Escolha as suas informações

Treinadores de bancada
Opinião Portugal 5 min. 12.04.2021

Treinadores de bancada

Treinadores de bancada

Foto: EPA
Opinião Portugal 5 min. 12.04.2021

Treinadores de bancada

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Alguém disse um dia que há dez milhões de selecionadores da equipa nacional portuguesa. Como sempre, quem fez essa frase esqueceu os cinco milhões de emigrantes que andamos cá por fora, mas essa não é a questão que aqui me traz.

É verdade que qualquer adepto de futebol tem sempre algo a dizer. Estejamos sentados no sofá lá em casa, num café ou na bancada do estádio temos sempre opinião sobre a formação da equipa, a prestação daquele avançado que hoje não está a acertar uma e, sobretudo, sobre as coisas mais complexas tais como a estrutura da equipa e o posicionamento dos jogadores. Parece que quem está de fora ainda tem mais visão e sabedoria do que aqueles que estão sentados no banco.

Mas não é só no futebol que os adeptos sabem mais do que os jogadores, os treinadores e todos aqueles que são pagos para disputarem um jogo. Outro domínio em que se acumulam peritos são as obras.

Os leitores que trabalham nesse setor sabem melhor do que eu que uma obra na via pública ou em local de fácil acesso acaba rodeada de transeuntes que querem ver o que se passa. Mas não querem só observar. Querem comentar. Dar palpites.

Então se estiverem envolvidas máquinas pesadas qualquer estaleiro se transforma numa atração pública. Há os curiosos que ficam apenas a admirar a potência e a eficácia das máquinas, mas a maioria dos mirones vai ter coisas a dizer.

Naturalmente, não vão dirigir-se aos trabalhadores, mas vão comentar com outros passantes que se vão acumulando em frente à obra. Se o gajo usasse a pá mais de lado ia fazer a rota muito mais rápida, diz um. Sim, mas olhe que ali passa uma conduta, que ainda há umas semanas andou aí uma equipa da Câmara a esburacar tudo e eu vi que tem uns tubos. Se calhar você devia avisar os homens, diz um terceiro.

E há outros profissionais que sofrem com o mesmo fenómeno: os garagistas. Nem é preciso ir a uma oficina propriamente dita para observar este fenómeno. Basta ir mudar os pneus do carro. A situação é pior quando o proprietário espera pelo automóvel e vai mirando todos os componentes que se tornam visíveis depois de retiradas as rodas. O condutor médio sabe tanto de mecânica como eu sei de física ótica, mas até eu tenho uma opinião sobre as lentes dos meus óculos.

Mas há pior.

A pandemia provocada pelo coronavírus tornou muitos de nós especialistas em vírus, em epidemias e em modelos de evolução pandémica. A maioria desses peritos formaram-se, ou vão-se formando, na universidade do Facebook ou no instituto superior de um grupo WhatsApp qualquer.

Depois é vê-los explicar a evolução da contaminação, debater a necessidade do uso de máscaras, questionar as decisões dos governos explicando que a Suécia é que sabe, que os australianos deram uma lição ao mundo ou que o Brasil é que vai provocar o fim da Humanidade.

E agora, em tempo de vacinação, acabo de descobrir que tenho amigos e familiares que sabem mais sobre as diferentes vacinas do que a OMS (que todos sabemos está ao serviço de X ou de Y ou de Z, dependendo de quem fala) e do que a Agência Europeia do Medicamento que, afinal, só serve para empatar, já para não falar nas grandes empresas farmacêuticas que estão na origem do fim do mundo (aquele que há de vir, não os outros 17 que já foram previstos pelas mesmas pessoas e felizmente não aconteceram).

Nestes dias assistiu-se ao aparecimento de um novo tipo de experts. Confesso que desconhecia ter tantos amigos com formação em Direito. Melhor: tenho amigos que estudaram engenharia, outros que estudaram linguística, outros informática e muitos outros que pouco estudaram, mas todos parecem saber mais do que os catedráticos de Direto de Coimbra e muitos dos comentadores especializados que se vão sucedendo na televisão.

As recentes evoluções no caso Marquês merecem opiniões avisadíssimas de muita gente que, até agora, só comentava os jogos do Benfica ou que preferia falar de carros desportivos, futebol ou gajas (desculpe minha senhora).

De repente, ele é post no Facebook, ele é partilhas no Telegram ou no Signal (que agora o WhatsApp anda a espiar-nos; se não sabia aqui fica a informação) e ele é certezas absolutas sobre coisas que me parecem mais ou menos complexas, mas que me explicam serem tão simples que só não percebe quem não quer.


Operação Marquês. Ex-primeiro-ministro José Sócrates ilibado de crimes de corrupção
Juiz Ivo Rosa arrasou acusações do Ministério Público.

Admito que eu próprio também não fiquei convencido com aquilo que aconteceu na sexta-feira à tarde quando o juiz Ivo Rosa decidiu que a maioria dos casos que analisou prescreveram. Mas calo-me porque reconheço que os meus conhecimentos de Direito se resumem a ter visto todas as temporadas de "Suits" e as duas primeiras de "The Good Wife", e sei, porque não sou burro de todo, que as leis da América não são as mesmas de Portugal.

Mas, apesar de tudo, também tenho uma opinião e esperava que, por exemplo, durante a instrução dos casos os prazos ficassem suspensos para que não houvesse prescrição. Preferia que tudo fosse a julgamento e que depois se ficasse a saber se sim ou sopas, se houve corrupção, se houve tráfico de influências e que fosse revelado tudo sobre todas as acusações de que eram alvo aqueles senhores e aquelas empresas.

Mas quem sou eu para saber se o caso foi bem ou mal instruído? E se o juiz foi simpático com os arguidos ou não foi? Eu não percebo nada disto e observo simplesmente. Tal como não digo ao Fernando Santos se deve ou não deve meter a jogar aquele puto que joga no Atlético de Madrid, ou tal como não digo ao senhor Costa quando me vem lá reparar a cozinha se o parafuso está bem ou mal apertado.

Mas que prefiro uma boa telenovela com ação, sexo e sangue, isso prefiro. Tal como acho muito mais excitante quando, na Fórmula 1, os carros batem na confusão da primeira volta. Mas isso não digo a ninguém...

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.