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9 de Maio do passado, 9 de Maio do futuro
Opinião Sociedade 4 min. 10.05.2022
Dia da Europa

9 de Maio do passado, 9 de Maio do futuro

Comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Julia Margareta Johansson, carrega uma pomba branca, na cerimónia de comemoração do Dia da Europa, em Bruxelas, em solidaridade com o povo ucraniano. Dia da Europa assinala-se a 9 de maio.
Dia da Europa

9 de Maio do passado, 9 de Maio do futuro

Comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Julia Margareta Johansson, carrega uma pomba branca, na cerimónia de comemoração do Dia da Europa, em Bruxelas, em solidaridade com o povo ucraniano. Dia da Europa assinala-se a 9 de maio.
Foto: Kenzo Tribouillard/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 10.05.2022
Dia da Europa

9 de Maio do passado, 9 de Maio do futuro

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Os últimos anos revelaram o nosso atraso: defesa, saúde, independência energética, migração e asilo, políticas sociais...

Ninguém sabia o que iria acontecer em Moscovo durante o "Dia da Vitória". Todos os anos a 9 de Maio, a Rússia celebra o final da II Guerra Mundial (ali chamada de "grande guerra patriótica") com uma grande parada militar que até ogivas nucleares inclui. Um espectáculo de teor belicista e agressivo, que olha para o passado heróico com indisfarçado saudosismo e retira dele a lição mais errada: se houve uma guerra é porque vai haver outra, logo quantos mais mísseis fabricarmos, melhor.

A todo o aparato adiciona-se o discurso nacionalista do autocrata no poder, usando estratagemas já gastos de um século: o "Ocidente" (a Europa e os EUA) é apresentado simultaneamente como corrupto e provocador, débil e perigoso. Já a Rússia é ofendida, mas sempre justa, como que tocada pela graça divina. Estes são os temas em anos "normais". 

A começar pela lição correcta a retirar de 1945 – a serpente do nacionalismo acaba por gerar a guerra, e a União Europeia foi criada para que os antigos inimigos assegurassem a paz conjunta.

Mas 2022 é tudo menos um ano normal, e desta vez havia uma preocupação generalizada sobre o que iria dizer o ocupante do Kremlin: ele poderia fazer escalar a retórica, anunciando uma mobilização geral de todos os homens em idade de combater; poderia (outra vez) ameaçar ataques nucleares; poderia declarar "vitória", em que o Leste da Ucrânia passava a ser, como a Crimeia, território conquistado para sempre.

A montanha pariu um rato retórico, o que é obviamente um alívio – e um bom sinal, porque pode ser interpretado optimisticamente como se as opções de Putin começam a reduzir-se. Vladimir limitou-se a repetir uma espécie de best-of das queixas que dirige ao mundo. Sobre a Ucrânia, falou imenso do passado, insistiu na tecla de que o inimigo é o herdeiro directo dos nazis, e que o seu país se viu forçado a defender-se numa guerra que não desejava, mas que vai acabar por vencer.

Esta descrição da guerra ficaria muito melhor na voz do invadido... e de facto Zelensky utilizou exactamente os mesmos argumentos numa espécie de versão alternativa do mesmo discurso, filmado com uma câmara à mão pelas ruas de Kiev (em vez da pompa e megalomania militar da praça Vermelha).

A nossa viagem de 9 de Maio termina bem no centro da Europa, em Estrasburgo, cidade-símbolo da reconciliação entre a França e a Alemanha. Foi aqui que os três presidentes das instituições europeias assinalaram o Dia da Europa; a data é a mesma, mas o contraste não poderia ser maior. A começar pela lição correcta a retirar de 1945 – a serpente do nacionalismo acaba sempre por gerar a guerra, e a União Europeia foi criada para que os antigos inimigos assegurassem a paz conjunta.

Em Estrasburgo falou-se do futuro. Ali encerrou a Conferência sobre o Futuro da Europa, onde cidadãos comuns de todo o continente propuseram 326 medidas diferentes para fazer evoluir a nossa Casa Comum. Há uma mensagem muito clara que permeia essas propostas: as pessoas querem MAIS Europa para ter MELHOR Europa. Há ideias para avançar em áreas-chave onde os últimos anos revelaram o nosso atraso: defesa comum, saúde comum, independência energética, migração e asilo, políticas sociais para todos os europeus, e um genuíno incentivo à democracia participativa para finalmente aproximar os cidadãos das instituições. Além disso – para conseguir avançar sem os bloqueios habituais dos países eurocépticos – quer-se acabar com as decisões por unanimidade.

O anfitrião Emmanuel Macron, na sua primeira intervenção desde que foi reeleito, apontou ainda mais longe com uma ideia de rasgo, a criação de uma "Comunidade Política Europeia": um círculo exterior e mais flexível de ligação à UE, para Estados que partilhem dos valores europeus, mas tenham dificuldades em aderir no curto prazo – países como a Ucrânia, desde logo, mas também a Bósnia ou até o Reino Unido.

Talvez este tenha sido um 9 de Maio para a História. Com a Rússia a olhar para o passado e a Europa de olhos postos, firmemente, no futuro. 

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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"Se a Ucrânia cair, não cai sozinha".
Como historiador, sei pouco acerca da Ucrânia, mas também sei que quem fala em nome das lições da História, sempre com maiúscula, se serve desta para defender pontos de vista muito parciais.