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Valem o que valem
Opinião Portugal 4 min. 25.01.2022
Legislativas

Valem o que valem

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Foto: Lusa
Opinião Portugal 4 min. 25.01.2022
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Valem o que valem

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Se as sondagens não mentirem, coisa não rara, o PSD está em ascenção e o PS em queda, com o Chega acima do BE nas intenções de voto. Péssimo sintoma, antes de mais, para a democracia.

Se as sondagens não mentirem, coisa não rara, o PSD está em ascenção e o PS em queda, com o Chega acima do BE nas intenções de voto. Péssimo sintoma, antes de mais, para a democracia. Já se sabe que o tradicional eleitorado do Bloco de Esquerda é de bipolaridades, um tanto ou quanto rosa-trotskista, algo volátil, derivando o seu voto entre os que dão avisos à navegação socialista e os que avisos dão às derivas bloquistas.  

O primeiro chumbo do BE ao Orçamento de Estado de 2021 deixou a geringonça a andar com pés de chumbo, embora na prática se tivesse revelado inimputável. A coisa foi encarada pelo PS mais como um assomo de ciumeira do que outra coisa. O PS ignorou repetidamente, com alguma sobranceria, os sinais de crescente desconforto que chegavam de bloquistas e até de comunistas, que não são de quebrar acordos, muito mais quando estes estão preto no branco, como não foi o caso da segunda legislatura made in geringonça. Fosse por onde fosse, os elos geringocêntricos quebraram-se como gelo fino na votação do último OE, o segundo que o BE chumbou, o primeiro a ser chumbado pelo PCP, votando ao lado da direita, sem conseguir disfarçar uma certa inclinação reumatóide, dores reflexas, próprias de ferimentos nos orgulho. Mesmo que fossem incomparáveis as consequências, no caso a derrocado do edifício do governo, pelo menos o BE já estava mais calejado nessa posição.   

Não foi bonito para a esquerda o espectáculo na Assembleia da República, com os discursos dramatizados ao nível de uma telenovela mexicana, com queixas de parte a parte, mal dobradas para o politiquês. Foi na votação do OE que o PAN jogou a sua primeira cartada decisiva para dar prova de vida, não inviabilizando o Orçamento de Estado, o que serviu de tanto como servem para os fumadores as frases nos maços de tabaco. 

A fazer fé nas sondagens do dia, o PCP é atirado de novo para o convés, com pouco mais de 4,5 por cento das intenções de voto, vendo o PAN a aproximar-se para uns históricos 3,2 por cento, usufruindo do efeito catavento, que tem os seus perigos eleitorais quando chegar a hora da verdade, neste domingo. À excepção do Chega de André Ventura, autoproclamando anticiclone do sistema, que faz das sondagens bandeira, todos se encarregaram de desvalorizar as sondagens. O Chega nem se dá ao trabalho de o fazer, apelando ao voto, talvez porque conheça o seu eleitorado de ginjeira, sabendo que vai a votos nem que chovam omicrons. O mesmo não faz Rui Rio, que parece agora acreditar no que nem ele acreditava quando se deu à campanha o tiro de partida. Rio apela à ida às urnas quase tanto como o PS, que está a ver o chão fugir-lhe debaixo dos pés. 

Certo é que as sondagens já operaram mudanças no discursos de Rui Rio e do primeiro-ministro em funções (embora não pareça, dizem que está). De súbito, o PS já fala em convergências, que tem sido o mote de campanha do PCP, a braços com as baixas e a baixa (de eleitorado). João Oliveira, ainda investido na pele de Jerónimo de Sousa, que amanhã regressa às lides - sem ofensa para o PAN, que ameaça deixar de ser uma dor de cabeça para se transformar numa enxaqueca, para a esquerda e até para a direita -, deu mais uma achega a António Costa, que parece agora mais inclinado para um entendimento - começando, por sua vez, a espelhar a indecisão do seu eleitorado -, dizendo que os comunistas nem fazem questão dessa formalidade de negociar um acordo escrito com o PS, como fazem os irredutíveis bloquistas.

Rui Rio, aliás, não esteve propriamente moderado, nem com o PS, ao qual ainda há pouco tempo estendia a passadeira de um bloco central, nem com o Chega, que continua em fase "wet dream" com pastas ministeriais. A isto Rui Rio reforçou o que já tinha dito no debate com André Ventura: não!, que também dava um bom partido de extrema-direita, caso o espectro não estivesse já ocupado e, a avaliar pelas comitivas, com guarda pretoriana.  

A mensagem que agora Rui Rio envia para António Costa é que este saiba perder com dignidade. Para quem diz que confia pouco nas sondagens, talvez seja muito cedo para cantar vitórias, até porque a diferença está em décimas. O que se traduz também na relação de forças entre os partidos de esquerda e os partidos de direita, com o PAN a beber um refresco biológico à sombra das locomotivas. A isto responde António Costa, cercado por microfones, num desses confins do país real, como lhe chamam nestas alturas, por onde as caravanas passam como se viessem de outra galáxia, atirando um conjunto de frases feitas que vão da agricultura ao pugilismo, que até ao lavar dos cesto ainda é víndima, que o PS nunca atira a toalha ao chão. Se esta for branca, ainda vá que não vá, ainda pode servir de estandarte para as pazes na esquerda. Por outro lado, poderá ter o significado que tem um lenço branco no futebol.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)  

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