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Tiago Pinheiro (BE). “O nosso próprio governo apoia mais os ingleses que estão em Portugal do que os seus cidadãos no estrangeiro”
Portugal 10 min. 19.09.2019

Tiago Pinheiro (BE). “O nosso próprio governo apoia mais os ingleses que estão em Portugal do que os seus cidadãos no estrangeiro”

Tiago Pinheiro (BE). “O nosso próprio governo apoia mais os ingleses que estão em Portugal do que os seus cidadãos no estrangeiro”

Foto: Diana Tinoco
Portugal 10 min. 19.09.2019

Tiago Pinheiro (BE). “O nosso próprio governo apoia mais os ingleses que estão em Portugal do que os seus cidadãos no estrangeiro”

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Nasceu em Lisboa, viveu na margem Sul e mudou-se para Londres há cinco anos, onde trabalha como enfermeiro. Tem 36 anos, e depois de uma experiência pouco romântica de emigração, está a fazer o caminho de regresso a Portugal, no momento em que o Brexit se desenrola no Reino Unido.

Escreveu um texto de opinião na esquerda.net onde se percebe que não tem uma visão muito romântica da emigração, pois não?

Não tenho uma visão aventureira, não. Saí de Portugal na altura em que ‘convidaram’ alguns de nós a emigrar. Tive que procurar outras oportunidades. Tenho a visão o menos romântica possível e debati-me mais seriamente com os problemas inerentes à emigração. Na altura nem sequer o recenseamento era automático, não se podia votar e apercebi-me de toda uma série de dificuldades que temos a partir do momento em que saímos do país.

Isso foi em que altura?

Saí de Portugal em 2014. Era enfermeiro, tinha emprego, no entanto foi na altura em que houve cortes e diminuição de vencimentos e acabei por procurar aqui qualquer coisa que me desse um bocadinho mais porque a quebra de rendimentos foi muito significativa. Fui para Londres, onde tenho estado, e estou agora a tentar agora fazer o processo inverso: voltar para Portugal.

Tanto no manifesto da emigração do Bloco de Esquerda, como no texto que escreveu, no Reino do Far, FarAway, a sua visão é a de que os emigrantes têm uma vida muito dura, são mal vistos e mal tratados tanto no país onde estão como do país de onde saíram. É isso ?

Os emigrantes vivem numa espécie de limbo, quando precisamos de resolver o que quer que seja, quando precisamos dos serviços consulares. Eu tinha a sorte de estar em Londres, e estar perto do consulado português, mas é muito difícil para os que moram mais longe e têm que se deslocar. E os transportes no Reino Unido não são assim tão baratos. Por outro lado, não se consegue resolver nada no consulado sem marcação. Os serviços consulares estão extraordinariamente sub-dimensionados. Há também um fenómeno: muita gente emigra sem nunca ter mudado a morada fiscal em Portugal, o que faz com que os emigrantes sejam em número maior do que aquele que nós estimamos. Se se quiser fazer o cartão do cidadão, o tempo de espera não sei se não rondará os seis meses. Neste momento, as pessoas estão a tratar da documentação em Portugal.

Isso tem que ver com a situação excepcional do Brexit, não?

Não, isto é desde sempre. Não há minimamente capacidade de resposta. A história do Brexit veio tornar tudo mais difícil. O que o Brexit mostrou é que estamos todos muito expostos a um sistema político diferente do nosso, as pessoas continuam a usar os emigrantes como bode expiatório das dificuldades que se vivem no Reino Unido, onde a quebra de rendimento é óbvia. Acabamos por viver todos um bocadinho empurrados de um lado para o outro. Há um outro problema grave: todas as pessoas que trabalham são obrigadas a fazer descontos para fundos de pensão privados e neste momento é extraordinariamente difícil que algum de nós consiga mover alguns destes fundos para fora do Reino Unido. Há imensa gente que trabalha, com fundos de pensão relativamente avultados, e que tem que esperar para chegar aos 55 anos e ir ao Reino Unido levantar os seus fundos de pensão se decidirem sair, e mesmo assim paga-se uma taxa grande. Estamos a falar de dinheiro que vem do trabalho das pessoas.

O seu regresso a Portugal tem a ver com o Brexit?

A minha vontade prende-se essencialmente com questões familiares. Já estou a vir a Portugal com bastante frequência, todos os meses. No entanto, todo este clima de incerteza com o Brexit, que resulta em perda de rendimento, aumento do custo de vida – até porque o Reino Unido está muito dependente da importação de bens alimentares – aliada a uma discreta melhoria das condições de vida em Portugal, está a tornar mais fácil regressar.

Acha que vai haver muita gente a voltar a Portugal vinda do Reino Unido?

Sim. E não só há muita gente a fazer este percurso como há muita gente que neste momento tenta organizar-se de forma a trabalhar curtas temporadas no Reino Unido. Há também muitas pessoas a voltar definitivamente porque estabelecer lá uma família é extraordinariamente difícil não havendo apoios. O custo da habitação nas grandes cidades é proibitivo, mesmo uma zona periférica de Londres. A perda de rendimento nota-se em tudo.

Sente que o Estado português está a falhar aos emigrantes no Reino Unido?

No que diz respeito ao dimensionamento dos serviços consulares, sim. Parece que saímos do país e deixamos de contar e que temos que tirar senha para sermos portugueses. Neste momento querer ser português no estrangeiro exige esforço. Por isso os descendentes dos que emigraram acabam por perder as raízes com Portugal. Nas comunidades mais antigas percebe-se que os luso-descendentes vão tendo um contacto tão pequeno com a língua e com a cultura que muitos deles não se sentem como tal. Conheci filhos de emigrantes que não falam português, não vêm a Portugal e já não têm qualquer contato.

Quais são as propostas do BE?

Essencialmente temos que dotar mais meios consulares de capacidade de mobilidade. Devia haver alguns serviços satélites que se deslocassem às comunidades. Existem pessoas com dificuldade em viajar, com cartões de cidadão caducados, porque não têm meios de ir até Londres. É importante que existam serviços que cheguem às comunidades, em localidades remotas. Há planos e pontes para pessoas que queiram regressar, mas não estão a ser eficazes.

Está a falar do programa Regressar?

O programa Regressar tem condições demasiado específicas. Neste momento exige que as pessoas voltem já com um contrato de trabalho. Mas dado o contexto laboral em Portugal isso é extremamente difícil. Estamos a exigir que o emigrante venha com condições que são difíceis até para quem já cá está. Conseguir ter um país justo para todos, em termos laborais, também era importante. Para as pessoas poderem regressar para qualquer coisa de mais digno.

Quais são os principais cavalos de batalha das propostas do BE para a Europa? É a reorganização dos serviços consulares, o aumento do ensino do português e também o apoio às pessoas que perderam as suas poupanças, como é o caso dos lesado do BES?

Sim, essencialmente queremos que o governo continue a defender os direitos dos portugueses estejam eles onde estiverem. O caso dos lesados do BES expôs as dificuldades das pessoas que não têm a quem recorrer. Não há em Portugal a cultura de garantir que o dinheiro das reformas de pessoas que estão fora esteja assegurado. Em França também acontece que pessoas que têm imensos anos de trabalho não conseguem ver reconhecidos os seus direitos. Não podem sair dos países senão perdem os seus fundos de pensão. Mas o Reino Unido continua a pagar as pensões dos seus cidadãos mesmo estando eles em Portugal. E também se põe a questão de com o Brexit perder direitos, mas há toda uma mobilização para defender estas pessoas. O nosso próprio governo apoia mais os ingleses que estão em Portugal do que os seus cidadãos no estrangeiro.

No vosso manifesto critica-se muito a atuação deste governo e a inércia em relação às comunidades portuguesas no estrangeiro.

Nas últimas legislaturas muito pouco se tem feito em relação à emigração. Nem mesmo pelos deputados eleitos no círculo da Europa, que são apenas dois.

O deputado do PS, Paulo Pisco dá uma visão muito mais otimista. Fala do Regressar, do recenseamento automático e do reforço consular e, sobretudo, de passar a haver segurança social nos consulados, como medidas muito positivas.

O Paulo Pisco provavelmente não usa os serviços consulares. Quanto ao Regressar, para receber o total do bolo é necessário vir com uma família grande e ter contratos de trabalho. São necessários tantos requisitos, que uma pessoa simplesmente que queira voltar não tem apoio.

O programa Regressar não se aplica à sua situação?

Não, porque isto de ser emigrante parece que é uma etiqueta que se nos cola para sempre, e é difícil que alguém me ofereça um contrato de trabalho. Tudo o que eu tenho em perspetiva são contratos a prazo, contratos precários, e imagino que isso aconteça a muita gente. Em relação ao recenseamento, isto é apenas a correção de um erro gravíssimo, porque a dada altura com a nova morada ficávamos recenseados mas tínhamos que ir manifestar a vontade de votar, portanto éramos diferentes de todas as pessoas em Portugal. Quanto aos novos serviços consulares, isso vai servir de pouco se o consulado continuar inacessível.

Acha que os emigrantes dos outros países são melhor tratados pelo seu país de origem?

A noção que tenho – e trabalho com pessoas de vários países – é de que não têm um apoio muito maior, mas têm mais possibilidade de regressar pelas condições que têm nos seus países de origem. Há muita gente a sair do Reino Unido para os seus países de origem, há um êxodo grande de espanhóis. Acaba por não ser muito difícil voltar para Portugal, até porque ser emigrante no Reino Unido não é a coisa mais fácil. Muitos ingleses, sobretudo de meia idade, apoiam o Brexit e estão contra os estrangeiros. Em toda a Europa os estrangeiros estão a ser culpabilizados pela degradação das condições de vida e do Estado Social.

Nem sempre o BE viu a Europa de forma positiva. Hoje, qual é a vossa visão?

Queremos um modelo de Europa diferente, menos federalista. Neste momento vivemos sob os interesses da Alemanha e da França. A União Europeia é importante, mas como uma verdadeira cooperação de estados e não como estados periféricos que fornecem mão-de-obra aos países ricos. Somos a favor da Europa, mas justa e mais igualitária.

Qual é a vossa visão para Portugal?

Continuamos a defender o emprego justo e queremos acabar com a precariedade. Existe mais trabalho, mas continua a ser precário. Temos que reforçar o Serviço Nacional de Saúde e também serviços públicos essenciais. Percebemos que existem vários serviços essenciais que neste momento estão nas mãos dos privados. O SNS poderia estar muito melhor, não fosse existirem muitas parcerias nefastas que acabam por retirar imensos fundos sem grandes resultados. Queremos que as pessoas tenham condições de vida dignas e oportunidades iguais. Lutamos pela justiça social e pelo Estado Social.

A geringonça deve continuar ou não?

O que nós achamos é que não vale a pena haver uma geringonça se não conseguirmos que existam ideias nossas que se imponham. Participar só por participar não faz parte da nossa natureza. Faz sentido sim, se isso nos trouxer a oportunidade de acrescentar as nossas ideias e de cumprir o programa. E é por isso que vamos a votos.

E acha que isto não aconteceu nesta legislatura?

Aconteceu por momentos. Conseguimos deixar uma marca de algumas coisas positivas, no entanto ficou muita coisa por fazer. Por exemplo em termos de trabalho, precariedade e afins. A lei de bases da Saúde não foi aprovada.

Entrou no Bloco de Esquerda quando?

Em 2007, tinha cerca de 25 anos. Já era enfermeiro.

O que o levou a entrar na política?

Sempre tive interesse desde que comecei a votar. Recordo-me de ouvir o Francisco Louçã a falar e o Miguel Portas e acabei por entrar em contacto com o PSR, um dos partidos fundadores do Bloco.

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