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A Alemanha muda para que tudo fique na mesma
Opinião Sociedade 3 min. 04.10.2021
Eleições

A Alemanha muda para que tudo fique na mesma

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A Alemanha muda para que tudo fique na mesma

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 04.10.2021
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A Alemanha muda para que tudo fique na mesma

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Durante 16 anos pelo menos houve Angela, resolvendo as crises mundiais ao mesmo tempo que lutava incansavelmente pela igualdade de género. Só que não, não é?

"Sim, também sou uma feminista", disse Merkel. Uma afirmação poderosa vinda da líder de uma das mais avançadas economias mundiais. Um exemplo vindo de quem conseguiu estilhaçar o "teto de vidro" que quase sempre reserva os mais exclusivos cargos do poder para os homens e transforma as cimeiras internacionais em clubes de fumar charutos. Durante 16 anos pelo menos houve Angela, resolvendo as crises mundiais ao mesmo tempo que lutava incansavelmente pela igualdade de género.

Só que não, não é? Quanto à resolução de crises, estamos conversados – estão todas a estourar-nos nas mãos, pois durante década e meia andou-se a consertar paredes com fita-cola. E as palavras "sou feminista", tão contenciosas entre os conservadores da CDU alemã, foram ditas... em setembro de 2021, duas semanas antes das eleições onde Merkel se reforma. Ou seja, o seu único objetivo era tentar obter mais uns votos para o partido se eternizar no poder. Relembremos as credenciais "guerreiras" de Angela até aqui: chegar ao poder como "a menina de Kohl", e governar sempre da forma mais neutra possível, esquecendo as questões de género e oferecendo as pastas-chave dos seus governos a homens. Até a alcunha "Mutti" tem fortes conotações sexistas.

Na Alemanha do III Reich, a tese oficial do Estado alemão era que as mulheres só serviam para os três K: igreja, filhos e cozinha. Um bom teste a quanto se avançou desde aí surgiu este abril, quando a candidata dos Verdes, Annalena Baerbock, apareceu a liderar confortavelmente as sondagens. Acenderam-se os alarmes nos escritórios dos interesses instalados e da "política de sempre": os Verdes no poder? E ainda por cima com uma mulher??

Então puseram-se em marcha as rodas dentadas da máquina de normalização democrática, e Annalena foi alvo de uma campanha de insultos e difamações nos media e redes sociais. Um relatório do Instituto de Diálogo Estratégico foi taxativo: os erros da sua campanha (equivalentes aos dos seus competidores) foram amplificados ao máximo; as mentiras e as teorias da conspiração sobre as suas propostas foram repetidas diariamente; e uma enorme parte do material difamatório usava linguagem puramente machista e sexista. 

Muitas das publicações questionavam a capacidade das mulheres em geral na política, e nos media mais convencionais, a candidata tinha muitas vezes que responder a "como pensa equilibrar as exigências de ser chanceler com ser mãe" – escusado será dizer que os candidatos do SPD e da CDU, ambos homens de meia-idade, não tiveram de explicar como conseguem ser pais e políticos a tempo inteiro. Um dos memes ia (muito) mais longe e sobrepunha a cara de Baerbock no corpo de uma mulher nua, com a legenda "Eu era jovem e precisava de dinheiro".

A tática suja resultou. Em julho – ironicamente, ao mesmo tempo que as cheias catastróficas faziam Merkel finalmente entender que algo devia ter sido feito contra a emergência climática – os Verdes já tinham caído nas sondagens para um distante terceiro, lugar em que terminaram este domingo. A política alemã voltará a ser assunto de homens. E os eleitores perderam mais uma oportunidade de, em vez de apenas gerir a decadência, tentar um mundo um pouco melhor.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


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