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"Viúvas do daesh" querem voltar a Portugal

"Viúvas do daesh" querem voltar a Portugal

Foto: RTP (frame de reportagem).
Portugal 4 min. 13.04.2019

"Viúvas do daesh" querem voltar a Portugal

Dos cerca de 800 combatentes e apoiantes do Estado Islâmico capturados e retidos em campos de detenção controlados pelos norte-americanos e pelos curdos das Forças Democráticas da Síria, 24 são portugueses. Querem regressar a Portugal. Em curso, o processo de repatriamento está a ser acompanhado pelos Serviços Secretos nacionais. O Ministro dos Negócios Estrangeiros fala numa situação “complexa”.

 São a herança do anunciado fim do Daesh. Capturados durante a libertação do último reduto jihadista na Síria, estão detidos desde março. Há pelo menos 20 crianças lusodescendentes espalhadas pelos três campos de reclusão controlados pela coligação anti-Daesh. Pelo menos duas, das três mulheres identificadas, pediram a intervenção do Estado português. As viúvas da Jihad, Vânia Chérif, Catarina Almeida e Ângela Barreto querem regressar à Europa. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, já veio reconhecer que Portugal está a trabalhar “no sentido de compatibilizar a defesa da segurança nacional e a proteção dos cidadãos em situação vulnerável”.

Debaixo do véu negro que lhe cobre o rosto desde 2014, a luso holandesa Ângela Barreto falou à RTP para pedir ajuda, um dia depois da morte de um dos dois filhos. A menina de três anos foi atingida num bombardeamento e sucumbiu dez dias depois. “Um estilhaço da bomba ficou-lhe na cabeça. Não falava, não andava, os olhos andavam à volta. Só então me disseram que tinha mesmo de ir ao hospital ou ela poderia morrer. E quando cheguei ao hospital disseram que não a podiam operar porque já deveria ter ido antes”, descreve a lusodescendente que continua a acreditar “num Estado com as regras do Islão” e que vê em Portugal a única hipótese de contornar o mandado de captura emitido pelas autoridades holandesas que a acusam de aliciar três menores a viajar para a Síria através das redes sociais.

Ângela Barreto com o marido combatente do daesh Fábio Poças morto em combate.
Ângela Barreto com o marido combatente do daesh Fábio Poças morto em combate.
DR

Filha de portugueses, fugiu da Holanda com 19 anos para casar com o jihadista português Fábio Poças, o último português a ser dado como morto pelas autoridades de contraterrorismo nacionais, que numa entrevista publicada pela Sábado, em 2014, prometia voltar à Europa com a bandeira do Daesh “numa mão e a arma na outra” para “devolver a honra” ao solo Al Andaluz “que está a ser destruído por Cavaco Silva”. Saiu da zona de Sintra para Leyton, em Londres, onde se radicalizou com outros cinco portugueses. No último balanço divulgado pelas autoridades dos seis, só resta um. Chama-se Nero Saraiva e está acusado de participar no rapto do jornalista britânico John Cantlie. Foi o primeiro a chegar à Síria, em 2012, e terá ficado gravemente ferido nos combates em que o grupo terrorista perdeu a cidade de Baghouz. Tal como Fábio Poças, terão caído em combate Sandro Monteiro, Sadjo Ture, e os irmãos Celso e Edgar Costa.

Muito Complexo”

Avança com secretismo, mas foi confirmado pelo governo. O processo de repatriação das três mulheres e dos vinte menores detidos na Síria está nas mãos dos serviços de inteligência e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Na semana passada, a secretária geral do SIS, Graça Mira Gomes, assumiu num seminário que “estas crianças devem ser objeto de um apoio especial em termos de reintegração ou de enquadramento na sociedade”.

A questão está em cima da mesa desde que a Administração Trump anunciou a retirada das tropas norte-americanas da Síria. Em fevereiro, o presidente dos EUA estava no Twitter a exigir soluções à Europa. “Os EUA estão a pedir ao Reino Unido, à França, à Alemanha e a outros aliados europeus que recebam de volta os mais de 800 combatentes do Estado islâmico que capturámos na Síria e que os levem a julgamento”, anunciou Donald Trump. “A alternativa não é boa, uma vez que seremos forçados a libertá-los”.

Logo na altura, Augusto Santos Silva antecipou um assunto “muito complexo”. O ministro dos Negócios Estrangeiros é peremtório e diz: “Não queremos em Portugal pessoas que possam constituir uma ameaça ao modo de vida e aos valores dos portugueses”. Não descarta no entanto que “como cidadãs portuguesas, essas pessoas têm direito à proteção consular”, alertando para o facto dessa “proteção ter de ser exercida tendo em conta todas as variáveis que estão em jogo”, sendo “a principal a segurança nacional e a segunda as obrigações de Portugal como membro da coligação internacional anti-Daesh e como membro da UE e da NATO”.

Sem acrescentar pormenores confirmou que o processo está em andamento. Diz-se comprometido a arranjar “uma solução que nunca será a melhor possível” porque acredita que a “melhor forma possível era estas pessoas não se terem deixado embarcar numa aventura, se foi uma aventura, ou estas pessoas não terem aceitado fazer parte, direta ou indiretamente, de uma das organizações mais sinistras que mais ameaça a liberdade, a democracia e a segurança”.

O quebra cabeças está longe de ser um assunto nacional. Das cerca de 40 mil pessoas que viajaram para o Iraque e para a Síria para ingressar nas fileiras dos radicais islâmicos entre abril de 2013 e junho de 2018, seis mil saíram da Europa Ocidental, segundo os londrinos do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização do King’s College.

 O proclamado fim do Daesh e o encarceramento de centenas de cidadãos europeus tem acentuado o debate. Se por um lado o porta-voz do governo alemão assume que “em principio todos os cidadãos alemães que lutaram pelo autoproclamado Estado Islâmico têm direito a regressar” à Alemanha, no Reino Unido, o Ministro do Interior, Sajid Javid, assumiu ao Times que não hesitará “em prevenir o regresso de quem apoiou organizações terroristas no estrangeiro”.

Bruno Amaral de Carvalho

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