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Sua excelência, o joker
Opinião Portugal 3 min. 20.01.2022
Legislativas

Sua excelência, o joker

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro, António Costa.
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Sua excelência, o joker

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro, António Costa.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 3 min. 20.01.2022
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Sua excelência, o joker

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Todos estamos recordados da última vez que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tirou o tapete a Rui Rio. Estava o líder do PSD mergulhado no hemiciclo, na votação do Orçamento de Estado que desencadeou a actual crise, e o PR a servir um chá de cortesia a Paulo Rangel, candidado, acabadinho de sair do armário, à liderança do PSD, putativo adversário de Rui Rio na luta por um partido partido.

Aparentemente, toda a gente sabia deste encontro menos Rui Rio, que ficou atónito perante a comunicação social, apropriadamente nos Passos Perdidos, operando-se uma estranha inversão de funções. "O senhor presidente da República esteve reunido com o dr. Paulo Rangel? Hoje?!" - perguntou então o líder do PSD, com ares de quem lhe havia sido contada uma anedota que ele não tinha percebido, para depois colocar um olhar grave, mais a atirar para a facada matrimonial.

O presidente laranja foi de tal modo surpreendido pelo bisturi presidencial que levou um dia para dar uma resposta, aparecendo com energia renovada e ar de Brutus, enviando indirectas para o Popeye, que do Palácio de Belém indirectamente respondeu com paninhos quentes institucionais, dizendo não entender a razão de tanto alarido mediático à volta de uma camomila semi-protocolar, dada a informalidade do encontro. 

Aliás, ironia das ironias, era até de espantar como tal notícia havia chegado tão depressa aos mensageiros. Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu a interferir publicamente na luta interna que eclodira no PSD, fazendo questão de mostrar de que lado se encontrava, sabendo que esta questão seria ofuscada nesse mesmo dia pelo chumbo mais do que prevísivel do OE.

Não era preciso isto para saber que Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio nunca foram juntos aos figos, pois isso toda a gente sabe, os adversários também. E por aqui se explica a razão de ter sido António Costa e não Rui Rio a evocar o presidente da República para esta campanha. O líder do PSD anda por aí a espalhar o seu novo sorriso pelo país, aos ziguezagues para não tropeçar na comitiva do Chega, com mais seguranças por metro quadrado que uma cimeira de chefes de Estado. 

Já o primeiro-ministro em funções, investido na capa de secretário-geral do PS, não faz outra coisa se não colocar Marcelo Rebelo de Sousa no xadrez eleitoral, para sossegar os indecisos nas   virtudes de uma maioria absoluta do PS, enquanto lá vai dizendo que é irrepetível a geringonça, atirando umas borrifadelas ligeiras de perfume para um PCP convalescente, isolando o Bloco de Esquerda no gaveta dos grandes inviabilizadores, enviando mensagens subliminares para o PAN, que já nem sabe o que fazer com tantos pretendentes.

Assumidamente descrente num milagre absoluto, Rui Rio faz-se de enguia nos ínvios caminhos de uma geringonça de direita, fazendo por não descartar, com a subtileza que lhe é possível (não é, decididamente, a sua especialidade), um hipotético Bloco Central. A razão para não evocar o presidente da República para o combate eleitoral é por demais evidente: não lhe seria favorável, arriscando-se mesmo a ouvir o que não queria. 

E assim nasceu mais um episódio fresquinho da série "twilight zone", compatível com aquele que António Costa protagonizou um dia na Autoeuropa, de "braço-dado" com Marcelo Rebelo de Sousa, como velhos compagnons de route, quebrando o protocolo e o distanciamento social para anunciar a sua candidatura para o segundo mandato presidencial quando o próprio PR não o tinha ainda feito, a saborear o seu belo tabú.

António Costa joga o presidente da República como um joker, para tranquilizar os arautos dos perigos de uma maioria absoluta socialista, utilizando Marcelo Rebelo de Sousa como o garante que jamais o Partido Socialista porá o pé em ramo verde. "Alguém acredita que com Marcelo Rebelo de Sousa o PS podia passar a linha?" - pergunta António Costa, em modo retórico. Só quando é estritamente necessário, o primeiro-ministro se vê forçado a admitir um cenário de governação em modo Guterres. Com mais facilidade António Costa traz à baila os tempos da maioria cavaquista, que está para o PS como a área 51. Só para lembrar como o então presidente da República, Mário Soares, exerceu os seus poderes contra os excessos da laranja mecânica.

 

                                                          

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