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A coragem de Marega e o racismo dos outros
Editorial Sociedade 2 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

A coragem de Marega e o racismo dos outros

A coragem de Marega e o racismo dos outros

Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

A coragem de Marega e o racismo dos outros

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
É sabido que as claques organizadas de todos os clubes (…) são compostas por gente de muito baixa expectativa.

Finalmente um futebolista a jogar em Portugal decidiu revoltar-se contra os insultos racistas de que estava a ser alvo. Já não era sem tempo. Espero que este caso que atingiu Marega não termine com uma sanção meramente simbólica e que a indignação coletiva não se transforme numa risada geral.

É sabido que as claques organizadas de todos os clubes, sem qualquer exceção, são compostas por gente de muito baixa expectativa. Todos os dias desafiam os poderes do Estado, porque sabem que os seus crimes ficam sempre impunes. Com isso, ganham até um poder ilegítimo, dentro dos clubes, onde os presidentes mostram que temem essas hordas, capazes de tudo, até de homicídios.

O racismo no desporto não é mais grave que o racismo em qualquer outro setor da sociedade. Apenas é ampliado pelo sistema mediático, enquanto outras manifestações conseguem beneficiar do silêncio cúmplice, ou indiferente. Mas é sempre um crime abominável.

Há vários anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas classificou o racismo de crime contra a humanidade e exortou todos os estados membros a adequarem as respetivas legislações nacionais a esse estatuto. Não sei quantos países o fizeram, mas em Portugal nada se fez. Foi considerado que a legislação nacional já era suficiente para desencorajar manifestações de ódio racial. Pelo muito que tem acontecido, já se percebeu que ninguém tem medo de ser sancionado por práticas racistas.

As últimas semanas têm sido constantemente marcadas por atos de violência gratuita e desafios à lei, por parte das claques de futebol. Os clubes nada fizeram para acabar com isto e o poder político limita-se a inócuas palavras de circunstância, sem qualquer tipo de consciência. Já foi criada uma comissão para erradicar a violência do desporto, mas nada se sabe do que fez até agora. Se é que fez alguma coisa.

Tanto o Vitória de Guimarães, como a Liga, como a Federação esperam agora que a poeira assente, que o assunto caia no esquecimento das agendas mediáticas, para que tudo continue, como sempre foi. Esquecem-se, no entanto que, se não houver sanções exemplares, tudo isto se vai agravar, porque a gente das claques é abjeta, psicopata e está empenhada em fazer cada vez mais e cada vez pior.

As multidões albergam muitas cobardias e Marega teve a coragem de as enfrentar, em total solidão, com a coragem de quem não aliena a própria dignidade.

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