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40 anos de Independência : Emigrantes no Luxemburgo lamentam corrupção em Angola

40 anos de Independência : Emigrantes no Luxemburgo lamentam corrupção em Angola

40 anos de Independência : Emigrantes no Luxemburgo lamentam corrupção em Angola

40 anos de Independência : Emigrantes no Luxemburgo lamentam corrupção em Angola


por Henrique DE BURGO/ 11.11.2015

Foto: AFP

Angola assinala esta quarta-feira 40 anos de independência. Os emigrantes angolanos ouvidos pelo CONTACTO lamentam a corrupção no país, e dizem-se “desiludidos” com a falta de cuidados básicos para a população.

Angola assinala esta quarta-feira 40 anos de independência. Os emigrantes angolanos ouvidos pelo CONTACTO lamentam a corrupção no país, e dizem-se “desiludidos” com a falta de cuidados básicos para a população.

Tony Gomes, hoje com 56 anos, fazia parte de uma milícia que vigiava a zona do Palácio do Governo, em Luanda, no dia em que Angola se tornou independente. Quarenta anos depois, diz que imaginava outro país.

“Hoje há paz. Angola está num bom caminho, mas eu imaginava outra coisa. Durante 40 anos ambicionávamos ter escolas, hospitais e outros serviços gratuitos. Nada disso aconteceu. Sinto-me um pouco desiludido”, disse ao CONTACTO o emigrante angolano a viver há 21 anos no Grão-Ducado, apontando a corrupção como um dos “males do país”.

Vera Moura ( à esquerda), Tony Gomes e Silvina Policarpo acompanham, mesmo à distância, o rumo do país do país onde nasceram: Angola.
Vera Moura ( à esquerda), Tony Gomes e Silvina Policarpo acompanham, mesmo à distância, o rumo do país do país onde nasceram: Angola.
Foto: HB

“O espírito de corrupção está patente e enquanto não se dissipar esse espírito, Angola não vai melhorar. Há muitos novos-ricos que apareceram do nada, ou melhor, que apareceram do roubo, enquanto os pobres continuam cada vez mais pobres. Critico quem dirige e sou crítico em relação aos aproveitadores, aos corruptos”, desabafa Tony Gomes, que é membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa o país desde a independência.

O emigrante, natural de Malange, critica ainda a distribuição desigual das riquezas do país. “Angola tem 36 espécies de minérios, mas não tem sabido aproveitar essas riquezas nem sabido redistribuir os recursos do petróleo que tem explorado até agora”, lamenta Tony Gomes, apontando outras “injustiças”. “Para se conseguir uma boa escola, tem que se ir para o ensino particular, e isso não é para o bolso de cada um”. E os melhores hospitais “são as clínicas privadas”, conclui o capitão de exército na reforma.

Vera Moura, hoje com 49 anos, era uma criança quando Angola se tornou independente, mas o aniversário dos 40 anos de liberdade deixa-a dividida. “Se por um lado é uma data a celebrar, porque são 40 anos de liberdade do poder colonial, não há muito a festejar”. Defende que era preciso “mudar o sistema todo” para “acabar com a corrupção” e diz que “o país é totalitário, as pessoas não têm liberdade de expressão”. “Quem tem o poder quer mantê-lo, é como se fosse um reinado, não é democrático”, acusou, criticando também as desigualdades no país.

Militantes do partido MPLA.
Foto: AFP

Silvina Policarpo já entrou na casa dos 50 anos. Nascida em Cuando-Cubango, cresceu em Silva Porto (actual Cuíto, capital da província de Bié), e lamenta o “desprezo pelo povo das aldeias”. “Há muita gente que deu a vida, que deu uma perna ou um braço pela bandeira. As pessoas das aldeias, que considero serem os verdadeiros angolanos, não deveriam ser esquecidas”, lamenta a emigrante residente no Luxemburgo desde 2007.

Mas nem tudo é negativo. Para Tony Gomes, “houve um desenvolvimento enorme em Angola”. “Olhando por exemplo para Luanda, a capital não tem nada a ver com antigamente. Hoje, quando lá vou, sou capaz de me perder em determinadas ruas na parte nova da cidade. Há muita construção”.

Silvina Policarpo também destaca as “melhorias nas infraestruturas, rede de transportes, campanhas de vacinação e os cuidados pré-natais para as grávidas”.

Quanto ao futuro do país, “já Agostinho Neto dizia que ’Angola é e será por vontade própria trincheira firme da revolução em África’. Essa frase define bem o que vai ser o futuro de Angola”, conclui.

Holden Roberto, da FNLA, Agostinho Neto, do MPLA, e Jonas Savimbi, da UNITA, os três líderes que lutaram pela independência do país e mais tarde pelo poder em Angola
Holden Roberto, da FNLA, Agostinho Neto, do MPLA, e Jonas Savimbi, da UNITA, os três líderes que lutaram pela independência do país e mais tarde pelo poder em Angola
AFP

Há 40 anos, Tony Gomes tinha apenas 16, mas já era suficientemente adulto para carregar uma metralhadora. Quando se deu o 25 de Abril e os militares portugueses se retiraram- de Angola, o MPLA, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) começaram a lutar pelo poder. A família de Tony fugiu às bombas em Malange e foi para Huambo apanhar o avião rumo a Portugal. Mas Tony quis ficar.

“Naquela tarde em que a maior parte da minha família entrou no avião para Portugal, eu simplesmente desapareci do local onde estávamos concentrados. Disse para mim: ’Eu não vou para Portugal. Vou lutar por Angola e vamos ser independentes’”.

A mãe e o irmão mais velho de Tony também ficaram. No dia seguinte conseguiram uma guia de marcha e voaram noutro avião para Luanda. “Em Luanda ficámos instalados num centro de refugiados e começou-se a organizar a resistência popular. Eu estava revoltado porque perdi tudo em Malange. Perdi familiares, perdi a casa, perdi os meus estudos de Agronomia e cheguei a Luanda sem nada”.

Bandeira da UNITA.
Foto: AFP

Tony recebe farda, arma e treino dos soldados que vieram das matas. Fica encarregado pela guarda da zona do Palácio do Governo, meses antes do 11 de Novembro de 1975.

“Os dias que antecederam o 11 de Novembro foram complicados. Enquanto uns preparavam os festejos, outros morriam à entrada de Luanda, onde havia combates contra a FNLA. Eram dias também de expectativa. As nossas referências eram Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Che Guevara e vinha-nos à cabeça que tínhamos de ser heróis como eles”, explica o também presidente da Associação Amigos e Naturais de Angola, no Luxemburgo.

“No dia 11 formámos um grupo ali perto do Palácio para ouvir pela rádio o Agostinho Neto proclamar a independência. Foi um momento de muita emoção e havia colegas meus a chorar de alegria. Quando anunciaram o hastear da bandeira toda a gente ficou a gritar ’Angola é independente, somos independentes’. Houve abraços entre nós e tiros para o ar. Mas não podíamos gastar muitas munições, porque a meia dúzia de quilómetros de Luanda havia rebentamentos e tínhamos de estar preparados. Foi um momento de euforia”, recorda. Hoje, lamenta a forma como o processo se desenrolou.

“Valeu a pena a independência, mas foi muito mal dada. Não deveria ser assim, mas preparada de outra maneira, porque morreu muita gente”.

Depois de ter sido integrado na força aérea angolana, em 1982, Tony participou ainda na guerra civil, que só terminou em 2002, com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi. Esteve também envolvido na maior batalha em Angola desde a Segunda Guerra Mundial – Cuito Cuanavale – que opôs o MPLA e as forças cubanas contra UNITA e as forças da África do Sul.

Holden Roberto, ao centro, com os seus soldados da FNLA
Holden Roberto, ao centro, com os seus soldados da FNLA
AFP

A viver há 14 anos no Grão-Ducado, Vera Moura deixou Angola em 1981 para ir viver com a mãe para Portugal, depois de a guerra entre os três partidos independentistas ter separado a família.

“O meu pai era da FNLA, e quando rebentaram os confrontos em Nova Lisboa [actual Huambo], andámos perdidos uns dos outros. Como o meu pai era político, fomos todos presos, e como a nossa casa foi destruída, a minha mãe pensou que estávamos todos mortos”, recordou Vera Moura. Estiveram oito anos sem se reencontrarem, porque a mãe “trabalhava para o Estado português, e aproveitou para ir para Portugal” após a independência, conta a emigrante, que fundou a associação angolana “Delvitia Mirabilis”, uma planta que só cresce no deserto de Moçâmedes, em Angola.

Vera Moura diz que não vê “futuro em Angola” e defende que era preciso “mudar o sistema todo” para “acabar com a corrupção”, sustentando que essa mudança deveria passar pelo regresso da diáspora. “Era preciso que os quadros que estão fora, e que conhecem as regras de uma sociedade normal, voltassem para ajudar o país a levantar-se”, diz, garantindo que, “se houvesse condições”, voltaria para Angola “sem pensar duas vezes”.

Quando começou a guerra entre o MPLA, a FNLA e a UNITA pelo poder, Silvina Policarpo foi obrigada a fugir com a mãe. “Diziam-nos: ’Vêm aí os barbudos (os cubanos) que comem gente e destroem tudo o que encontram pela frente. Andámos meses em fuga por vários lugares, até que a minha mãe parou e disse: ’Estou a fugir de quem? Vamos para casa porque as aulas vão começar e eu tenho de trabalhar’. Era enfermeira-parteira e uma mulher corajosa. Vive hoje em Portugal”, conta Silvina.

“Chegámos a casa em Setembro e não encontrámos os barbudos, mas sim militares, médicos e professores cubanos. Fui para a escola e recomeçámos a vida”, conclui.