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A 2.ª Condessa de Minfa e os amores que não deixam rasto
Opinião Sociedade 8 min. 26.11.2021
Conto

A 2.ª Condessa de Minfa e os amores que não deixam rasto

Girl in Grey (1939) Louis le Brocquy
Conto

A 2.ª Condessa de Minfa e os amores que não deixam rasto

Girl in Grey (1939) Louis le Brocquy
Artwork Copyright: the artist's
Opinião Sociedade 8 min. 26.11.2021
Conto

A 2.ª Condessa de Minfa e os amores que não deixam rasto

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Em 1930, a velha Condessa de Minfa regressou a Portugal.

A sua intenção era a de deixar, aqui, instalada a sua filha mais velha, Margarida Maria, sua homónima, que lhe sucedeu no título. O nome e o exemplo da freira visionária francesa Marguerite-Marie Alacoque tinha-se espalhado pela Europa que vivia ainda sob a influência da cultura francesa. A filha, que contava 23 anos quando aqui chegou, adquirira já as capacidades da sua mãe em matéria de organização, bem como um misto de curiosidade, erudição e criatividade, que se reflectia numa escrita, clara e límpida, cujo alcance ia muito para além da secura da correspondência administrativa. Ela era, no fundo, melhor que a mãe. Mas foi esta quem percebeu ter deixado de ser possível gerir tamanho património à distância. 

A crise de 1929, com todas as repercussões que teve nas cotações dos papéis e acções de companhias inglesas, em que os Minfa tinham investido, levou à decisão de interessar a filha pelas terras mantidas, há décadas, em Portugal e no seu império. Administradas por delegação, ao sabor dos interesses de zelosos e oportunistas, as terras voltaram a ser controladas directamente por quem de direito.

A experiência de vida de Margarida Maria, para a época, não era pequena. Tinha estudado num colégio interno na Suíça, onde conhecera as suas iguais. Uma das suas melhores amigas, convidava-a, no verão, para o seu chalé de Nice. Outra não prescindia da sua companhia na estância de ski da Áustria, que era propriedade da sua família. Viajara, acompanhada por preceptoras e colegas, pela América do Sul. Seguira no rasto dos caçadores régios e já estivera em batidas no Quénia. Visitara Berlim, Londres, Boston, Nova Iorque e Chicago. Depois, rumara a Paris para cursar a célebre Académie Julian. Os tempos já não eram os do modernismo futurista e cubista, de que Diogo de Macedo nos deixou um testemunho tardio, ao descrever os bacanais organizados por Modigliani no seu atelier. Mas, mesmo assim, convivera com todos os artistas importantes que passaram por Paris, em finais da década de 1920.

Foi nesses mesmos anos de aprendizagem artística e de uma boémia contida que a jovem Margarida Maria fez duas viagens a Lisboa e ao Porto. Por esses anos, já o Estoril e Cascais se tinham imposto como cemitério de monarcas e aristocratas. Recorde-se, também, que, em Lisboa, os tempos do Bristol, que corresponderam aos do fim da Primeira República, tinham ficado para trás. Para ela, o mais interessante é que, em Lisboa, havia agora um conjunto de artistas plásticos que lutavam por se impor, num circuito que ainda não era propriamente o das galerias, mas gravitava em torno da Brasileira.

Conheceu Tagarro, na sua figura de cartaxeiro, quase campino, de uma sensualidade ambígua, obcecado pelo seu autorretrato, quase tanto como com a sua sobrevivência, acompanhando sempre Sarah Affonso. Assistiu no atelier de Rui Gameiro, que pertencia a uma dinastia de artistas, à feitura da cabeça do Tagarro. Mas as duas figuras do grupo que mais impressionaram Margarida Maria e com quem mais conviveu foram Júlio de Sousa e Henrique Albuquerque de Bettencourt.


William Worchester Churchill
A Condessa de Minfa, uma grande leitora
Tão singular, quanto extravagante, o mundo da Condessa de Minfa mistura a verdade com a fantasia, o verdadeiro com o falso. Na sua biblioteca, será possível descobrir e imaginar quem era essa grande leitora e encontrar a chave do enigma da sua própria vida livre.

O primeiro, com os seus bonecos de trapos, o seu exibicionismo natural e a sua assumida homossexualidade, constituiu para ela uma lufada de ar fresco nessa Lisboa lúgubre e pobre que lhe era dado a ver. O segundo impôs-se-lhe tanto pelas figuras de corpos nus que esculpia, com os pés fortes, à maneira de Picasso, como também pelo seu excesso de autoconfiança, de menino rico das ilhas, quando afirmou que tencionava ir a Paris não para aprender, mas para ensinar. Uma provocação dirigida, no fundo, a esse outro escultor, natural das ilhas, Canto da Maia.

A morte de Tagarro, logo em 1931, seguida da de Gameiro em 1935, vítima de um desastre de mota na estrada de Sintra, e a de Albuquerque de Bettencourt, em 1939, constituíram para Margarida Maria uma autêntica tragédia. Talvez por isso se tivesse apegado tanto a Júlio de Sousa, convencendo-o a abrir uma casa de fados na Rua Barroca, bem perto do seu palácio, cujo jardim ficava ao lado do Conservatório.

Quando, no início da década de 1980, comecei a frequentar a sua casa, Margarida Maria estava longe de parecer que tinha já feito setenta anos. Mais do que a sua figura, foi a sua juventude de espírito o que mais me impressionou. Devo a esse grande livreiro que foi Fritz Berkemeier, a pessoa que conheci em toda a minha vida que mais sabia de livros, ter podido conviver de um modo tão estreito com a Condessa. Criara quatro filhos, tivera vários maridos (mas nunca cheguei a perceber quantos), viajara pelo mundo inteiro, mas abominava falar do passado. Não posso contar muito mais a sua história, porque não a sei ao certo.

Nos almoços que tivemos no Avião, nós os três (Fritz incluído) quase só falávamos de assuntos do presente e de livros. Eram conversas que se prolongavam tarde fora, até sermos corridos daquela tasca gerida por um casal de transmontanos. Sempre que Margarida Maria arriscava falar de relações e de sentimentos, extravasando dos assuntos normais, referia-se-lhes em termos abstractos. Ou seja, retirava-os de qualquer situação ocorrida no seu passado. No fundo, tratava-se de um subterfúgio – por ela utilizado para não dar a conhecer a sua história de vida – que sempre me irritou.

Embora nunca tivesse ousado perguntar-lhe por que razão se esquivava a falar de si e das suas memórias mais íntimas, confesso que me perturbava esse seu lado enigmático, com que me pretendia impressionar. Acho mesmo que sabia controlar bem demais esse jogo, que me obrigava a adivinhar o que queria mesmo dizer e se o que afirmava tinha ou não uma relação directa com a sua experiência de vida.

A pouco e pouco, esse mesmo jogo de abstracções, de meias-verdades e de generalidades, por ela controlado na perfeição, do mesmo modo que me atraía (não mentirei mesmo se disser que tal jogo me seduzia), provocava em mim um cansaço e uma vontade de desistir. Não seria preferível mudar de assunto e passar apenas a falar dos livros das nossas bibliotecas e dos assuntos, mais ou menos frívolos, do presente? Margarida Maria apercebeu-se, então, que tinha levado demasiado longe esse mesmo jogo, em que os seus aforismos abstractos, reveladores de um enorme conhecimento da psicologia dos homens e das mulheres, surgia totalmente desencarnado da sua experiência. Como poderia alguém, como eu – que sempre me vangloriei de uma certa frieza e tornei explícita a minha incapacidade em me envolver – ter ficado à mercê desse joguinho, sem me conseguir libertar dele, a não ser através de um corte radical?

Foi num desses momentos, em que Margarida Maria tomou consciência do mal que me andava a fazer, que decidiu apresentar-me uma explicação. Que sim, que também ela amara muitas vezes, sofrera outras tantas, por vezes também mentira a si própria (mas, nestes casos, fora-lhe até mais fácil esquecer) e fizera sofrer aqueles que a tinham amado. Em tudo isto, não havia grandes diferenças com o comum dos mortais, a não ser, talvez, na velocidade e na frequência das relações amorosas por que passara. Porém, a grande diferença – em relação a todos os outros que vivem dessas memórias de encontros e desencontros, julgando encontrar nelas um sentido para a vida, um modo de constituir uma identidade própria – é que ela tinha aprendido, desde muito cedo, a esquecer. Mais: tinha-se treinado para apagar da sua memória o rasto dos amores falhados, por isso, a memória não lhe pesava. Ali estava a chave do seu espírito jovem, que era a melhor demonstração de que se tinha conseguido libertar do passado. Assim, os seus sentimentos, longe de viverem do passado, eram o resultado de um corte permanentemente estabelecido com ele.

Desde que Margarida Maria morreu não tinha voltado a pensar nestes mesmo termos. A tristeza que senti durante tanto tempo pela perda dessa mulher fascinante, com quem passei horas à conversa, à volta da mesa ou sentado num sofá da sua biblioteca, fizera-me esquecer a sua pessoa. Também eu me treinei para esquecer os meus sentimentos, quando consegui apagar em mim o sentido da nossa amizade (para não lhe chamar outra coisa).

Qual não foi o meu espanto quando, nos últimos dias, ao ler o último livro de uma escritora de que tanto gosto, Teresa Veiga, intitulado O senhor d’Além (Tinta-da-China, 2021, p. 52), me deparei com a mesma ideia que ouvira da boca da Segunda Condessa de Minfa: “Também se engana se imagina que não se consegue deixar de amar completamente alguém, ou erradicar por completo a lembrança desse amor, a não ser que tivesse sido tudo uma mentira. O tempo tudo resolve e, de tanto querermos esquecer, esquecemos mesmo. Felizmente que depois das ideias rancorosas e mesquinhas, das recriminações, das mágoas inúteis, percebemos que é da natureza do amor esvair-se sem deixar rasto”.

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