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"Vidas suspensas". Quando os jovens estão amarrados às dívidas dos pais

"Vidas suspensas". Quando os jovens estão amarrados às dívidas dos pais

"Vidas suspensas". Quando os jovens estão amarrados às dívidas dos pais

"Vidas suspensas". Quando os jovens estão amarrados às dívidas dos pais


por Ana B. Carvalho/ 29.04.2021

Foto: DR

Em Portugal, apelidaram-nos de Geração Perdida à Geração à Rasca, Geração Austeridade e Geração Precária. Nascidos algures entre 1980 e 1995, são conhecidos como "millennials" em todo mundo. Os mais velhos estão a chegar aos 40 e embora tenham fama de não saberem lidar com dinheiro e de viverem com ajuda dos pais, nesta reportagem viajámos pelas histórias de jovens que não só não dependeram dos pais, como tiveram de os ajudar. A "prisão psicológica" de quem paga dívidas que não são suas deixa marcas. Nos relatos que se seguem os jovens são apresentados com nomes fictícios.

“Sim, tenho 29 anos, sou penhorada e é uma frustração”, desabafa Rita. “O meu pai fez-me assinar uns documentos, aos 18 anos, meteu-me como sócia gerente de uma empresa que depois faliu. Aos 21 anos fiquei a dever dois milhões de euros às finanças e com um processo crime nas costas”, conta a partir do Whatsapp.

Hoje, com 29 anos, fala do ano de 2013 como o “da desgraça”, já que foi o mesmo em que assistiu ao divórcio dos pais. Apesar de tudo, decidiu acompanhar o pai “para não o deixar sozinho”, indo morar com ele. Por sua vez, 2021 é um ano de celebração. Conseguiu finalmente ir morar sozinha, um passo grande numa realidade em que quase dois terços dos jovens adultos portugueses ainda não haviam conseguido dar, de acordo com o estudo “Habitação Própria em Portugal numa Perspetiva Intergeracional” promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e publicado em julho de 2020. Segundo a análise, 64% dos jovens entre os 18 e os 34 anos vivem em casa dos pais, Portugal é o terceiro país da União Europeia pior neste indicador, apenas atrás da Grécia (68%) e Itália (66%”).

Rita morava com o pai, mas com papeis invertidos. “Fui sem dúvida a mãe dele e foi um fardo que ninguém merece. Eu devia ter vivido a minha vida e vejo a minha responsabilidade nisso. Continuo com dívidas, mas a maior era mesmo a emocional. Nas palavras da minha terapeuta: custou mais a parte moral e emocional do que a financeira”.  

O acompanhamento profissional de uma psicoterapeuta permitiu adquirir perspetiva. “A terapia ajudou-me a entender muita coisas, algumas de tempos muito anteriores a tudo ruir, como  também me ajudou a criar estratégias para o futuro”. No mundo financeiro, porém, o alívio não se faz notar. “Por muito que trabalhe, mais responsabilidades e mais trabalho só servem para me tirarem mais dinheiro”.

Macau
Macau
Lusa

“Eu não herdei diretamente uma dívida da minha mãe. Mas se calhar a minha história encaixa”, comenta Jorge, de 33 anos, também ao telefone. Crescido no Oriente, viu-se obrigado a voltar para Portugal, com a mãe e os irmãos, no ano 2000. “Em Macau a minha mãe tinha uma vida relativamente estável, independentemente de não ter ajuda do meu pai. É uma grande lutadora”, diz orgulhoso. “Assustou-se”, explica. “Não fala chinês, viu que muita gente estava a ser despedida para serem substituídos por chineses, acho que lhe fizeram um bocado a cabeça”. A decisão foi voltar, mas a mãe terá feito algumas apostas que “vendo bem agora, não foram as melhores”. 

A compra de uma casa que não estava a conseguir manter, enquanto tentava criar raízes no seu próprio negócio, “acabou por investir o dinheiro um bocado às cegas”, explica. “Teve muitos clientes que quando chegava a altura de pagarem, não pagavam. Chegou a ter meses em que era suposto receber dois mil euros e nós a comer feijão e arroz, porque não havia dinheiro. Na escola, se levasse um euro ou dois no bolso para tentar comer qualquer coisa, era uma sorte do caraças”.

Lembra-se de sentir frustração, quando o termo de comparação das famílias que conhecia de Macau, eram de “vidas com outra estabilidade”. Ao chegar a Portugal conheceu realidades de pobreza, com as quais pôde “aprender muito”. Hoje é cozinheiro profissional mas, na altura, as circunstâncias levaram-no, “muito cedo a vender bolota” (haxixe), o que lhe permitia ganhar dinheiro “para o lanche”.

Segundo o estudo publicado em 2020 pelo Banco de Portugal entitulado “Inquérito à Situação Financeira das Famílias: resultados de 2017 e comparação com as edições anteriores”,  em 2017, cerca de 46% das famílias residentes em Portugal tinham dívidas. No total das dívidas, as hipotecas da residência principal (empréstimos que têm a residência principal como garantia) tinham um peso superior a 80%. 

O segundo tipo de dívidas mais frequente são os empréstimos não garantidos por imóveis, os quais em 2017 afetavam cerca de 18% das famílias e tinham um valor mediano de cerca de 4 mil euros. Cerca de 9% das famílias tinham dívidas associadas a cartões de crédito, linhas de crédito ou descobertos bancários, com um valor mediano de 500 euros”, apontam os investigadores. 

A mãe de Jorge acabou por sair da casa que havia comprado e "nunca baixou os braços e sempre nos deu a entender que podíamos tudo”. Aos 17 anos, o jovem estava por sua conta. Acabou o 12º ano e começou a trabalhar em diversas áreas. A mãe ainda deu “uns empurrõzinhos”, mas nem assim iria conseguir pagar os cursos que incentivava Jorge a inscrever-se. Lembra-se de se sentir irritado. “A frustração  não era com a minha mãe por não conseguir pagar. Era por me dar a entender que conseguia e depois chegar à hora e não dar. Eu até tinha medo do final do mês, altura de pagar as coisas. E eu é que tinha de ir à direção negociar os pagamentos. Passei muito tempo neste filme”, suspira.


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(Rui Oliveira/Contacto)
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Jorge foi às aulas, passou nos exames todos, mas não teve como terminar o curso. “Não podiam dar-me o diploma porque as propinas não estavam todas pagas. Mas safei-me, porque ainda a estudar mandei-me logo para o trabalho”, conta a rir-se, com leveza. Entretanto conseguiu sustentar-se, tirou a carta, foi pai sem planear e decidiu investir em reparar um carro velho que a mãe tinha parado. “Precisava de um grande arranjo. Agarrei-me ao carro dela, gastei uma boa batelada nele e mesmo antes da pandemia, sou mandado parar pela polícia. O carro está penhorado, não posso andar com ele. Tem de ficar parado. Todo o dinheiro que eu investi no carro foi para a sarjeta e o Estado deixa-mo ter ali à porta, mas não me deixa andar com ele, uma barbaridade”, exclama.  “Não deixam andar com o carro mas também não o levam, não abatem na dívida.”. Embora com as suas poupanças tenha conseguido encontrar uma solução, lamenta a situação. “Não posso ter nada em nome dela, porque ficam com as coisas, ela tem bastantes dívidas para pagar”. 

Imagem ilustrativa
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Unsplash

Mariana, de 30 anos, também viu a sua vida às avessas por causa de um carro. Decidiu começar a trabalhar com 17 anos, motivada pela instabilidade financeira dos pais. Queria tornar-se independente. “Foi daí que veio o meu primeiro problema. Os meus pais começaram a contar com o meu salário para pagar as contas de casa. Diziam: depois quando receber dou-te. Na primeira, segunda ou terceira vez fiz de bom grado. Afinal, são os meus pais”, conta. Mas tornou-se recorrente, até passar a ser “quase sempre”. Crescer neste ambiente, iria torna-la uma pessoa de planeamento e ponderação.“Queria ter paz um dia e sabia que só iria conseguir atingir isso sozinha e pelo meu próprio trabalho”, asserta. O part-time passou a ter de ser mais longo, para poder ganhar mais dinheiro, conseguir pagar as despesas e “ajudar os pais”. 


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Ao mesmo tempo, estudava. Para esse plano se concretizar: precisava de transporte, já que não os tinha na sua área de residência, nos arredores do Porto.  Aos 21 anos e em prestações investiu num carro. “E aí começou o meu maior problema. Não tardou, é claro, até este meu bem se tornar também um bem adquirido para os meus pais. De repente, a única solução para a vida da mãe de Mariana era o usar o carro da filha. “Carro que paguei para ser independente, mas que tive obrigatoriamente de emprestar”. Consequência? Voltou a estar dependente de boleias.  Mariana descreve uma história de revolta.

“Tudo o que eu lutava para ter, sozinha, era um bem adquirido dos meus pais. Eles são os pais, certo? Têm de ajudar-me. De proteger-me. Não é assim que funciona a lei da vida?”, indaga. Ambos tinham trabalho, mas falta de capacidade de gestão. Entretanto, os anos passaram, as dificuldades mantiveram-se e o carro foi utilizado todos os dias. “Tudo piorou. A minha mãe conseguiu arranjar-me uma dívida no valor de 10,000€ ao Estado. Surreal. Ao longo dos anos esta não foi a única dívida que paguei dela, o único problema é que esta foi feita no meu nome. E fiquei com o nome sujo, durante anos”.

A dívida surgiu graças ao não pagamento de scuts e portagens. Mariana ficou com a vida suspensa e, apesar da mãe querer dar-lhe dinheiro “de vez em quando”, o pai nunca viu como prioridade dar algum suporte. “Entendo que não conseguissem dar um valor grande, mas pá, que fosse 30€/50€ já me ajudava. E pelo menos dava para eu ver que eles, apesar de terem feito asneira estavam a tentar ajudar”.

Em fevereiro de 2021, Mariana livrou-se das dívidas que não eram suas, mas os últimos nove anos da sua vida foram de sacrifício. Sobretudo emocional. Conseguiu cumprir o plano de prestações elaborado com as Finanças, que é pegar ou largar. “Fui obrigada a aceitar. Houve alturas em que pagava quase 600€ por mês às finanças. A minha raiva e revolta para com os meus pais crescia e crescia”. 

Hoje, aos 30 anos, pode dizer que conseguiu finalmente estabilidade. “Quando digo isto ainda não parece real”. Pelo caminho, conseguiu pagar a licenciatura, o mestrado e chegar ao nível que queria. O acompanhamento psicológico, que começou em 2020, foi essencial. “Quando contei a minha história à psicoterapeuta chegou a dizer-me que se fosse hoje, podia ter sido retirada aos meus pais. O que te fizeram é negligência. Só chorei”. Desde então percebi de onde vinha a minha ansiedade, a minha carência e falta de amor próprio”.

 “Não quero que a minha história seja vista como algo negativo, é uma história de superação. É só a minha história. E sem ela não me teria tornado na mulher que sou hoje e que tanto me orgulho”.

 João, de 29 anos, residente na Margem Sul, descreve a sua história como uma “peripécia menos agradável”. Durante um dos períodos em que o pai esteve desempregado, contraiu uma dívida à NOS, algures em 2015/2016, referente a um contrato de telemóvel e pacote de chamadas/dados que era de uma das empresas onde tinha trabalhado, mas que estava em nome do próprio.

“O pagamento terá sido mal processado e a dívida foi indevidamente cobrada porque o mesmo contrato já tinha sido cancelado”, explica. “Como normalmente neste país primeiro pagas e depois reclamas, eles retiraram automaticamente valores de contas em que o meu pai tinha o nome: da dele, da minha, e de outra conta da minha mãe”. João não se recorda da quantia exata, mas foram “mil e qualquer coisa”. Lembra-se, porém que este episódio, juntamente com outros anteriores, criaram uma quebra de confiança com o pai.

Ponte 25 de Abril
Ponte 25 de Abril
Unsplash

“Sempre cresci com estas oscilações de ordenado do meu pai, ora tinha um ordenado acima da média ora tinha períodos mais escassos - e nunca foi propriamente uma pessoa de poupar. A minha mãe por ser professora (sempre com um ordenado garantido) conseguiu equilibrar as coisas e ajudar em momentos críticos. Acho que em traços da minha personalidade e na minha forma de gerir o dinheiro, costumo olhar muito para a minha mãe como um exemplo de alguém que gere as finanças de uma forma equilibrada e não dá um passo maior do que a perna, nunca vivendo acima das possibilidades. Mas essa dicotomia e estilos diferentes dos meus pais de gerir o orçamento é algo que me impactou durante o meu crescimento”, comenta. 

“De uma forma geral, nós os três somos unidos, a minha mãe já ajudou, eu já ajudei, o meu pai já ajudou, muito sinceramente acho que todo este processo de altos e baixos também nos fez crescer enquanto família: sinto que conseguimos curar muitos traumas e resolver muita coisa”. Diz que não é “o filho de pedir dinheiro, sempre quis ter o prazer de pagar as coisas por mim, sentir que estou a conquistar as coisas por mim, eles não gostam, dizem que sou teimoso e orgulhoso. Pelo meio vou tentando perceber que eles também ficam contentes por me ajudar com uma coisa ou outra, o meu pai costuma dizer: prefiro dar em vida do que depois de morto, se eu puder dar ou tu puderes ajudar, faz-me feliz ver-te feliz, e eu sei que ao contrário também vais ajudar-me se eu precisar”.

Olhando para trás, relembra um momento em que começou a estagiar e a trabalhar como jornalista no Benfica. “Nos quatro anos anteriores, o meu pai tinha pago o nosso lugar cativo no Estádio da Luz, nessa altura em que estive lá a trabalhar, o meu pai ficou desempregado e deixámos de pagar as cotas e comprar o bilhete de época. Eu acabava por ver a maioria dos jogos, porque estava a trabalhar no estádio, embora não fosse a mesma coisa, porque uma coisa é estar a curtir o jogo na bancada, outra é ver o jogo em contexto de trabalho, em que estou ali a tomar notas de tudo, ou para um artigo ou para analisar a prestação individual de cada jogador”, escreve por mensagem.  

LUSA

Além de não conseguir ver os jogos com o pai, também “não conseguia pagar nada”, já que “cheguei a trabalhar em estágio sem receber nada, e depois comecei a receber em despesas e recibos”. João conta que quando mudou de emprego e começou a ganhar “algo que se podia já chamar de salário”, regularizou as cotas e comprou um lugar para os dois. “Foi também a minha forma de lhe retribuir os anos anteriores, desde essa altura temos a tradição de alternar anualmente o pagamento, um ano eu, outro ano ele”, lembra com carinho. 

Prisão Psicológica

Verónica Alegre, psicóloga e psicoterapeuta no Porto, considera importante falar de casos como estes. Pode ser uma possibilidade de “abrir caminho” para um assunto que ainda é “bastante escondido, tanto a nível emocional como a nível social". As pessoas que lhe chegam às consultas  “apresentam muitas vezes este tipo de obrigações, mas na maioria são obrigações morais e não tanto a nível financeiro. Contudo, tenho alguns casos que lhes é imposta estas obrigações de uma forma muito violenta. Há pagamento de dívidas, muitas vezes ao Estado, que pode durar anos”, comenta.

Quanto ao impacto que este tipo de situações acarreta no que toca à psicologia, “aqui já nos centramos ao nível daquilo que não é visto ao nível do olhar social, mas que é sentido no mundo interno de quem vive no domínio desta prisão psicológica”. Porquê prisão? “Estes indivíduos estão sob o comando da obrigação de corresponder às suas próprias expectativas, às suas próprias exigências, conduzindo a terem um ritmo de vida que leva, muitas vezes, à exaustão emocional devido à gestão que a situação acarreta”.

Presenciou “vidas suspensas”, isto é, “projetos pessoais a terem de ser adiados, relações amorosas que são afectadas pela insegurança e falta de confiança no próximo. O peso de uma divida familiar é extremamente impactante na forma como se pode desenvolver um trauma, sendo este trauma contido num corpo que vive para esta obrigação de não puder falhar por medo de serem punidos pelas autoridades, tendo sempre a sensação que a 'corda pode rebentar' a qualquer momento sobre a familia.”

Segundo a profissional de saúde mental, os principais sintomas são: dores musculares, insónias, irritabilidade, sentimento de injustiça, entre outros que englobam um quadro clinico que carece de avaliação psicológica seguida de psicoterapia de forma a que estas defesas emocionais possam ser substituídas por elementos psíquicos menos “penosos” em estabelecer relação entre o mundo interno e o mundo externo de cada um que passe por uma situação destas.

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