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Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"
Portugal 8 min. 16.01.2022
Crimes de décadas

Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"

Crimes de décadas

Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"

AFP
Portugal 8 min. 16.01.2022
Crimes de décadas

Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O apelo é feito por uma comissão que está a estudar estes abusos na Igreja Católica, em Portugal, desde 1950 até hoje. Já houve mais de 100 denúncias, algumas de emigrantes. O relato por telefone ou email pode reparar anos de "sofrimento silencioso".

Em Portugal, há uma comissão independente a estudar os abusos sexuais a crianças feitos por membros da Igreja Católica, desde 1950 até hoje. Só na primeira semana foram validados 102 testemunhos feitos por vítimas, algumas emigrantes. “Relatem, finalmente e sem medo, o que lhes aconteceu”, pedem Pedro Strecht e Daniel Sampaio, membros da comissão. O anonimato é garantido.

Os relatos que já chegaram à comissão de especialistas, independente da Igreja Católica, revelam “décadas de um silêncio” doloroso. Testemunhos de “momentos de profunda dor e sofrimento", feitos por pessoas que foram “vítimas em criança”, com idades “entre os 30 e os 80 anos”, revelou à Lusa o coordenador desta comissão, Pedro Strecht. Esta denúncias chegaram de todo o país, mas também de cidadãos emigrados, refere este pedopsiquiatra. Pelo sofrimento contado, “parece existir predomínio de registos na zona norte e interior de Portugal continental”.

“As histórias de abuso e trauma ouvidas e/ou registadas contêm momentos de profunda dor e sofrimento e, claro está, décadas de silenciamento de cada pessoa, todos merecem a nossa profunda empatia e respeito”, sublinhou Pedro Strecht.

Quantas crianças sofreram?

Quantas crianças e adolescentes sofreram abusos sexuais no seio da Igreja Católica Portuguesa, desde 1950 até hoje? Qual é o perfil dos abusadores, sejam padres, outros membros da Igreja ou pessoas que para ela trabalham? Quem foram ou são estas crianças (0-18 anos) e onde foram cometidos estes crimes? Estas são algumas das  questões que a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa quer responder para conhecer esta cruel e escondida realidade portuguesa que tantos traumas para a vida terá criado nas vítimas.

“Dar voz ao silêncio”, é o nome do estudo que, quer por um lado, quebrar “um sofrimento pessoal” de anos, das vítimas, e por outro, permitir uma “atitude reparadora por parte dos abusadores”, vinca o pedopsiquiatra Pedro Strecht, presidente desta comissão, na sua carta de intenções. Os casos denunciados e cujos crimes ainda não se encontrem prescritos vão ser encaminhados para as autoridades competentes para investigação.

A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa.
A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa.
LUSA

Mais do que as estatísticas, interessa “chegar às pessoas”, frisa este especialista no mesmo documento da comissão, que foi esta semana apresentada em Lisboa e começou a recolher testemunhos. 

Para se conhecer esta “verdade histórica” é preciso a colaboração das vítimas e, por isso, está a ser lançado um amplo apelo a todos quanto sofreram estes abusos, ou conheçam casos, para partilhar e dar o seu testemunho.


Portugal. Linha aberta para denúncias de abusos sexuais na igrejas recebeu 50 queixas no primeiro dia
A comissão que vai investigar abusos sexuais na igreja católica em Portugal começou esta quarta-feira a receber denúncias de vítimas.

Total anonimato

A comissão garante o “total sigilo profissional e o anonimato” de todas as vítimas que desejem colaborar, vinca Pedro Strecht na carta, e o mesmo foi repetido na sessão de apresentação desta comissão, constituída por especialistas de várias áreas, como a saúde mental, social ou jurídica. Apesar do convite para este estudo ter partido da Conferência Episcopal Portuguesa, a comissão garante ser uma estrutura autónoma e independente da Igreja.

“Apelamos desde já a todas e todos quanto possam ter sido vítimas destes crimes hediondos para que falem. Que relatem, finalmente e sem medo, o que lhes aconteceu. Mesmo perante naturais hesitações, completamente aceitáveis diante de situações sobre as quais podem ter passado décadas, tocando agora em assuntos que não desejam voltar a fazer emergir, por favor, confiem na vossa voz interior e na utilidade de a partilhar para que daí surja, no mínimo, repito, no mínimo, uma atitude reparadora por parte daqueles que vos abusaram, reforçando a vossa dignidade enquanto pessoas feridas nas mais íntimas experiências da vida”, apela Pedro Strecht no documento de intenções.

Silêncio de dor

A comissão foi apresentada publicamente na segunda-feira dia 11 e, no dia seguinte, recebeu meia centena de testemunhos válidos. Além de marcações para entrevistas presenciais.

O psiquiatra Daniel Sampaio, membro desta comissão explica ao Contacto que o silêncio das vítimas “impera, por vezes, durante uma vida inteira”. Contudo, “a necessidade de falar e o desejo de justiça existem desde sempre, mas muitos testemunhos só são feitos muitos anos depois do abuso. Muitas vezes há pressões internas muito intensas, de culpa e de medo; noutros casos são pressões externas, imaginadas ou reais”, realça Daniel Sampaio com vasta experiência na saúde mental e, em particular, na adolescência.


Comissão de estudo de abusos na Igreja. Daniel Sampaio e Laborinho Lúcio integram comissão
O psiquiatra Daniel Sampaio e o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio integram a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, que foi esta quinta-feira apresentada.

Este silêncio de dor de quem sofreu abusos sexuais é marcante “para sempre” e pode impedir que as vítimas menores tenham uma vida amorosa saudável, no futuro. “A vida afetivo-sexual é sempre afetada, mas pode ser normal desde que haja apoio e compreensão familiares e relacionamentos amorosos gratificantes”, diz o psiquiatra salientando que “o apoio psicológico por profissional impõe-se na maioria dos casos”.

O facto de se ser abusado por um padre ou no seio da igreja católica num meio rural e guardar o crime pode agravar as consequências mentais da vítima? “Sim, o silêncio agrava a situação”, sublinha. Por isso, Daniel Sampaio apela a quem foi vítima enquanto menor e hoje é um adulto a dar o seu testemunho à comissão. “O relato é uma reparação”, vinca. 

Os testemunhos podem ser dados online, por telefone, entrevista zoom, ou presencialmente. Algumas vítimas preferem mesmo a entrevista presencial “o que pode significar o desejo de falar, ou de não estarem à vontade com a entrevista online ou por telefone”, explica este psiquiatra esclarecendo que estas mesmas entrevistas são “feitas sempre por dois membros da comissão, um deles, pelo menos na área psicológica. Atualmente, há três elementos desta área, mas a comissão poderá ainda ser alargada, caso haja necessidade.

A recolha de testemunhos vai decorrer até 31 de julho, querendo a comissão ter o relatório concluído no final do ano.

Crimes encaminhados para a justiça

Álvaro Laborinho Lúcio, juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e ex-ministro da Justiça, é outro dos membros da comissão. Como realçou na apresentação da comissão, todos os testemunhos recebidos que possam ser enquadrados como denúncias de crimes ainda não prescritos serão “imediatamente encaminhados” para as autoridades competentes. 

“Nós vamos distinguir claramente denúncias de testemunhos. As denúncias não as vamos trabalhar, mas vamos imediatamente enviá-las para as instâncias competentes”, disse o juiz conselheiro, citado pela Lusa, e referindo que estão já estabelecidos canais de comunicação com as hierarquias superiores da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Judiciária.

“Não podemos mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos vossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que certamente podemos rever partes de nós mesmos”, vinca Pedro Strecht na carta de intenções. 


Católicos portugueses exigem investigação independente sobre abusos sexuais na Igreja
A carta é subscrita por centenas de católicos, entre os quais figuras públicas, como a escritora Alice Vieira, o deputado José Manuel Pureza, o jornalista Jorge Wemans e o ex-presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca.

Além dos testemunhos, o estudo inclui também muita pesquisa sobre os abusos pela Igreja desde 1950, a começar pela própria Igreja Católica, na comunicação social, das bases de dados de instituições várias na área da justiça, da área da saúde, como centros de saúde e hospitais, ou de entidades de apoio, como a Associação de Apoio à Vítima ou o Instituto da Criança. Em relação à Igreja, a comissão irá analisar os arquivos das dioceses que contenha processos de denúncia, quer sejam históricos, ou a documentação das comissões diocesanas de proteção de menores.


Entre 2.900 e 3.200 pedófilos na Igreja Católica francesa desde 1950
Ao longo deste período de 70 anos a população geral de padres ou de religiosos no país cifra-se nos 115.000.

Quem são os membros da comissão?

Pedro Strecht, pedopsiquiatra é o presidente desta comissão que vai estudar os abusos de crianças no seio da Igreja Católica portuguesa. Além do psiquiatra Daniel Sampaio e do ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio fazem ainda parte do núcleo central da comissão, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares, e a cineasta Catarina Vasconcelos. Há ainda mais dois elementos, um especialista na área da psicologia clínica e um elemento ligado à área da comunicação social. Se for necessário a equipa pode ser alargada durante o decorrer dos trabalhos.

Em Portugal, a realidade sobre os abusos sexuais da Igreja Católica Portuguesa nos últimos 72 anos vai ser agora estudada, à semelhança do que aconteceu já noutros países, como a França. Neste país, o relatório da comissão independente sobre os abusos a crianças pela Igreja revelou que, entre 1950 até 2020, mais de 300 mil crianças foram vítimas de crimes de abuso sexual por mais de três mil clérigos. Um escândalo para a igreja francesa que obrigou o episcopado a confessar “vergonha” e a pedir “perdão” às vítimas.

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