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Vitória tranquila e tranquilizadora
Opinião Portugal 4 min. 01.02.2021

Vitória tranquila e tranquilizadora

Vitória tranquila e tranquilizadora

Foto: AFP
Opinião Portugal 4 min. 01.02.2021

Vitória tranquila e tranquilizadora

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Marcelo Rebelo de Sousa venceu, com números esmagadores, as eleições para a Presidência da República. O segundo vencedor da noite foi o candidato da extrema-direita que provocou um autêntico tsunami.

Uma análise dos resultados permite concluir que Marcelo Rebelo de Sousa segurou os quase dois milhões e 400 mil votos que obteve em 2016 e ainda lhe juntou mais 140 mil, de conquista recente. Foi uma vitória que não deixou margem para dúvidas, apesar de ele nem sequer se ter dado ao trabalho de fazer campanha eleitoral. Não deu beijos nem abraços e, muitos menos, esferográficas, t-shirts e sacos de plástico que, nestas alturas, poluem a paisagem. Nem um cartaz, tão pouco.

O outro vencedor foi André Ventura, com quase 12 por cento dos votos que, no entanto, não foram suficientes para ultrapassar Ana Gomes. Quase 500 mil eleitores deixaram-se seduzir por um discurso de ódio, racismo e xenofobia, sem uma ideia política estruturada. Ventura até prometeu cortar mãos, àqueles que se deixam levar pela tentação do alheio.

Não é muito importante saber quem é André Ventura. Mas é urgente saber quem votou nele. Acho que naqueles 500 mil eleitores se contam alguns que se sentem atraídos pelo ideário de extrema-direita, muitos deles convencidos que um regime desse tipo serve melhor os seus interesses egoístas e até lhes facilita o acesso à prosperidade com que sempre sonharam.

Não é muito importante saber quem é André Ventura. Mas é urgente saber quem votou nele.

A estes, juntaram-se os votos da revolta, daqueles que esgotaram a paciência para suportar um regime que os excluiu, social e economicamente. Refiro-me ao neoliberalismo que valoriza mais o capital que o trabalho. E ainda divide o capital em dois segmentos, o capital financeiro e especulativo, contra o capital produtivo que gera riqueza e postos de trabalho. E claro, a vantagem vai inteiramente para o primeiro, com remuneração mais elevada, provocando a exclusão de quem trabalha.

Mas a maioria dos excluídos não tem noção desta realidade, por iliteracia política, social e económica. Por isso, adere com facilidade a um discurso a que chamamos de populista, assente em meia dúzia de frases de uma simplicidade confrangedora. E este tipo de eleitor, ao votar em figuras como a de André Ventura, julga que está a punir um sistema que constantemente o penitencia. A ignorância não deixa perceber que o poder populista favorece os interesses neoliberais, contra os direitos de quem produz riqueza.


Luxemburgo. Marcelo reeleito, Ventura a 51 votos de Ana Gomes
Abstenção foi de 96,28%.

Por tudo isto, acho que só uma pequena parcela dos 500 mil votantes de André Ventura será de extrema-direita. Os outros, talvez a maioria, são revoltados que reclamam, com inteira justiça, o direito de se fazerem ouvir.

Isto representa uma ameaça séria para os restantes partidos. Mais pronunciada para o PSD e o CDS, porque será à custa deste eleitorado de direita que o Chega pode crescer. Apesar de, nestas eleições, Ventura ter conseguido também conquistar alguns eleitores que, tradicionalmente, votavam nos partidos de esquerda.

Os efeitos já se estão a sentir. Rui Rio teve a sua mais negra semana, desde que chegou à liderança do PSD. Fez uma análise atabalhoada dos resultados eleitorais e usou tanto a crítica como o elogio de André Ventura.

Prometeu um acordo com o CDS, para as eleições autárquicas do fim do ano e André Ventura foi rápido a responder. Se esse acordo se concretizar, o Chega rompe o acordo que existe, entre os dois partidos, para governar os Açores. No CDS, tudo indica que se está a caminho de um congresso extraordinário, para afastar a actual direcção que tentou iludir a sua quota parte na derrota das presidenciais.

À esquerda, o ambiente também é pesadamente lúgubre. A derrota de Marisa Matias não tem explicação e pode prenunciar qualquer coisa de mau para o Bloco de Esquerda. A direcção do partido tem de fazer uma reflexão profunda sobre a sua actuação, com destaque para as suas relações com o Governo. E isto é tão mais importante, num ano de eleições autárquicas, onde o Bloco de Esquerda costuma ter grandes dificuldades.

O PCP não fez mais que continuar a sua queda eleitoral constante. E não parece que os comunistas estejam na disposição de alterar qualquer coisa, para travar esta queda. Na Europa, desapareceram os partidos comunistas e, em Portugal, as resistências também se estão a acabar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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