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200 toneladas de lixo despejadas ilegalmente "à porta" do Luxemburgo

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200 toneladas de lixo despejadas ilegalmente "à porta" do Luxemburgo

200 toneladas de lixo despejadas ilegalmente "à porta" do Luxemburgo

200 toneladas de lixo despejadas ilegalmente "à porta" do Luxemburgo


13.01.2020

Rédange, ligado à indústriado cimento, serviu de local de despejo de várias toneladas de lixo.Foto: Pierre Matgé

Em Rédange, quase 200 toneladas de resíduos foram depositados ilegalmente. Uma empresa de transporte luxemburguesa está envolvida.

No momento em que a comuna de Differdange adquiriu 120 hectares no lado francês da comuna de Salnes para evitar a abertura de um aterro "oficial", um escândalo ambiental está a acontecer a poucos quilómetros de distância: Rédange, entre Belval e Audun-le-Tiche. 

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Montanha de lixo
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É impossível precisar o que contém esta montanha de lixo. A priori, parecem ser resíduos domésticos e de construção.
Foto: Pierre Matgé

Daniel Cimarelli, presidente da comuna de Rédange, e o vice Christian Cendecki ainda acham difícil de acreditar. No final de outubro/início de novembro, vários camiões descarregaram a céu aberto, em plena natureza, toneladas de lixo, a centenas de metros da vila localizada junto à fronteira com o Luxemburgo. A enorme montanha de lixo está apenas escondida pela vegetação, ao lado da nova estrada de Audun-le-Tiche.

O sítio escolhido é uma antiga fábrica de cimento, testemunha do passado industrial. Até a barreira instalada no local não impediu o despejo.

A montanha de lixo tem cerca de dois metros de altura e estende-se por várias dezenas de metros. Materiais isolantes, sacos plásticos, caixas de leite, antigos peluches: a pilha contém um pouco de tudo. "São cerca de 200 toneladas de resíduos", diz Christian Cendecki. 

Cendecki lamenta a situação, agora que a área estava a ser utilizada para atividades de lazer. "A pérola da aldeia", lembra tristemente. A água da chuva que se infiltra no lixo corre agora o risco de contaminar os cursos de água circundantes bem como o subsolo, teme o responsável. 

O local do despejo selvagem (asinalado a vermelho) está situado perto da fronteira com o Grão-Ducado (assinalado a amarelo).
O local do despejo selvagem (asinalado a vermelho) está situado perto da fronteira com o Grão-Ducado (assinalado a amarelo).
Fonte: Geoportail

Esta contaminação não afetaria apenas os cursos de água mais próximos. Na verdade, a água destes pontos flui então Beler, um riacho que alimenta o rio Alzette em Audun-le-Tiche. "Estamos todos, portanto, preocupados", afirma Christian Cendecki, com um olho no lado luxemburguês. A fronteira com Esch ou Sanem fica apenas a um passo da lixeira ilegal. Além disso, há trilhos florestais que abrangem França e o Grão-Ducado.

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Origem belga?
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Lá atrás, ainda restam vestígios da antiga fábrica de cimento em Rédange.
Foto: Pierre Matgé

Até à data, não foi identificado qualquer responsável pelo sucedido, estando em curso uma investigação das autoridades judiciais francesas. O município e um particular, proprietário de parte do local, apresentaram queixa. Os investigadores têm, no entanto, um elemento importante à sua disposição: os habitantes conseguiram fotografar um dos veículos pesados de mercadorias que participou alegadamente no despejo.

Não é um caso isolado

Infelizmente, o aterro ilegal em Rédange não é o único caso na zona fronteiriça vizinha. Segundo a France3 e o jornal Le Républicain Lorrain, vários depósitos semelhantes foram avistados nos últimos meses. Um aconteceu em Haucourt-Moulaine, perto de Longwy, onde cerca de 550 toneladas de lixo foram despejadas ilegalmente.

Recentemente, no Vale Fensch (na região francesa Grand Est) foram também despejados móveis e outros resíduos em plena natureza. 

Para o presidente de Rédange estes casos não são coincidência. A esta escala, os depósitos são pensados, organizados, premeditados. "Mesmo os locais não conhecem este lugar onde o lixo foi despejado", refere Christian Cendecki. O mesmo não parece ser verdade para os motoristas belgas.

Não só em Rédange, mas também nos departamentos franceses de Moselle e Meurthe-et-Moselle, têm sido observados despejos ilegais.
Não só em Rédange, mas também nos departamentos franceses de Moselle e Meurthe-et-Moselle, têm sido observados despejos ilegais.
Foto: Pierre Matgé

Com um orçamento de um milhão de euros, a autarquia de Rédange não tem meios para pagar a limpeza da montanha de lixo. O deputado Daniel Cimarelli assume que a fatura estaria algures entre 100 mil e 200 mil euros. "E mesmo que tivéssemos dinheiro, não cabe ao público em geral remover o lixo da propriedade privada", acrescenta. De salientar, no entanto, que apenas uma pequena parte se encontra em terras pertencentes ao município. Atualmente, um outro caso semelhante foi notícia, desta vez no departamento de Oise. Mediante um despejo ilegal cuja origem foi identificada, o presidente de uma comuna de Oise fez um "retorno ao remetente" filmado e transmitido nas redes sociais.

Em Rédange, aguardam-se agora as conclusões das investigações judiciais. Mas a aldeia, com pouco menos de mil habitantes (um terço dos quais vive na fronteira com o Grão-Ducado), teme que a montanha de lixo permaneça intacta durante vários meses.

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Cliente da Jost Group na mira
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É impossível de prever quando é que a montanha de lixo irá desaparecer da paisagem.
Foto: Pierre Matgé

Contactada pelo Luxemburger Wort a empresa de transportes Jost Group considera-se uma vítima. Numa mensagem enviada ao jornal a empresa afirma que em meados de outubro assinou um contrato com uma empresa belga de reciclagem chamada Mondial Services. Esta empresa pretendia transportar lixo proveniente da construção, para o qual o Grupo Jost possui licenças de transporte.

Assim que o contrato foi assinado, a rota de transporte mudou continuamente. Primeiramente, a carga teve de ser levada do norte de França, perto de Lille, para Brecht (não muito longe de Antuérpia). Depois, aconteceu o inverso. Por fim, o destino da chegada foi alterado para Thionville, depois Saulnes (perto de Lasauvage), e finalmente Rédange.

Pessoas de contacto no local

À chegada ao local, os motoristas do Grupo Jost tiveram de contactar alguém para descarregar. Segundo a empresa, este tipo de contacto não é incomum para destinos fora das áreas urbanas. No entanto, os condutores envolvidos na operação terão afirmado que o procedimento de descarga teve ser realizado de forma excecionalmente rápida. Um motorista confirmou também que os materiais transportados não eram apenas provenientes da construção.

Cooperação com a polícia

Os investigadores franceses terão chegado a uma das pessoas encarregadas de receber os transportadores à entrada do local em Rédange. O grupo Jost não terá sido a única empresa a ser enganada pela belga Mondial Services. A empresa luxemburguesa já pediu, entretanto, desculpa aos habitantes afetados e revelou ter aberto um processo judicial contra a Mondial Services.

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Le Grand-Duché épargné
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Aucune décharge du même type n'est à déplorer côté Luxembourg.
Photo: Pierre Matgé

O diretor da Administração da Natureza do Luxemburgo assegurou ao jornal que  não há registo de casos semelhantes a este no Grão-Ducado. Apesar de não serem raras no país as tentativas de esconder resíduos em antigas áreas industriais. 

(Reportagem publicada originalmente na edição francesa do Luxemburger Wort.)


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