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A criação intensiva de gado pode levar a novas pandemias
Sociedade 6 min. 05.06.2020 Do nosso arquivo online

A criação intensiva de gado pode levar a novas pandemias

A criação intensiva de gado pode levar a novas pandemias

Sociedade 6 min. 05.06.2020 Do nosso arquivo online

A criação intensiva de gado pode levar a novas pandemias

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Um estudo internacional revela que 70% das explorações têm risco alto de albergar o próximo vírus que infetará o mundo. E pede-se para mudar todo o sistema.

O que anos de campanhas contra a criação industrial de gado não conseguiu, a covid-19 está agora a trazer à luz do dia. A indústria da carne precisa de uma reforma profunda e urgente para não se transformar no berço da próxima pandemia. 

Esta é uma das principais conclusões do estudo “Uma Indústria Infetada: a criação de gado num mundo pós-covid”, segundo o qual, 70% das 60 grandes companhias de carne avaliadas em vários pontos do globo, comportam um risco elevado de serem incubadoras de novas doenças de origem zoonótica com potencial para se tornarem globais.

Esta semana, também a conhecida ambientalista Jane Goodall, numa conferência com os comissários europeus responsáveis pela saúde e pela agricultura, disse que “a humanidade estará acabada se falharmos em mudar drasticamente os nossos sistemas alimentares”, referindo-se ao duplo risco: pandemias e alterações climáticas. 

“Se não acabarmos com a criação intensiva de animais e a exploração do mundo natural”, a humanidade não vai viver muito mais tempo, disse a conhecida especialista em chimpanzés.


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“A indústria da carne está no centro da crise, mas isto pode ser também o aviso de que precisávamos”, explicou Elliot Teperman, um dos responsáveis da FAIRR, uma organização que apoia investimentos com responsabilidade social e sustentável na indústria pecuária e que fornece orientações a uma rede de investidores cujos ativos totalizam 21 biliões de dólares.

Criar gado: um investimento tão mau como o petróleo

A situação já levou a que “a criação de gado esteja neste momento listada, juntamente com o petróleo, como os dois piores investimentos para se fazer no próximo ano, de acordo com uma avaliação da Goldman Sachs”, referiu Jeremy Coller, fundador e presidente da FAIRR, numa apresentação online do estudo. 

“O uso generalizado de antibióticos, a ausência de regras de segurança para trabalhadores e animais são não só um risco de saúde pública mas são também uma forma de a indústria da carne infligir um prejuízo económico avassalador nela própria”.

Nos EUA, cerca de 20 mil trabalhadores (um quinto do total) da indústria de processamento de carne foram infetados com covid-19, obrigando dezenas de matadores a fechar, um fenómeno que se repetiu em todo o mundo e que em Portugal também levou ao fecho de fábricas de processamento de aves.


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“Com a proximidade entre trabalhadores e falta de condições de segurança e higiene, a indústria da carne é o ambiente perfeito para a propagação de infeções”, explica Coller. Isto provocou o fecho de instalações, levando a “engarrafamentos” em toda a linha de montagem. “A indústria da carne não permite que se encerre dois dias a fábrica e tudo volte ao normal. 

E milhões de animais foram abatidos com métodos como a sufocação e enterrados porque não havia maneira de os continuar a alimentar para lá da data prevista. Ao mesmo tempo os supermercados nos EUA não tinham carne”. As perdas na indústria da carne norte-americana estão estimadas para já em 13 mil milhões de dólares, mas deverão crescer.

Porém os danos auto-infligidos são, ainda assim, uma parte do iceberg do dano global que as grandes explorações têm provocado, entre elas o facto de serem responsável por cerca de 70% do desflorestamento planetário. 

“Demasiadas emissões, falta de água e solos para justificar a existência de 17 mil milhões de cabeças de gado para alimentar 7 mil milhões de seres humanos” são uma das faces do problema do qual, diz Jeremy Coller, o covid-19 foi “a última palha que veio quebrar as costas da indústria da carne, abrindo a porta ao escrutínio dos investidores nestes aspetos”.

O que é preciso, disse Coller, é que “quando a poeira assentar, haja uma reforma da indústria, liderada por legisladores, pelas empresas e pelos investidores”, disse. Porque além das “fábricas de carne” serem invulgarmente atingidas pela covid-19 há o facto de serem incubadoras de infeções zoonóticas (que transitam de animais para humanos). “Vírus mortais podem espalhar-se como fogos florestais entre os animais amontoados e com os sistemas imunitários comprometidos”.

No relatório da FAIRR apresentado esta semana foram utilizados os dados de 2019 como referência para avaliar as 60 maiores companhias produtoras de carne em sete fatores: deflorestação e perda de biodiversidade; antibióticos; dejetos e poluição aquática; bem-estar animal; condições de trabalho; segurança alimentar; proteínas sustentáveis.

Algumas das conclusões são que 88% das empresas não questionam os riscos de deflorestação provocados pela indústria da carne. Nenhuma empresa cumpre os requisitos no que diz respeito a dejetos e poluição das águas. Quanto à segurança alimentar, apenas 12 empresas foram categorizadas como de risco diminuto.

A crise dos antibióticos: 650 mil infeções por ano

Lance Price, diretor do Centro de Resistência a Antibióticos, e professor de Saúde Pública na Universidade de Washington, salientou que tem havido muita discussão sobre os “wet markets”, ou mercados de animais vivos na Ásia, pela sua crueldade e por serem um foco de pandemias, mas “há 650 mil infeções bacterianas zoonóticas resistentes a antibióticos por ano nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle de Doenças”. E o assunto não provoca alarme público.

Seis toneladas de antibióticos determinantes para o controle de doenças em humanos são administrados todos os anos nos EUA a animais para abate, gerando aquilo que se considera já ser a grande crise mundial de resistência aos antibióticos, provocada, precisamente, pelo uso em larga escala na pecuária intensiva.

Segundo Lance Price, os EUA exportaram este modelo de criação intensiva de animais que agora é prevalecente no mundo. “Enquanto estamos a lutar por uma vacina ou droga que nos salve da covid-19, estamos a destruir os nossos medicamentos mais importantes para outras infeções mortais. E é bem possível que uma próxima pandemia esteja já a fermentar”, concluiu. A maneira de evitar isso, disse, é redesenhar todo o sistema, passando a conceber a saúde humana, dos animais e do ambiente como interdependentes.

Mudar as regras e investir em proteína vegetal

Depois de avaliados os riscos, o estudo aponta para uma série de respostas à crise. Tornar a biossegurança uma prioridade nas quintas industriais e nos matadouros já existentes; parar temporariamente a construção de novas “quintas/fábricas” tanto nos EUA como na Europa; acabar com o transporte de animais vivos e, por último, restringir o uso de antibióticos.

O estudo apoia ainda a adoção como medida para evitar futuras pandemias o investimento crescente em proteínas de origem vegetal em vez das de origem animal. 

“São mais resistentes à alteração nas cadeias de abastecimento, e respondem mais depressa às alterações na oferta e na procura e, mais importante, estão livres de patogénicos”, defendeu Elliot Teperman, que deu o exemplo: “Durante a gripe aviária de 2015 vimos muitas companhias mudarem a sua produção para maionese sem ovos; mais barata e sem riscos associados”.

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