Escolha as suas informações

A Condessa de Minfa, uma grande leitora
Opinião Sociedade 7 min. 19.11.2021
Conto

A Condessa de Minfa, uma grande leitora

William Worchester Churchill
Conto

A Condessa de Minfa, uma grande leitora

William Worchester Churchill
Opinião Sociedade 7 min. 19.11.2021
Conto

A Condessa de Minfa, uma grande leitora

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Tão singular, quanto extravagante, o mundo da Condessa de Minfa mistura a verdade com a fantasia, o verdadeiro com o falso. Na sua biblioteca, será possível descobrir e imaginar quem era essa grande leitora e encontrar a chave do enigma da sua própria vida livre.

A 4 de Outubro de 1910, a velha Condessa de Minfa anunciou, num bilhete endereçado a um livreiro de Lisboa, estar vendedora de uma biblioteca herdada dos seus antepassados “que foram à Índia”. Foi Tarcísio Trindade, o grande alfarrabista da Rua do Alecrim, de fama hoje quase lendária pela sua discreta e generosa sabedoria, quem primeiro chamou a atenção para essa extraordinária biblioteca e me pôs em contacto com os seus descendentes. 

Em face dos rumores que corriam acerca da queda da Monarquia, a Condessa queria partir. Mas ainda não sabia bem se o seu destino seria o Brasil ou a Côte d’Azur. No mesmo fragmento em que falava do fim de um mundo, sintetizava o ressentimento partilhado por muitos, face a uma ordem social e política que tinha os dias contados. O mundo das casas, das capelas, das famílias e dos morgados, em que pesava a memória dos que tinham adquirido honra e riqueza, primeiro no Oriente, depois no Brasil ou em África, parecia estar em vias de se dissolver. 

E o resultado era o de uma generalizada nostalgia. Tal como dissera, em 1728, o Doutor Domingos de Sá Martins, auditor da guerra e provedor dos resíduos e capelas na Madeira, “todas as instituições de reinos, feudos e morgados têm por fim e objecto principal a conservação da memória e nobreza dos seus instituidores” (Biblioteca Nacional, Pombalina, cod. 126, fl. 154). 

Pouco importa que essa mesma nostalgia durasse há mais de um século. Um longo período, aliás, preparado pelas ideias de D. Luís da Cunha, pelas reformas de Pombal, mas só, de facto, iniciado com a vitória dos Liberais, as reformas de Mouzinho da Silveira e os planos progressistas do Fontismo. Notório era que o país não se tinha modernizado e o legitimismo, baseado numa devoção construída em torno da figura heróica do Senhor D. Miguel, era bandeira de muitas famílias. 

Tão-pouco a experiência cosmopolita e aberta ao que acontecia por esse mundo fora parecia ser incompatível com a crença nas virtudes do príncipe que saíra derrotado. Este último simbolizava o que de mais genuíno tinha a cultura política portuguesa mais conservadora avessa a eleições, partidos e poderes parlamentares. 

Não era, assim, de estranhar que, frente a uma República que estava para acontecer a qualquer momento, a única alternativa estivesse situada no exílio. Entendido este como uma espécie de recuo, de modo a preparar-se uma contra-ofensiva. E pouco interessava se o destino se encontrava do outro lado do Atlântico, repetindo o movimento que, um século antes, a corte portuguesa fizera para fugir às tropas de Napoleão. Ou, numa outra direcção, se se tratava de aumentar, no Sul de França, o contingente das famílias monárquicas e de pergaminhos nobiliárquicos provenientes de toda a Europa. O certo é que os cemitérios de príncipes e aristocratas, à beira-mar plantados, aumentavam por toda a Europa. 

Por último, não se sabia bem que livros eram esses herdados dos antepassados. O que estava em causa era mesmo uma biblioteca, ou um simples gabinete, por força mais especializado, ou, apenas, um lote selecionado para fazer face às despesas da partida? 

E, ao lado dos livros, que outros objectos estariam para venda: as pinturas guardadas na torre do palácio dos Condes de Minfa, sobre as quais corria que eram do melhor que algum coleccionador português chegara a reunir? Se dúvidas existem acerca do que se terá passado, sabe-se que a Condessa conspirou contra a República, no tempo em que José Moreira Freire – irmão do Abade de Santo Ildefonso – vendeu a sua colecção de arte. Também ela ajudou a financiar os movimentos liderados por Paiva Couceiro, sobre os quais um dos filhos de Eça de Queirós, escreveu páginas pungentes, fundadas na sua própria experiência, as quais ajudam a compreender melhor como é que o ressentimento dos monárquicos criou as bases sociais de apoio ao integralismo e ao fascismo. 

Quanto aos homens de Couceiro, recordem-se as suas deambulações por Vinhais, Casares e Chaves; “as marchas penosas e longas, cortando os matos, vergando os espinhaços ao som dos vendavais!”. Tudo isto, enquanto se esperava em vão que os monárquicos do Porto e Lisboa se revoltassem (António de Eça de Queirós, Na Fronteira (Incursões monarchicas de 1911 e 1912, Porto: Magalhães & Moniz, 1915, pp. 8, 342). Mas, afinal, que terá sucedido às grandes famílias da burguesia portuense, os Bessa incluídos? Não terão as suas hesitações – acomodatícias, porque ditadas pela defesa dos seus interesses – acabado por funcionar como uma espécie de fiel da balança, contribuindo para o falhanço do reviralho?

Será fácil supor os dias tristes e de desalento por que passou a Condessa Margarida Maria, quando as notícias chegaram, por via da Galiza, acerca do falhanço das tentativas destinadas a repor a ordem. Rodeada da sua prole, tendo enviuvado nesse mesmo ano de 1910, em que acabou por fugir de Portugal, passou a administrar, sozinha e à distância, as suas propriedades no Norte e no Alentejo. 

Nisso, seguiu o modelo praticado pelo seu marido em relação à roça na Ilha do Príncipe. A sua imensa correspondência versa, sobretudo, matérias de gestão prática. Abundam nela os contratos de emparcelamento de terras, destinados a tornar viável um património que se queria moderno e racional, orientado para o lucro. Volumosa é também a correspondência com os administradores da roça. 

Tudo isto com a consciência precisa de que não haveria respeito pelas tradições se a casa, qualquer que fosse o seu formato, incluindo o de uma ficção, não auferisse os proventos necessários para se continuar a impor. É que, conforme já se dissera no século XVIII, numa descrição poética da Madeira, a propósito da nobreza da Calheta, que dispunha de fazendas, bens e riquezas, tudo condições necessárias ao respeito: “Porque é o mundo tal que dizem todos / Se não há Midas, que não valem godos”. 

A biblioteca, cuja venda não se chegou a concretizar, talvez contenha a chave dos termos acabados de enunciar e que coexistiam em aparente contradição: por um lado, um conservadorismo, reacionário e miguelista; por outro, uma curiosidade cosmopolita, aberta e científica, que incluía um interesse precoce pelas vanguardas literárias, a começar por Marinetti. Mais: se a distinção, incluindo a que foi recriada pelo suscitar de novas formas de nobreza, permitiu sempre a transgressão, a Condessa de Minfa não respeitava convenções e formalismos absurdos. 

Reconheço até nela uma versão, mais prática e menos literária, do radicalismo livresco e visual de Blaise de Cendrars (embora um exemplar da célebre Anthologie Nègre de 1921, ostentando na capa um pequeno desenho picassiano de uma máscara africana, se encontre na biblioteca Minfa). No fundo, a Condessa era uma mulher livre, com os seus amantes mantidos com o cúmulo da discrição, primando mais pela sua variedade do que pela sua quantidade. 

Para compreender Margarida Maria, mesmo que superficialmente – uma vez que estudá-la, de modo mais sistemático e aprofundado, seria quase impossível, dado o modo labiríntico e contraditório da sua personalidade – , a única hipótese encontra-se nos livros da sua colossal biblioteca. O método a seguir será, pois, o de considerar a obra como chave da vida. Nas notas e dossiers que nos deixou sobre os seus livros – quase sempre num anexo encadernado ou arrumado meticulosamente num caderno ao lado de cada um deles – , descobre-se uma grande autora de comentários e de críticas. Uma leitora profunda, tanto quanto insaciável. 

E uma escritora que nunca publicou um único livro. Arriscaria mesmo dizer, com a consciência dos limites de qualquer generalização: a Condessa de Minfa era uma mulher livre e, talvez por isso, foi uma das maiores leitoras na transição do século XIX para o XX. Mas também posso reconhecer como válida a ideia que, pelo contrário, foi a prática sistemática de leitura que determinou a formação da sua consciência de mulher livre?

 



Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.