no Reino Unido, por promover "ideologia extremista".

Não haja dúvidas sobre contra quem se insurge o autoritarismo neo-conservador da nova lei britânica anti-protesto: punir e policiar mulheres, anti-racistas e ecologistas.

A Ministra da Administração Interna britânica, Priti Patel, disse que os XR são "criminosos que ameaçam o estilo de vida do Reino Unido". Por exemplo, em 2019 impediram jornais de serem distribuídos, pondo-se no caminho de carrinhas de distribuição de jornais do império do bilionário australiano Rupert Murdoch, o dono da Fox, da Sky News e do tabloide The Sun.

Os XR também se envolveram em confrontos com a polícia devido à nova lei anti-protesto que pretende criminalizar manifestações que tenham o potencial de se tornarem violentas, como as dos Black Lives Matter que, no Verão passado, se espalharam um pouco por todo o país no rescaldo da morte de George Floyd nos EUA. Com especial incidência em Londres e Bristol, onde estátuas de esclavagistas e símbolos imperiais (de Edward Colston a Winston Churchill) foram derrubadas ou pichadas. "Sou contra o protesto", disse a ministra à rádio LBC, em Janeiro. Depois emendou: "Sou contra estes protestos."

Numa manifestação contra a nova lei, um grupo de activistas anti-racistas foi recentemente abordado pela polícia para identificação. Ironicamente, foram as mulheres o alvo: "A perseguição aos ativistas negros, principalmente às mulheres entre nós, mostra exactamente por que matar este projeto de lei é tão crucial. Se for aprovado, não poderemos protestar e usar a nossa voz para desafiar as desigualdades enfrentadas por nossas comunidades. Não temos dúvidas de que isso vai exacerbar o preconceito e o preconceito racial dentro da polícia do Reino Unido, que acabará por levar a novas prisões e intimidar outras pessoas de expressarem seu direito democrático ao protesto", disse o grupo ao Guardian.

Não haja dúvidas sobre contra quem se insurge o autoritarismo neo-conservador da nova lei britânica anti-protesto: punir e policiar mulheres, anti-racistas e ecologistas. A tríade perfeita que perturba e desafia reaccionários, negacionistas, extrema-direita, conservadores com medo da perda de privilégios. Para voltarmos a Woodstock, faltam pacifistas anti-nuclear: mas o governo anunciou recentemente que ia aumentar o número de ogivas nucleares do Trident em mais de 40%, o maior investimento em armamento dos britânicos desde o fim da Guerra Fria.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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