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A costureira portuguesa de Yves Saint-Laurent

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A costureira portuguesa de Yves Saint-Laurent

A costureira portuguesa de Yves Saint-Laurent
Memórias de Lucília Manique

A costureira portuguesa de Yves Saint-Laurent


por Tiago RODRIGUES/ 20.07.2022

Foto: António Pires

Foi através de um vestido que fez para uma menina que Lucília Manique conheceu o estilista Yves Saint-Laurent. Trabalhou com ele durante oito anos, em Paris. Tomavam café juntos e viajavam para mostrar as coleções. O cancro do marido separou-os. Anos mais tarde, veio para o Luxemburgo. E até fez as bainhas a Xavier Bettel.

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Umas mãos de ouro
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Paris, 1965. A cidade fervilhava com a vida boémia, a arte, a música, o cinema. A capital francesa era também a capital da moda. Era a época da alta costura e dos desfiles. Um retrato que deixou Maria Lucília maravilhada, naquele 30 de agosto. Para uma jovem portuguesa de 21 anos, que acabara de sair de uma aldeia nos arredores de Lisboa, foi um choque. Tinha casado no início desse mês e emigrou com o marido, que lá tinha encontrado trabalho uns meses antes. Ficou fascinada com os edifícios, as montras, a Champs-Élysées. Uma recordação de tempos felizes: "Foi lá que começou a minha vida".

Naquela altura, a vida não era fácil para os emigrantes. Alugar uma casa em Paris era quase impossível. Lucília e Hélder viviam num quarto ao lado do Pigalle, famoso bairro da luz vermelha e do cabaré Moulin Rouge. Era a zona da vida noturna eclética e da prostituição. Sem saber, ela estava a morar num ‘hôtel de passe’. "O meu marido dizia para não sair do quarto, mas eu era terrível, ia lá eu ficar fechada. Achava aquilo esquisito, ver tantas senhoras e casais a entrar e a sair. Era um hotel tão pequeno. Quando lhe perguntava o que era, ele dizia ‘não interessa’. Ficava aflito, porque andava a tentar arranjar casa", recorda.

Para contrariar o marido, Lucília decidiu procurar trabalho para ajudar a pagar o quarto. "Ele ganhava bem e não queria que eu trabalhasse, mas eu era teimosa". Não sabia falar francês nem escrever, mas conseguiu pôr um anúncio no jornal, que dizia: "Portuguesa procura trabalho para horas de costura ou passar a ferro". Só recebeu uma resposta. "Era uma senhora que me achou muita graça, porque eu era muito jovem, ninguém me dava 21 anos. Comecei a trabalhar como empregada de limpeza para o filho, que era um ministro francês". Mudaram-se para um quarto no 17.º arrondissement, que "era um bairro chique, ao lado do 16.º, que era mais chique ainda".

Um dia, aquela senhora pediu-lhe para fazer um vestido para a neta, de quatro anos. "Fiz um vestido todo à mão, com uns favinhos de mel. Ela ficou encantada e disse-me: ‘Você tem umas mãos de ouro’. Era simples, mas estava bonito". O patrão de Lucília também ficou impressionado com o vestido da filha. "Ele ficou muito surpreendido com as minhas capacidades de costura", conta. Então mostrou-o ao irmão, que era amigo de um estilista francês de 29 anos que tinha lançado a sua própria marca de roupa. Um tal de Yves Saint-Laurent.

Ele [Yves] viu o vestido que eu fiz e disse: 'Que mãos habilidosas!' Quando começou a ter encomendas, telefonou para eu ir trabalhar com ele.

Yves Saint-Laurent à porta de uma das suas lojas em setembro de 1969. Nesta altura, Lucília era uma das suas costureiras.
Yves Saint-Laurent à porta de uma das suas lojas em setembro de 1969. Nesta altura, Lucília era uma das suas costureiras.
Foto: AP

O costureiro não tinha ainda a fama que tem hoje. Nascido em Orão, na Argélia francesa, havia chegado a Paris com 17 anos para trabalhar com o estilista Christian Dior. Após a morte do mentor em 1957, assumiu a direção artística da marca com apenas 21 anos. Pouco depois, foi convocado para o exército francês, durante a Guerra de Independência da Argélia, e teve um esgotamento nervoso por ter sido maltratado pelos colegas, ridicularizado pela sua homossexualidade. Foi despedido da Dior. Em 1961, Yves decide criar, com o empresário e companheiro Pierre Bergé, a sua própria casa de moda, no número 11 da rue Jean-Goujon, que passa mais tarde para uma grande mansão privada luxuosa na rue Spontini, no 16.º bairro.

Quando viu o vestido que Lucília fez, Saint-Laurent comentou: "Que mãos habilidosas!" Ela conheceu o estilista quando foi assistir a uma passagem de modelos com a mãe do patrão. "Ela apresentou-me e disse-lhe: ‘Esta jovem foi a que fez o vestido da menina’. Ele respondeu: ‘Agora ainda vou abrir [a nova loja], mas assim que começar a ter encomendas, você vem trabalhar comigo’. Quando ele começou a ter as encomendas, telefonou à senhora e disse-lhe para eu ir trabalhar com ele", lembra. Yves já tinha uma costureira francesa que era a primeira mão. Lucília ficou com a tarefa de acabar os trabalhos para entregas.

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O vício da bica
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No início eram três costureiras, mas rapidamente passaram a ser seis. Lucília era a única portuguesa. "Havia francesas, uma espanhola e uma italiana. Depois também havia os homens, que só tratavam da parte masculina. O Yves tinha o escritório dele, só estava connosco quando aparecia nas provas para ver se estava tudo bem". Começaram numa cave do ateliê na Avenue Montaigne. Ela trabalhava a tempo inteiro. "Estava lá todo o dia. Até tinha a chave. Às vezes, o Yves chegava lá e dizia ‘já estás aqui?’, porque eu ainda estava a acabar um trabalho para uma cliente", diz a costureira. "Era uma pessoa muito simpática, muito aberta. Foi um prazer de trabalhar com ele".

Lucília trabalhou com Saint-Laurent durante oito anos. "Ele era uma pessoa extremamente simples. Não era arrogante. Ia começar um negócio. Tínhamos uma clientela e fazíamos as passagens de modelos. O Yves era um homem maravilhoso, muito humano. E tinha muita habilidade. Era um artista", descreve ela. Mantinham uma relação estritamente profissional, mas partilhavam alguns momentos. "Ele era quase um colega. Algumas senhoras gostavam de ser tocadas e diziam ao Yves ‘quero mais assim’, enquanto passavam a mão no peito. Ele vinha ter comigo e dizia ‘Lucy, vai lá tu que ela quer é ser tocada’. Era um homem divertido", recorda ela aos risos.

Apanhei o vício da bica com ele. Ainda hoje, aos 78 anos, vou beber duas bicas logo de manhã.

Foto: António Pires

Certas vezes, Lucília e Yves iam tomar café juntos. "Apanhei o vício da bica com ele. Em frente ao ateliê havia uma tasca onde íamos beber o café. Ele dizia-me ‘Lucy, vamos ao café’. Ainda hoje, aos 78 anos, vou beber duas bicas logo de manhã. Falávamos e riamo-nos, víamos quais as clientes que iam à loja naquele dia e ele dizia ‘hoje és tu que vais meter os alfinetes’. Ele escolhia as clientes dele". Contava a Lucília sobre os amores dele, mas não falava muito da vida privada. Era um homem que também tinha os seus medos. "Dizia ‘será que vai agradar desta vez?’, ‘será que vamos vender?’ Ele tinha essas conversas connosco".

A portuguesa conta ainda que o estilista era extremamente metódico. "Era um homem de criação, que fez coisas maravilhosas. Tínhamos desde um criador de sapatos até aos chapéus. Cada um tinha a sua especialidade. Os homens a trabalhavam na roupa masculina e casacos e nós fazíamos mais os tecidos finos e os vestidos. Ele era muito esquisito. Punha cada um no seu lugar. Tinha que ser, não é por acaso que ele chegou onde chegou. Foi sempre até ao fim um grande artista", elogia. Na altura, havia grande competitividade no mundo da moda. "Ele tinha uma rivalidade com o Pierre Cardin. Era muito preocupado com o que fazia, para que ficasse bonito e confortável. Tínhamos de ser muito cuidadosos, porque fazíamos trabalhos sob medida. Tinha de estar tudo impecável".

Antes de eu voltar para Portugal, ele disse: ‘A gente ainda podia abrir uma loja em Lisboa’. Mas nunca se proporcionou.

Durante os anos que trabalhou com Saint-Laurent, Lucília viajava com ele por causa dos desfiles. "Fui ao Mónaco, ao País Basco e a outros sítios para mostrar as coleções. Foi um tempo bonito". Com Yves, ela aprendeu a "gostar de costura", porque o que ela queria era ser enfermeira. E ele também aprendeu com Lucília. "Acho que lhe ensinei a ser humilde. Ele gostava do meu trabalho e achava que eu era profissional. No fim, disse-me: ‘És uma boa profissional, é uma pena que te vás embora’". Ela tinha sido mãe do primeiro filho e estava prestes a voltar para Portugal, com 28 anos. "Quando eu fiquei grávida, o Yves dizia: ‘Tu não vais ter o miúdo aqui em cima da mesa. Vê lá que eu não quero ser parteiro", recorda a rir-se.

O casal decidiu voltar ao país de origem porque o marido de Lucília foi diagnosticado com cancro do estômago. "Ele foi operado e fizemos as malas para voltar para Portugal. O Yves ainda me disse: ‘Oh Lucy, a gente ainda podia abrir uma loja em Lisboa’. Depois é que ele começou a ser conhecido. Não mantivemos mais o contacto. Eu não sabia escrever. Ele dizia que quando fosse a Lisboa passava em minha casa, mas nunca se proporcionou", lamenta. Eles não se despediram, porque não gostavam de despedidas. "Dissemos ‘até um dia’. Ele era um homem muito ocupado. Não parava. Trabalhava como um louco. Havia dias que não o víamos, ficava no escritório a desenhar. Tenho pena de não ter continuado a trabalhar com ele, porque aprendia muito". Yves Saint-Laurent morreu em Paris, no dia 1 de junho de 2008, aos 71 anos.

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Um amor para a vida
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Após oito anos emigrada em França, Lucília regressou a Portugal. Ela é da aldeia do Freixial, em Bucelas, Loures, onde nasceu em 13 de janeiro de 1944. "Não existe lá nada, só os passarinhos", brinca. Cresceu com mais cinco irmãos. Quando era miúda, gostava de ser enfermeira. "Não consegui porque fui criada com os padrinhos e antigamente as pessoas eram muito púdicas. Diziam que as enfermeiras andavam todas com os médicos". Aos 12 anos, aprendeu a costurar, como as outras mulheres da família. Aos 15, começou a trabalhar. "Andava quilómetros a pé, porque só ganhava 25 tostões, que era o preço do transporte. Para poupar, ia a pé. Caminhava durante uma hora", lembra.

Foi numa dessas caminhadas que conheceu o futuro marido. Ele tinha 17 anos e era de uma aldeia lá ao lado. "Ele passava de bicicleta e metia-se comigo. Íamos a conversar. Começamos a gostar um do outro, era uma paixão. Um daqueles namoros típicos de jovens. O meu pai dizia: ‘Então anda aí atrás da rapariga?’, e ele respondia: ‘Se não quer que eu ande atrás dela, meta-a em casa’. Ele era assim, todo descaradão", disse com uma gargalhada. Hélder era ciclista. "Correu com o Alves Barbosa e o pai dele, o Manique, foi muito conhecido. O meu marido não foi tão bom". Além das bicicletas, ele trabalhava nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca, como desenhador de peças para os aviões. Foi nesse trabalho que ele conseguiu um contrato para ir para França.

Hélder foi para Paris sozinho, em fevereiro de 1965. No dia 8 de agosto, foi a Portugal casar com a Lucília para depois a levar com ele. "Mandou uma carta ao meu pai com o pedido de casamento. Eu estava toda contente, já sabia o que era. O meu pai disse: ‘O Hélder quer casar contigo, tu é que sabes. Haja o que houver entre vocês, se não gostares, não casas’. Depois fomos logo para Paris. Vivemos muito, com aquelas malandrices todas. Ele gostava que eu conhecesse aquela vida. Eu podia ir com o Yves para qualquer lado que ele nunca teve ciúmes. Confiava a 100% em mim", garante. "Nunca tive outro namorado ou marido, foi só ele. Ainda hoje o amo. O malvado cancro é que o levou. Mas fomos felizes".

O marido de Lucília morreu com 58 anos, devido ao cancro no estômago. Anos antes, quando voltaram para Portugal, ele tinha começado um negócio de gado. Comprou uma quinta, com 200 vacas. "Mas um vizinho não tinha esgotos na quinta dele e a água envenenada matou-nos o gado. Foi notícia no jornal. Com o desgosto, o meu marido começou a beber. Como tinha o cancro, aquilo acelerou. É assim que se estraga uma vida. Quando ele foi operado em Paris, o médico dizia que ele não se podia enervar, tinha de levar uma vida pacífica. Foi horrível", conta. Tiveram dois filhos, um homem, hoje com 50 anos, e uma mulher, com 46. E quatro netos: um jovem de 27 anos e uma rapariga de 25, da parte do filho, e um rapaz de 22 e uma menina de quatro anos, da parte da filha.

Sempre me desenrasquei. Fazia desde vestidos de noiva à decoração da casa. Trabalhei muito, de noite e dia.

Na altura em que voltou para Portugal, Lucília abriu o seu ateliê de costura. "Sempre me desenrasquei. Fazia desde vestidos de noiva à decoração da casa. Trabalhei muito, de noite e dia", garante. "Uma vez fiz um vestido para uma rapariga que estava a terminar o curso. Ela foi à cerimónia para receber o diploma com o vestido que eu lhe fiz. As colegas dela disseram: ‘Quem é que fez esse vestido tão bonito?’. Ela disse que era uma senhora do Freixial que esteve em Paris. As colegas foram todas minhas clientes". A costureira também trabalhou com a estilista portuguesa Ana Salazar, em Benfica. "Tive muitos altos e baixos, porque a minha vida não foi fácil", confessa.

Depois da morte do marido, decidiu voltar a emigrar, desta vez para o Luxemburgo. Tinha 55 anos. "Foi um acaso, para ajudar o meu filho e os meus netos". Eles já estavam emigrados no Grão-Ducado há alguns anos e Lucília queria passar mais tempo com os netos e ajudá-los a fazer os estudos e a seguir os seus sonhos. "Tenho um neto que é músico e compositor. Esteve nos Estados Unidos, na melhor universidade de música. Hoje anda por aí, corre o mundo inteiro. E tenho uma neta que está em Toronto, no Canadá. É psicóloga. Foi para lá sozinha e fica mais dois anos para acabar a especialidade. Foi por eles que eu vim para o Luxemburgo. Agora a minha missão está cumprida", assegura.

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Uma nova página
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Quando chegou ao Luxemburgo, há mais de 20 anos, Lucília alugou um estúdio em Steinford e começou a trabalhar na loja Hugo Boss do português Manuel Silva, mas também fazia limpezas. "Durante a semana, fazia a costura durante o dia e à noite ia limpar no shopping Belle Etoile. Aos sábados, ia limpar o escritório de uma concessionária de automóveis. Consegui conciliar isso tudo e pagar as dívidas que tinha. Fiz isso durante muitos anos, até me reformar", explica. Mesmo depois da reforma, ainda trabalhou mais dois anos. "Alguma vez pensava eu que ia viver tantos anos e com lucidez. Fui sempre uma mulher muito lúcida. Ainda hoje, com 78 anos, gosto de escrever as minhas memórias", revela.

Lucília está a viver num quarto da fundação Félix Chomé, na Cidade do Luxemburgo, há 10 anos. Gosta muito do país, mas diz que está na altura de regressar a casa. "Não há país como o Luxemburgo. Tenho pena de me ir embora, mas a minha função está cumprida. Aqui na fundação sinto-me triste, porque as pessoas são frias, não se juntam. Se calhar é porque eu ainda tenho muita genica. Foram momentos muito bons que aproveitei no Luxemburgo, mas o meu objetivo é voltar para Portugal até ao fim do ano", assume. Já restaurou a sua casa no Freixial e quer passar mais tempo com a filha e a neta de quatro anos, que vivem na Ericeira.

Não há país como o Luxemburgo. Tenho pena de me ir embora, mas a minha função está cumprida. O meu objetivo é voltar para Portugal até ao fim do ano.

A costureira conta com nostalgia que passou bons momentos no Grão-Ducado. "Na Hugo Boss, também fiz as bainhas ao Bettel, ainda ele não era primeiro-ministro. Nem sabia quem ele era. É uma pessoa maravilhosa, até tenho o número de telefone. É muito simpático e gosta muito dos portugueses", afirma. Na reforma, Lucília passou a dedicar-se ao voluntariado. "Fazia um panelão de sopa para os sem-abrigo, em Bonnevoie. Agora não tenho ido muito por causa da covid. É um trabalho que eu amo, porque se conhece muitas pessoas interessantes. Também faço voluntariado na Cruz Vermelha, com as crianças do cancro. Gosto de passar o dia com elas".

Em junho deste ano, Lucília foi uma das oito mulheres retratadas na exposição fotográfica "Local SHEroes", no Parque Laval, em Eich, na capital, que pode ser vista durante todo o Verão. O projeto da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) tem como objetivo homenagear mulheres que vivem ou trabalham nos distritos do norte da Cidade do Luxemburgo, contando as suas histórias de vida. No âmbito dessa iniciativa, Lucília ofereceu a sua máquina de costura a uma jovem costureira cabo-verdiana que conheceu. "Dei-lhe a máquina com muito carinho. Para ela seguir o sonho, porque quer montar um ateliê. Aquela máquina cose tudo", garante.

Lucília foi uma das oito mulheres retratadas na exposição fotográfica "Local SHEroes", um projeto da ASTI.
Lucília foi uma das oito mulheres retratadas na exposição fotográfica "Local SHEroes", um projeto da ASTI.
Foto: Sam Kirsch

Ainda hoje me pedem para costurar. Não sei se tenho cara de costureira. A minha geração era a geração das costureiras e dos estilistas. A moda mudou.

Agora que fecha o capítulo da sua vida no Luxemburgo, Lucília diz que está realizada, mas sente falta de ter uma companhia. "Sinto que fiz o meu melhor. Para nos sentirmos realizados, temos de estar bem connosco e com os outros. Eu pensava que isto era o fim do caminho. Acho que fiz mal em não tornar a casar. Tive pedidos de casamento, mas amei tanto aquele homem. Acho que não devemos envelhecer sós. A gente precisa de alguém para conversar, para partilhar", desabafa. A nível profissional, diz que fez a sua parte. "Ainda hoje me pedem para costurar. Não sei se tenho cara de costureira", ri-se. "Mas agora tudo mudou, é tudo feito em fábricas na China ou na Índia. A minha geração era a geração das costureiras e dos estilistas. A moda mudou".

Quando voltar para Portugal, vai deixar de costurar. "Só se for para a minha neta", admite. Quer passar o tempo a tratar dos cães, dos gatos e das galinhas. E ir para a praia. "É uma nova página na minha vida. Nunca viajei e quero ir a Cabo Verde e aos Açores. Gostava de conhecer Portugal, que não conheço". O futuro, diz ela, é para os jovens. "Estou muito orgulhosa. Acredito nos meus netos, nos jovens. Acredito que vão fazer grandes coisas. Já estão a fazer. Sempre ajudei os meus netos para seguirem os seus sonhos. Estou muito feliz, porque o meu objetivo foi atingido. Temos de ter objetivos. Esta é a minha maneira de viver".

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