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A cidade onde queremos (ter direito a) viver
Opinião Sociedade 5 min. 01.04.2021

A cidade onde queremos (ter direito a) viver

A cidade onde queremos (ter direito a) viver

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 5 min. 01.04.2021

A cidade onde queremos (ter direito a) viver

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A pandemia levou-nos a repensar a relação com o lugar que habitamos. Muitos dizem que pode ser uma oportunidade para mudar para melhor. Mas enfrentamos inúmeras resistências. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

No primeiro lockdown, fiquei “presa” em Edimburgo. Apesar de bastante isolada, longe da minha família e dos meus amigos, 2020 foi ano de uma das mais agradáveis Primaveras dos últimos anos no Reino Unido. Abril e Maio foram sobretudo secos e as regras do confinamento britânicas permitiam longos passeios higiénicos.

Edimburgo é uma cidade de média dimensão, de meio milhão de habitantes, que, talvez devido à sua configuração e densidade populacional, se parecem mais aos 250 mil do Porto do que aos 500 mil de Lisboa. Talvez o verde ajude: Edimburgo tem, em plena cidade, um parque de 260 hectares (o equivalente a 260 campos de futebol), mais inúmeros outros parques “pequenos” o que permitia o verdadeiro distanciamento entre pessoas nas caminhadas, bem como a possibilidade de desfrutar da natureza (muitas árvores, mas também grandes relvados ou simplesmente grandes áreas de campo).

O choque foi quando, estando em Lisboa parte do semestre de aulas, em teletrabalho, me vi limitada nos passeios. Ainda não chegara ao grande confinamento de 2021 e já sufocava por verde. Lisboa também tem um parque de 1000 hectares (Monsanto). Mas quase nenhum parque “pequeno” que possibilite gozar de espaços verdes em plenas zonas urbanas, e assim permita o distanciamento entre pessoas nas caminhadas. Além disso, tanto em Lisboa como noutras cidades, muitos espaços verdes foram fechados durante o confinamento, sob responsabilidade de Juntas, Câmaras ou privados, empurrando assim as pessoas para passeios estreitos, sujos, sem árvores, muitos ocupados por carros, sem qualquer espaço verde.

Não sei em que momento Lisboa se tornou assim. Mas é um problema de inúmeras cidades portuguesas: viradas para os carros, para a ocupação que estes fazem do espaço e de como tudo existe em função deles. Seja para eles circularem, seja para acelerarem ou poderem estacionar. É por eles que Monsanto está literalmente separado de grande parte da cidade por vias rápidas ou avenidas de seis faixas equiparadas, e auto-estradas. É por eles que árvores são arrancadas para estacionamento ou porque o fruto da ameixoeira lhes mancha a tinta lacada. É por eles que se caminham vários quilómetros em algumas zonas de Lisboa e não se vê uma única árvore.

Tem-se falado muito sobre como a pandemia nos fez repensar a relação com o lugar que habitamos – a nossa casa, mas também as cidades. Percebemos, por exemplo, a importância do comércio local e de proximidade. Muitos passámos a evitar grandes superfícies, centros comerciais, e voltámos a comprar no talho, na mercearia, na padaria do nosso bairro, no mercado local. Em algumas cidades, como Barcelona, espaços de estacionamento foram devolvidos aos cidadãos, passeios cresceram e zonas tornadas pedonais. Noutras, ao fim-de-semana, o trânsito foi cortado para que os vizinhos pudessem descer e ocupar a rua em bairros residenciais, para que as crianças brincassem em segurança.

Também percebemos que não queremos mais viver em cidades em que se dá primazia ao automóvel em detrimento dos transportes e da mobilidade sustentada. Cidades transformadas em Disneyland para turistas, com inúmero património alienado para habitação de luxo fantasma e vistos gold, e festas populares com kits de sponsors daquelas empresas que se tornaram donas disto tudo. Onde as pessoas não têm dinheiro para viver, e da cidade são obrigadas a sair (Lisboa perdeu milhares de habitantes na última década). Queremos poder usufruir de equipamentos desportivos e de espaços culturais sem que para isso tenhamos de viver no coração do quarteirão teatral do Chiado ou na freguesia mais burguesa da capital. Em Lisboa, até parece que o acesso ao verde ou à cultura são apenas benefício dos que pagam mais IMI. Ou dos turistas que pagam vários euros por cocktails com vista sobre o Tejo, como no Adamastor, em que chegámos ao princípio do utilizador-pagador e proibimos a população de contemplar o rio.

Outro lugar impossibilitado de contemplar o Tejo foi o miradouro das Necessidades, onde o sistema de vistas da cidade foi absolutamente abalroado por processos pelos quais o ex-vereador do urbanismo Manuel Salgado foi recentemente constituído arguido: “O que acontece é que o miradouro das Necessidades é muito baixinho, o que significa que qualquer construção naquele sítio vai ter impacto sobre as vistas”, disse Salgado, que permitiu a construção do hospital privado Cuf Tejo, em entrevista ao Público. O problema é haver miradouros “baixinhos”. E que pena não podermos construir torres junto ao Tejo e deixar o resto da cidade na sombra.

Mas a pandemia também foi a desculpa ideal para autarquias e juntas aprovarem projectos sem consultar populações. Escudadas no teletrabalho ou nas reuniões via zoom, apostando na fragmentação dos cidadãos, cada vez mais isolados, apesar da ilusão das redes sociais; cada vez mais sozinhos, impossibilitados de acompanhar in loco algumas decisões unilaterais; cada vez mais insulares, com receio de protestos ou reuniões públicas por causa do vírus – tornou-se fácil, no último ano, alienar o que resta de Lisboa. Típico de organismos, como é comum no poder local em Portugal, que pensam que é função dos cidadãos policiarem câmaras e juntas, em vez de o pensarem ao contrário: se orientarem por uma participação inclusiva, com envolvimento das populações, ouvindo-as, numa discussão democrática sobre os projectos.

Este ano há eleições autárquicas. Vistas, verde, mobilidade, habitação, cultura: questões que autarcas parecem decidir serem apenas dos bairros ricos ou dos turistas com capital. Talvez a pandemia nos tenha ensinado que este é o momento para pensarmos em que cidades queremos ter direito a viver.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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