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Três polícias vão a julgamento no caso de agressões a Cláudia Simões
Portugal 6 min. 20.06.2022
Violência policial

Três polícias vão a julgamento no caso de agressões a Cláudia Simões

Cláudia Simões com o rosto desfigurado dois dias depois da noite das agressões, a 21 janeiro de 2020, em entrevista ao Contacto.
Violência policial

Três polícias vão a julgamento no caso de agressões a Cláudia Simões

Cláudia Simões com o rosto desfigurado dois dias depois da noite das agressões, a 21 janeiro de 2020, em entrevista ao Contacto.
Foto: Bruno Amaral de Carvalho
Portugal 6 min. 20.06.2022
Violência policial

Três polícias vão a julgamento no caso de agressões a Cláudia Simões

Redação
Redação
“Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Estamos fartos de vocês. Vão embora para a vossa terra”, terá dito um dos agentes agora acusados.

A juíza de instrução do Tribunal da Amadora confirmou esta segunda-feira na íntegra a acusação do Ministério Público contra três polícias envolvidos no caso de agressão a Cláudia Simões, a 19 janeiro de 2020, e decidiu levá-los a julgamento, noticia o jornal Público. Carlos Canha, João Carlos Cardoso Neto Gouveia e Fernando Luís Pereira Rodrigues são os agentes que vão agora ter de se sentar no banco dos réus.

Em setembro de 2021, o Ministério Público acusou Carlos Canha de três crimes de ofensa à integridade física qualificada, três de sequestro agravado, um de abuso de poder e outro de injúria agravada contra Cláudia Simões, escreve o jornal Público. Aos outros dois agentes que estavam no carro aquando as alegadas agressões de Carlos Canha, o MP acusava, cada um deles, de um crime de abuso de poder e de nada fazerem para impedir que aquele polícia a agredisse, acrescenta o diário.

A história desta agressão foi noticiada em primeira mão pelo jornal Contacto, dois dias depois de Cláudia Simões ter sido agredida e levada para o hospital, a 19 janeiro de 2020, com o testemunho da própria vítima e a publicação de um vídeo onde se vê um polícia a manietá-la e que se tornou viral nas nas redes sociais.

Imagem de Cláudia Simões após as alegadas agressões policiais.
Imagem de Cláudia Simões após as alegadas agressões policiais.

A juíza arquivou hoje também, tal como antes tinha feito o Ministério Público, o inquérito contra Cláudia Simões por considerar que não havia provas contra a mulher em relação aos crimes de resistência e coação sobre funcionário e ofensas à integridade física de que era acusada pelo polícia, avança também o jornal Público. Recorde-se que na altura o Sindicato Unificado da PSP acusou esta mulher de ascendência angolana e nacionalidade portuguesa, de 42 anos, de morder a mão e o braço direito do agente para resistir à detenção.

"Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país"

Tudo começou por causa de uma criança, Vitória, a filha de oito anos de Cláudia Simões, que se tinha esquecido do passe em casa. Ambas só deram conta do esquecimento entraram no autocarro naquele domingo à noite. Como contou, então, ao Contacto, com o rosto ainda desfigurado, o motorista pediu-lhes para sair por a filha não ter o passe ao que a mãe explicou que Vitória tinha passe e que quando chegassem à paragem do destino o outro filho estaria lá para mostrar o documento ao condutor.

Pelo caminho o motorista ainda discutiu com outra passageira que tinha entrado e lançou impropérios, contou ao Contacto o sobrinho Gerson: “Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Estamos fartos de vocês. Vão embora para a vossa terra”.

Quando chegaram ao destino, o Bairro do Bosque, o motorista saiu e foi chamar um polícia que estava ali perto. Cláudia, Gerson e a pequena Vitória continuaram ali, à espera do filho de Cláudia com o passe da criança.

“O meu primo, o filho da Cláudia, estava a descer com o passe mas o polícia não deixou ninguém explicar nada”, contou Gerson. O agente exigiu a identificação a Cláudia e disse-lhe que a ia levar para a esquadra.


Espancada porque filha se esqueceu do passe
Cláudia Simões descreveu ao Contacto a noite de horror que viveu nas mãos da polícia, na Amadora, depois da filha de oito anos se ter esquecido do passe em casa.

Terá sido então que o polícia a manietou. “Ele agarrou-me, fez um mata-leão e caiu comigo de costas”, contou Cláudia Simões no dia seguinte à agressão. O vídeo que correu nas redes sociais mostra o momento em que o polícia está com os joelhos em cima de Cláudia que estava no chão e as mãos no cabelo. Ouve-se uma voz a dizer “Ela não está a resistir”. Cláudia Simões conta que o agente a estava a sufocar.

Agressões no carro-patrulha

Depois chegaram vários carros patrulha, Cláudia foi algemada e entrou num deles com o polícia que a manietou. Foram ambos no banco de trás, com outros dois polícias à frente. Foi nessa viagem que, segundo Cláudia Simões, o polícia ao seu lado a agrediu estando ela algemada. “Durante o caminho todo fui esmurrada. Ele gritava 'filha da p***', 'preta do c*r***o' e 'c*** da tua mãe' enquanto me dava socos. Eu estava cheia de sangue e gritava muito”. Quando chegaram à porta da esquadra da Boba, no Casal de São Brás, Cláudia Simões conta que a PSP chamou uma ambulância para a levar para o Hospital Amadora-Sintra.

Segundo o jornal Público, o relatório de urgência do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), sinalizou-a como “muito urgente”, vítima de agressão, com “face deformada por hematomas extensos”. O diagnóstico de saída referia que tinha traumatismo cranioencefálico com ferida.

Também o agente deu entrada no hospital, tendo Cláudia Simões sido nessa mesma noite e ainda no hospital constituída arguida devido às lesões do polícia. A mulher assumiu posteriormente ao Contacto que mordeu o agente porque estava a sufocar e tinha medo de morrer.

Gerson, sobrinho de Cláudia Simões assistiu a tudo.
Gerson, sobrinho de Cláudia Simões assistiu a tudo.
Gerson, sobrinho de Cláudia Simões

Consequências

Cláudia Simões denunciou o agente e foi ouvida pelo Ministério Público. A PSP abriu inquérito. A 22 janeiro de 2020, o Governo através do Ministério da Administração Interna ordenou a abertura de um inquérito ao caso da detenção de Cláudia Simões com recurso à força na Amadora.


"O agente estava a sufocá-la", afirma testemunha da detenção violenta na Amadora
Um distribuidor da Domino's Pizza que passava no local e assistiu à detenção revelou ao Contacto que o agente da PSP abusou da força para proceder à detenção de Cláudia Simões. O polícia Carlos Humberto Canha é acusado de espancar a mulher de nacionalidade portuguesa e angolana.

A um de fevereiro decorreu em Lisboa uma manifestação contra o racismo e violência policial, desencadeada pelo caso de agressão a Cláudia Simões que contou com cerca de 500 manifestantes, entre eles a sua mãe e deputadas do Bloco de Esquerda, Partido Comunista e Joacine Katar Moreira.

Por seu turno, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) apresentou queixa ao Ministério Público contra a publicação do sindicato da PSP nas redes sociais que mostrava as fotos das mãos do agente que disse ser mordido por Cláudia Simões.  "As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves. A defesa da cidadã está a começar a ser orquestada pelo ódiomor de brancos", lia-se na legenda.

Em setembro de 2021, o Ministério Público acusou Carlos Canha, João Carlos Cardoso Neto Gouveia e Fernando Luís Pereira Rodrigues e esta segunda-feira a juíza de instrução do Tribunal da Amadora decidiu que os três agentes vão ser julgados. 

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