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A eterna culpa dos pais
Opinião Sociedade 5 min. 03.08.2022
Andamos todos ao mesmo

A eterna culpa dos pais

Andamos todos ao mesmo

A eterna culpa dos pais

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 5 min. 03.08.2022
Andamos todos ao mesmo

A eterna culpa dos pais

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Somos demasiado exigentes connosco. Passamos a vida a correr para não falhar em nenhuma frente e garantir aos filhos tudo o que achamos que eles precisam. No final, sobram mais remorsos e angústia do que tempo de qualidade.

Querida filha,

Escrevo-te estas linhas na véspera do teu décimo aniversário, enquanto conto o tempo para não falhar o prazo de entrega da crónica e tu contas as horas para nos fazermos à estrada.

Dá-se esta coisa de fazeres anos no pico do verão, o que implica a parte boa de festas com piqueniques e mergulhos e viagens, mas também a parte má de celebrações sem os amigos por perto porque estão de férias. No fundo, é como aquilo do copo meio cheio ou copo meio vazio: há sempre duas faces da mesma moeda e, em (quase) tudo o que fazemos ou (quase) tudo o que nos acontece, podes tentar olhar para as coisas pelo lado que for melhor para ti. Às vezes vais conseguir ver a coisa positiva, outras só vais conseguir ver o lado negro.

Se eu fizesse uma lista de dicas úteis para te dar no dia em que chegas aos dez anos, era capaz de colocar lá esta: a de tentares ver sempre o aspeto positivo de cada adversidade. Mas, em vez de sábios palpites sobre a tua vida, prefiro focar-me num conselho para a minha: tentar viver os próximos dez anos com menos culpa.

É um manto pesado, este dos remorsos dos pais (pais e mães, entenda-se). A uns afeta menos e conseguem assobiar para o lado nas alturas certas para não passarem o tempo martirizados. A outros afeta mais e consome-os e chega a ser muito angustiante. O teu pai é destes. Não sempre. Não a toda a hora. Mas muitas vezes. Mais do que as que desejaria.

Acredito mesmo que somos a geração de pais mais bem preparada que o universo pariu e a sociedade preparou. Já não basta alimentar os filhos, levá-los ao médico e garantir que vão à escola (e estudam, já agora). É preciso saber muitas coisas mais, da amamentação ao sono, da importância da brincadeira à utilização de ecrãs, do valor da autonomia à segurança das rotinas, da temperatura da água do banho à necessidade de falar sobre temas bicudos, do respeito pela individualidade à quantidade de verduras que devemos colocar no prato, do poder da inclusão ao valor da generosidade.

E, no entanto, apesar dos manuais, dos sites, das apps, dos programas de TV e rádio, dos podcasts, das newsletters, dos conselhos das avós, das páginas de instagram dos gurus da parentalidade positiva, dos grupos de pais no WhatsApp e dos pediatras e psicólogos disponíveis 24 horas por dia, apesar de tudo isso e muito mais que continua a ser inventado sobre educação e família, continuamos a achar que falta sempre qualquer coisa.

Eu sinto isso muitas vezes, filha. Contigo e com a tua irmã. Umas com temas mais sérios que me consomem, outras com assuntos menos densos que me chateiam um pouco.

São os grandes remorsos por passar tanto tempo no trabalho e ter de ir a correr para casa para não falhar com nada. Os remorsos por não conseguir ir buscar-vos à escola mais cedo, fazendo com que fiquem lá mais horas do que eu gostaria, a tua mãe gostaria, vocês gostariam e os psicólogos recomendam. Os remorsos por ter de trabalhar em casa em tantas ocasiões e nem sempre fazer os intervalos necessários. Os remorsos por não passar o tempo de qualidade suficiente convosco, com disponibilidade total para apenas estar.

É a grande culpa por gritar de vez em quando e fazer esta cara séria de quem está muito zangado e fora de si e vai levar tudo à frente. Garanto-te que às vezes conto até dez para não dar um berro, outras só consigo chegar ao sete e já houve alturas em que aos quatro a coisa rebentou. Fico mais tranquilo quando converso com outros pais e percebo que também gritam, que nas casas deles também tentam contar até dez e também ficam com remorsos com isso – até conversarem com mais pais e ficarem mais tranquilos.

É o pequeno desapontamento – comigo próprio – por não fazeres tanto desporto como seria aconselhável, por não ter insistido mais contigo para te manteres na ginástica ou não desistires da natação ou não te ter comprado ainda os patins de que andas a falar porque os outros já não servem nesses pés que crescem rápido.

É a pequena frustração por não ter ainda conseguido investir na vossa formação musical como eu achava que iria fazer. Não falo das tuas aulas de flauta ou das aulas de piano da tua irmã. Falo da inveja parva dos amigos que garantem que os filhos lhes pedem para ouvir Beatles, Pearl Jam, Sérgio Godinho ou Jorge Palma porque foram habituados a esses sons desde pequenos.

E há também aquele pequeno pesar por achar que não passaria nos testes de admissão aos clubes da parentalidade positiva, já que, além de gritar, nem sempre sou suficientemente empático, nem sempre respeito a tua individualidade e o teu tempo, nem sempre penso que eu é que sou o adulto, nem sempre te abraço para conter alguma fúria ou frustração. E nem sempre acredito em unicórnios, já agora.

A lista de pequenos e grandes remorsos, culpas, desapontamentos, frustrações e pesares podia continuar, mas já percebeste que, acima de tudo, sou eu que tenho de resolver muitas destas minhocas na minha cabeça. E aceitar que só consigo ir até certo ponto e que não há nada de mal nisso, desde que consiga, pelo meio, garantir momentos de tempo e atenção de qualidade. Maiores ou mais pequenos.

Não sei se há um truque ou segredo para isto, mas eu diria que reconhecer que colocamos demasiada pressão sobre nós próprios e que isso traz muita angústia é um bom primeiro passo para os próximos dez anos. Isso e parar de me martirizar por tudo e por nada para, assim, poder aproveitar e apreciar as outras coisas todas. As boas. As que temos feito bem. Ou, dito por outras palavras, conseguir ver o copo meio cheio.

Os primeiros dez anos já estão. Parabéns por eles, Carolina. Venham os próximos. Com menos culpa.

Do teu pai,

Paulo

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