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A Europa apresenta o seu futuro digital. Quer ser grande, mas sem copiar Silicon Valley ou Pequim
Sociedade 5 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

A Europa apresenta o seu futuro digital. Quer ser grande, mas sem copiar Silicon Valley ou Pequim

A Europa apresenta o seu futuro digital. Quer ser grande, mas sem copiar Silicon Valley ou Pequim

Foto: Getty Images
Sociedade 5 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

A Europa apresenta o seu futuro digital. Quer ser grande, mas sem copiar Silicon Valley ou Pequim

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
A Comissão Europeia já apresentou o seu projecto de desenvolvimento digital para os próximos cinco anos. Da cibersegurança à Inteligância Artificial, também passa pelo casamento com o Pacto Ecológico.

A promessa da nova comissão, que tomou posse em 1 de dezembro, foi de que em menos de 100 dias a Europa iria apresentar a sua estratégia digital para os próximos cinco anos. Mas antes ainda de o prazo se esgotar, a vice-presidente Margrethe Vestager pôde estar a mostrar o seu plano Moldar o Futuro Digital da Europa ao mesmo tempo que foi lançada a consulta pública de 12 semanas a todos os intervenientes nos Estados-membros. “Porquê a pressa toda?”, perguntou um jornalista na conferência de imprensa de ontem, levantando a dúvida de que feito em cima do joelho, o projeto seria mal desenhado.

Foto: Shutterstock

"É verdade que há um sentido de urgência, sobretudo no que diz respeito a lançar a consulta pública", respondeu a vice-presidente e comissária da pasta Uma Europa preparada para a era digital. "Até porque há um real potencial em tomar a dianteira. Dispomos na Europa de dados industriais de grande qualidade e, por outro lado, temos que tirar o máximo proveito das nossas capacidades, ao mesmo tempo que queremos controlar os riscos. Isso também é muito importante para o futuro da nossa democracia. Queremos definir em plena consciência como vai ser o nosso desenvolvimento digital", explicou a anterior comissária da concorrência de Jean-Claude Juncker, que ficou conhecida por enfrentar os gigantes tecnológicos norte-americanos, e da qual Donald Trump disse que era a pessoa que mais odiava os Estados Unidos por causa das multas à Google e à Amazon.

De jogador marginal a potência económica

Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a estratégia digital cobre áreas que vão desde a cibersegurança, à criação de infraestruturas robustas, à libertação de incentivos à educação e literacia digital e competências, que na União Europeia estão em deficit ( em 2017 havia aproximadamente 496 mil vagas de emprego por preencher na área de ‘Big data’) e inclui ainda as questões da democracia e do papel dos media e redes sociais.

O objetivo é que a Europa passe de ser um jogador marginal a uma potência económica na área digital, mas à sua maneira - sem a concentração nas grandes companhias e falta de regulamentação dos EUA e, por outro lado, sem o controlo e vigilância estatal e sem garantias para os indivíduos típico do modelo chinês: "Queremos criar o nosso modelo, assente nos valores europeus, onde preservar a democracia, os valores éticos e a segurança dos cidadãos é fundamental", explicou Vestager aos jornalistas. E garantiu que "deverá haver sempre mão humana na tecnologia de inteligência artificial", como forma de garantia de que os direitos dos cidadãos são acautelados. E deu um exemplo: "Nas últimas semanas tem-se discutido muito o reconhecimento facial. Se for para abrir um telemóvel pode ser inofensivo. Mas pode ser usado para coisas muito perigosas. A comissão está neste momento a lançar a discussão sobre a tecnologia", revelou Margarethe Vestager.

O charme inofensivo de Zuckerberg em Bruxelas

Preparar a Europa para a era digital é uma das seis grandes ambições da Comissão von der Leyen. Ontem foram apresentados aos jornalistas, aos deputados e ao Conselho Europeu, dois dos principais documentos: o Livro Branco sobre Inteligência Artificial e a Estratégia Europeia Sobre Dados.

Ole Spata/dpa

Na mesma sessão com a imprensa, o comissário para o Mercado Interno, Thierry Breton, acrescentou que o pacote apresentado resultou de uma grande colaboração entre todo o colégio de comissários e assenta num "grande trabalho anterior da anterior comissão". Numa altura em que a Inteligência Artificial (IA) - com os temores levantados pelo reconhecimento facial e ameaças de totalitarismo digital - e as plataformas digitais têm a reputação manchada, a comissão quer, nas palavras de Vestager, fazer com que a Europa assuma a liderança na nova era, mas não nos moldes de Silicon Valley. Para Vestager, a confiança dos cidadãos é a palavra chave: "Nada de positivo acontecerá se não for criado um ecossistema de confiança". Uma observação que não deixa de ter em conta, os recentes escândalos envolvendo a venda de dados do Facebook à Cambridge Analytica e que levaram à corrupção das eleições presidenciais americanas de 2016.

Aliás, Mark Zuckerberg esteve na semana passada em Bruxelas e foi recebido friamente, segundo o jornal Politico, por uma comissão que não se deixou convencer pelas suas promessas de que irá investir o que for preciso para libertar a plataforma de "fake news", de discursos de ódio e tornar mais transparente o uso de dados privados. O CEO do Facebbok passeou-se por Bruxelas, e foi fotografado a provar a cerveja belga numa das mais antigas cervejarias, o À La Mort Subit, antes de participar na Conferência de Segurança em Munique, mas a sua operação de charme não convenceu particularmente os políticos do Berlaymont.

Há uma oportunidade económica com as novas tecnologias, adiantou Thierry Breton. "A Europa tem tudo o que precisa para liderar "a corrida digital" e preservar a sua soberania tecnológica, liderança industrial e competitividade económica para o benefício dos consumidores europeus". Mas, sublinhou, embora seja preferível haver acordos entre os intervenientes, "se isso não for alcançado terá que haver uma regulamentação mais estrita". A promessa é de que a Europa quer abraçar a IA, mas não quer derrapar para um mundo distópico. Ursula von der Leyen citou Yuval Noah Harari e os seu 21 Lições para o Século XXI, um filósofo que tem alertado para os perigos de a inteligência artificial tomar as rédeas.

Mas para von der Leyen a nova estratégia digital irá ainda apoiar o Pacto Ecológico Europeu, o principal compromisso desta comissão: "A transição verde não acontecerá sem a tecnologia. Quer seja através das monitorizações por satélites, de conseguir uma mobilidade eficiente, ou de garantir uma agricultura de precisão, onde se consigam impactos mínimos".

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