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A Europa refém de dois protofascistas
Opinião Sociedade 3 min. 26.11.2020

A Europa refém de dois protofascistas

O primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, (à direita) recebeu em setembro passado o homólogo húngaro Viktor Orban (à esquerda) em Lublin.

A Europa refém de dois protofascistas

O primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, (à direita) recebeu em setembro passado o homólogo húngaro Viktor Orban (à esquerda) em Lublin.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 26.11.2020

A Europa refém de dois protofascistas

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
O facilitismo com forças ou personalidades de perfil fascista quase sempre termina em desgraça. Mas muita gente não tem aprendido as lições que a História e a actualidade têm dado.

Quando Hitler apareceu na cena alemã, ninguém sonhava o perigo que ali estava, apesar de, em Itália, Mussolini já ter feito verter sangue e lágrimas de arrependimento. Tanto na Alemanha, como em Itália, pensava-se que aquelas potências eram suficientemente fortes, para escovar dois obsessivos malfeitores, se eles ultrapassassem os limites toleráveis.

Toda a gente se enganou e a tragédia teve as proporções que se conhecem e que, ainda hoje, provocam efeitos, nem sempre controláveis pelas sociedades. Como instinto de autodefesa, quase todas as democracias contemporâneas integraram, nas suas arquitecturas legislativas, a proibição de organizações, práticas e divulgação de doutrinas fascistas. Apesar disso, todos estes fenómenos aparecem e vão-se disseminando, com a velocidade de um pavio, desafiando o poder dos Estados. Quando o mar fica mais alto que a terra, toda a gente se lamenta e distribuem-se aleatoriamente as culpas. Depois, com a fogueira a desfazer-se, o assunto entra rapidamente no esquecimento lúgubre, até que uma qualquer tragédia o ressuscite.

Muitas vezes, aparece nas ruas, espalhando uma indomável violência, misturada com uma estupidez medieval. Mas o fascismo também já aparece infiltrado nas instituições, explorando a benevolência da lei, para depois a violar.

Muitas vezes, aparece nas ruas, espalhando uma indomável violência, misturada com uma estupidez medieval. Mas o fascismo também já aparece infiltrado nas instituições, explorando a benevolência da lei, para depois a violar. Hoje, a União Europeia está contaminada pelo fenómeno, corporizado, por exemplo, pelo húngaro Viktor Órban, ou pelo polaco Mateusz Morawiecki. Os efeitos da contaminação já estão à vista, com os dois a bloquearem o orçamento da União.

A ética democrática, naturalmente, contempla o direito de qualquer Estado, ou qualquer cidadão, votar em plena consciência. Mas, nestes dois casos, a ameaça ou a concretização do voto de bloqueio já são antigas e pretendem apenas fazer uma nugativa e volátil oposição que enfraqueça a maioria. Foi a isto que Anna Seghers chamou "a força dos fracos", embora os fracos possam ser os resilientes que, com coragem, enfrentam os fortes, ou os oportunistas que se servem de circunstâncias favoráveis, para desafiarem o lado justo das causas. Órban e Morawiecki estão neste segundo patamar.

O diferendo muito dificilmente terá uma solução, nas poucas semanas que restam até ao final do ano. O que quer dizer que vai sobrar para a próxima presidência da União, que caberá a Portugal. Com lideranças diferentes, estes Estados entraram para a União, com o chamado "alargamento a 10", concretizado a 1 de Maio de 2004. Na altura, já havia muitas reservas e o Conselho Intergovernamental (CIG), um órgão informal caído em hibernação, emitiu vários pareceres que aconselhavam cautelas, neste alargamento. Sobretudo, reduzia as proporções do alargamento, com a exclusão temporária de duas repúblicas do Báltico e algumas da Europa central e do leste.

Numa primeira fase, o Conselho Europeu acatou estas recomendações, para depois, subitamente, voltar atrás. E esta mudança de atitude foi apenas a cedência às pressões dos Estados Unidos, na altura, sob a administração de George W Bush. O Departamento de Estado cria que os alargamentos da EU e da Nato fossem coincidentes. E tinha urgência nisso, porque pretendia cercar a Rússia, com bases militares da Nato. A Europa cedeu e desde então tem pago um preço elevadíssimo.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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