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A cacofonia do medo
Opinião Sociedade 5 min. 27.01.2021

A cacofonia do medo

A cacofonia do medo

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 5 min. 27.01.2021

A cacofonia do medo

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Entre o coronavírus e o vírus da extrema-direita, entre a espada laboral furiosa e a parede do precipício do desemprego, o espaço mediático fecha-se fomentando o medo e a desconfiança. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

No início da pandemia, íamos todos ficar bem (apesar). Arco-íris coloridos, nem sempre correspondendo à ordem real das cores na natureza, encheram janelas de casas e apartamentos, hashtags nas redes sociais, creches e escolas, alguns com letra infantil, transportando esperança (e algo que fazer) às crianças, outros dactilografados, dando algum uso finalmente àquela impressora a cores lá em casa.

No início da pandemia, íamos ser todos melhores cidadãos, mais empáticos, inclusivos, humanos. Íamos desenvolver uma rede informal de contactos entre vizinhos, ajudar os mais velhos, os amigos fechados em casa, aquele colega de trabalho com problemas de mobilidade, organizar uma sopa dos pobres, comprar no comércio local, no talho, na mercearia, na livraria. É verdade, muitas destas coisas aconteceram. O planeta, ressentindo-se da quebra nas emissões de carbono pela paragem da indústria, da aviação, dos carros, conseguiu respirar um pouco (apesar). Em Outubro, um artigo na Bloomberg mostrava como o ruído das cidades tinha mudado – em Nova Iorque conseguia-se ouvir o estático dos ares condicionados dos edifícios; em Amesterdão, os sinos das igrejas dominavam o horizonte sonoro; em São Francisco finalmente cantavam os pássaros. O site Cities and Memories é um projecto cartográfico de sons que colecciona #stayhomesounds, sons do confinamento à volta do mundo, sons antes impossíveis de serem escutados devido ao tráfego, às ambulâncias, ao ruído das pessoas na rua.

No início da pandemia, acreditávamos que as nossas cidades iam ser melhores sítios para viver (apesar). Houve até cidades que se adaptaram, expandindo ciclovias, desenhando jardins, fazendo crescer passeios, roubando lugares de estacionamento para que pessoas e esplanadas pudessem ocupar a rua, ao ar livre, quando o convívio foi relaxado. Outras houve, claro, que o prometeram mas não cumpriram. Outras ainda nem sequer mudaram, esperando que o boom do turismo e dos cafés tosta de abacate regressasse rápido.

Muitas coisas, pensámos (apesar), iam ser diferentes. Mas esse ímpeto primeiro ou gesto inicial de chegar ao outro, escutá-lo, ajudá-lo, esgotou-se rapidamente, seja na fila para o papel higiénico do supermercado, ou na recusa em usar máscaras em espaços fechados. Claro, a pandemia só veio exacerbar (in)diferenças em que já vivíamos.

Mas há um fenómeno paralelo a todos estes que também se acentuou. Podia falar do excesso de carga laboral que agora suportamos e que não nos permite o descanso ou desligar dos ecrãs; podia falar do gravíssimo problema de desemprego, pobreza e desigualdade que se agravou; do próprio vírus que provoca a morte ou danos irreversíveis na saúde, mas também no nosso tecido social, económico, escolar, mental; ou ainda do vírus da extrema-direita que cavalga esta planície queimada pela desesperança.

Esse fenómeno é o estreitamento do espaço mediático. Fechados em casa, tanto jornalistas (muitos) como cidadãos, construíram uma narrativa à volta do medo e da desconfiança: sem saída. A narrativa foi-se estreitando de tal modo que, hoje, ver um telejornal, um bloco de notícias a meio da tarde, um jornal online, receber notificações noticiosas é não saber absolutamente mais nada sobre o mundo a não ser um vírus que nos assola e nos mata, as medidas para o combater ou mitigar, e um outro vírus, o da extrema-direita banalizada e normalizada, que parece invisível a olho nu, mas que tem um protagonismo desmesurado, também por défice de notícias.

Semanalmente, quando me ponho a escrever esta crónica, procuro histórias, coincidências, reportagens que não tenham tanto a ver com a pandemia em si, mas que contem o mundo a partir de um olhar curioso, que nos surpreenda. Não porque a pandemia não seja um assunto da maior importância, mas porque precisamente é possível contar a história destes anos através de outras histórias que não chegam ao espaço mediático. Sim: faço muito scroll alheado pelo twitter fora, e, às vezes, algo me salta à vista. Guardo para ler mais tarde. Sim: faço muitos passeios higiénicos (para lá da minha zona de residência, pasme-se!, porque quando caminho 20 minutos saio da minha freguesia) e ouço muitos podcasts com reportagens ou audiolivros.

Nos media portugueses, sobretudo, neste momento, não há practicamente nada para além do nosso umbigo: números, mortos, camas, uma histeria colectiva, falta de lucidez, incapacidade de pensar, visão turva, tensão alta, bullying político, a escola do meu filho, o vizinho com o cão, cafezinho no postigo, “as outras pessoas”. Fechados em casa, agarrados à bolha de oxigénio do algoritmo das redes sociais – e, não se esqueçam, também as séries no Netflix são escolhidas pelo algoritmo – estamos cada vez mais paranóicos, egoístas, medrosos, fracos. Não sei se os jornalistas sentem isto. Eu sinto. Não há histórias sobre livros, entrevistas com um músico, um filósofo, um historiador. Alguém que fale da natureza, alguém que fale de cinema. Nada. É números, epidemiologistas, virologistas, analistas comentadeiros todos da mesma cor política. Nenhum poeta se ouviu a pensar este mundo em que hoje vivemos.

Se eu pudesse gritava "saiam para a rua" – não necessariamente para desrespeitar qualquer dever de confinamento, e até porque esta é uma rua metafórica, e muito menos para desvalorizar a gravidade das perdas que temos sofrido. Mas para estarem atentos aos sons que estão a mudar tanto lá fora, e nós sempre fechados na cacofonia do medo cá dentro.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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