Escolha as suas informações

O médico comunista de Salazar
Portugal 11 min. 30.07.2022
Estado Novo

O médico comunista de Salazar

Um grupo de populares junto à campa onde se encontra sepultado Salazar.
Estado Novo

O médico comunista de Salazar

Um grupo de populares junto à campa onde se encontra sepultado Salazar.
Foto: AFP
Portugal 11 min. 30.07.2022
Estado Novo

O médico comunista de Salazar

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
A última etapa da doença de Salazar durou 11 dias. Esta é a história do médico comunista que tratou do ditador durante esses dias. Foi Manuel Souto Teixeira, reconhecidamente do Partido Comunista Português e dirigente da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), amplamente referenciado na PIDE, que assinou a certidão de óbito de Salazar. Salazar passou os seus últimos dias em estado de inconsciência. A última equipa médica do Hospital dos Capuchos, chefiada pelo professor Jacinto Simões, era constituída por oposicionistas. Se o ditador sonhasse...

Demitido sem saber, Oliveira Salazar regressa à residência oficial de São Bento no dia 5 de Fevereiro de 1969, após cinco meses de internamento na Cruz Vermelha, onde a sua vida andara no limbo. Antes de ter sido operado a um hematoma subdural intracraniano, o Patriarca de Lisboa, cardeal António Cerejeira, ministrara a extrema-unção ao seu velho amigo. Apesar da gravidade da situação, o sacramento foi algo precipitado. Salazar sobreviveria à cirurgia e a um AVC que o deixou em coma, dez dias depois da operação. Em como o presidente do Conselho ficou quase dois meses. A 15 de Novembro de 1968, quando saiu do coma profundo, Marcelo Caetano já era o presidente do Conselho.

A longa marcha da sua convalescença, uma imensa peça de teatro político, esteve em cena no palacete de São Bento durante mais de um ano e meio. No dia 15 de Julho de 1970, Salazar mergulha em agonia, vítima de uma grave doença infecciosa. À excepção do pessoal de enfermagem da Cruz Vermelha e dos agentes da PIDE, que ali se revezavam por turnos, em permanência tinha duas pessoas a acompanhá-lo. Maria de Jesus Caetano Freire, a sua inefável governanta. E Eduardo Coelho, médico de Salazar durante 22 anos.

A infecção generalizada que atacou Salazar causou diversas patologias. De acordo com Eduardo Coelho, registavam-se um edema pulmonar, focos de pneumonia, diversas perturbações cardiovasculares, uma grave insuficiência renal. Razão pela qual o médico internista de Salazar contactou o mais reconhecido nefrologista de então, o professor Jacinto Simões, professor universitário e médico nos Hospitais Civis de Lisboa. Jacinto Simões era filho de um ministro da I República, anti-fascista convicto, pertencera ao Movimento de Unidade Nacional Anti-fascista (MUNAF), era um dos fundadores do MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil, na companhia de Mário Soares – seu grande amigo de sempre -, Salgado Zenha, Júlio Pomar, entre muitas outras personalidades que se tornariam ilustres.

Salazar estava em estado semi-comatoso. Estava nu em cima da cama, com um lençol a cobrir as partes mais íntimas.

Manuel Souto, médico

Era um reconhecido oposicionista, embora fosse no caso mais reconhecido como um médico de excepção, eleito mais tarde como um dos grandes mestres na medicina portuguesa do século XX. Jacinto Simões era pioneiro no tratamento da insuficiência renal aguda por hemodiálise e por transplante. Em 1969, tinha conduzido cinco arrojadas operações de transplante renal, abrindo caminho para o futuro. No início dos anos 60, tinha fundado a Unidade de Reanimação no Hospital Curry Cabral. Não existia nada remotamente parecido nos Hospitais Civis de Lisboa. No início da década de 70, Jacinto Simões formava uma unidade similar no Hospital dos Capuchos, utilizando as técnicas mais modernas, que ele próprio havia trilhado.

No dia 15 de Julho de 1970, quando foi contactado pelo médico de Salazar, percebeu que o ditador tinha caído na sua especialidade. Depois de uma visita a São Bento nesse mesmo dia, com beneplácito presidencial, achou que a solução era instalar uma unidade de reanimação no próprio quarto de Salazar, que exigia cuidados continuados. E urgente hemodiálise. Um transplante nunca foi hipótese. Para além de ser demasiado inovador, não se adequava de forma alguma à condição clínica de Salazar, entre a vida e a morte. Foi assim que a vida do ditador ficou nas mãos de uma equipa de médicos, todos da oposição. Como Salazar, envolvidos numa estranha situação.


Um popular mostra um calendário de apoio a Salazar durante a manifestação pela construção do Museu do Estado Novo.
Salazar. A farsa
Quando Salazar saiu do coma, já não era presidente do Conselho. No entanto, durante quase um ano e meio, recebeu em São Bento os mais notáveis atores do Estado Novo, que com ele despachavam como se fosse o presidente.

Jovem médico com ficha na PIDE

Manuel Souto Teixeira ainda era jovem, mas já tinha uma vida de luta contra o regime fascista, sem ter pisado um metro quadrado de clandestinidade ou de exílio. Em 1958, quando aderiu ao PCP, era estudante de Medicina. Sempre no âmago das lutas académicas, motor para a grande agitação que se vivia em Lisboa, tendo por cenário o conturbado período das eleições presidenciais desse ano. Manuel Souto era apoiante de Arlindo Vicente, cuja candidatura se fundiu pouco mais tarde com a de Humberto Delgado, que faria estremecer o Estado Novo, com o mesmo resultado: foi “eleito” presidente da República Américo Tomás. O período que sucedeu as eleições foi de extrema repressão. Ainda para mais, para quem tinha feito parte da Comissão de Estudantes de apoio às candidaturas oposicionistas. Seria apenas uma questão de tempo até ser preso, Manuel Souto estava disso consciente. Foi por isso de decidiu interromper o curso de Medicina, para o trocar por uma farda. Para evitar consequências de maior, condenou-se a si próprio às Forças Armadas, desconhecendo os ventos que aí vinham. Em 1962, já durante a guerra colonial, foi mobilizado para Angola, onde permaneceu dois longos anos.

Quando regressa a Lisboa, como se tivesse acabado de cumprir pena num território sangrento, retoma o curso de Medicina. E a actividade política, nunca adormecida. Em 1969, quando é fundado o MDP/CDE – Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral -, Manuel Souto torna-se dirigente deste movimento anti-fascista. Se dúvidas havia na PIDE, teriam ficado desfeitas quando um amigo foi apanhado com o seu passaporte, quando tentava escapar-se para a Argélia. A sua ficha na polícia política era uma redundância.

Não tinha terminado o estágio assim há tanto tempo. Era médico no Hospital dos Capuchos, onde a sua vida profissional esteve ligada a vida inteira. No dia 15 de Julho de 1970, o professor Jacinto Simões fez-lhe um bizarro convite. Precisava de organizar uma equipa de médicos, para instalar uma unidade de reanimação no coração da ditadura. São Bento chamava por eles. Não era propriamente um convite. Teriam se ser simplesmente médicos, tratando o doente como um simples doente. O que, à partida, caía por terra. 

Um simples doente com 81 anos não alojaria em casa uma equipa de médicos. Jacinto Simões queria instalar em São Bento um rim artificial à cabeceira de Salazar. Manuel Souto era o mais novo desses médicos. Tinha feito já o internato geral nos Hospitais Civis de Lisboa. Escolhera a especialidade de Medicina Interna. Como era protocolar, já cumprira seis meses em Neurologia, outros seis em Cirurgia Geral, cumprindo naquela altura o período semestral em Infectocontagiosas. Era nesse serviço, do qual Jacinto Simões era director clínico, que funcionava a Unidade de Reanimação. Foi essa a lógica de se ter um dia transformado num dos médicos de Salazar. Tinha 34 anos. Hoje, com 84 anos, é o último sobrevivente destes acontecimentos.

Mostra de objetos pessoais de Salazar expostos na sua terra natal, Vimieiro, Santa Comba Dão.
Mostra de objetos pessoais de Salazar expostos na sua terra natal, Vimieiro, Santa Comba Dão.
Foto: Nuno André Ferreira/Lusa

Um comunista no quarto do ditador

Na manhã de 16 de Abril de 1970, com a presença do próprio Jacinto Simões, o rim artificial é instalado no quarto de Salazar, junto à sua cama. Manuel Souto chegou a São Bento já de tarde. Ia sozinho. “Não ia assustado, nem coisa que o valha. Ia até bastante calmo”. Tinha decidido tratar o doente como um simples doente. Recebeu-o a inevitável D. Maria, com o seu ar austero, perscrutador. Ele é que era o médico, ela é que lhe fazia uma radiografia. 

Salazar estava cheio de fios e de tubos ligados a si. Era, em si, um mecanismo.

Felisberto Pica, médico

Manuel Souto identificou-se, sob os olhares mais distantes dos agentes da PIDE. Maria de Jesus conduziu o jovem médico ao velho ditador, até para este aprender os cantos à casa. Subindo as escadarias do palacete ao primeiro andar, se seguisse em frente encontraria uma porta, que dava para a sala onde o presidente do Conselho costumava trabalhar, paredes-meias com os seus aposentos, por sua vez contíguos à sala de jantar, que tinha ao lado um quarto de banho, no fundo do corredor, quando se virava à esquerda, saindo da escadaria central. Ao seu lado direito, ficava o quarto de D. Maria.

Fazia muito calor. “Salazar estava em estado semi-comatoso. Estava nu em cima da cama, com um lençol a cobrir as partes mais íntimas”. Salazar nunca ficava só. “Estava sempre acompanhado por duas enfermeiras”. Às vezes, eram freiras. A porta do seu quarto estava sempre fechada. O quarto era simples: “tinha uma cama, uma janela, uma estante com livros e um grande guarda-fatos”. E um rim artificial. 

No pequeno quarto do lado, escritório de Salazar, havia um divã para os médicos dormirem. Manuel Souto ficou muito impressionado com a literatura em estante. Eram quase todos livros de carácter religioso, muitos deles relacionados com a temática de Fátima. Mesmo sendo da oposição, surpreendia-o que um estadista como Salazar não guardasse outra plêiade de livros. A sala de trabalho de Salazar era mais uma igreja que um escritório. No armário tinha guardado paramentos. À porta do quarto havia uma vela com cerca de um metro, sempre acesa. A meio do quarto, existia um genuflexório, com um livro de missa aberto e outros enfileirados.

Os médicos permaneciam em São Bento por turnos. Da equipa seleccionada por Jacinto Simões, para além de Manuel Souto, havia mais quatro médicos, todos da Unidade de Reanimação do Hospital dos Capuchos: Villaret (irmão de João Villaret), Conceição Guerra e Felisberto Pica. Ainda uma outra médica de Medicina Interna, cujo nome Manuel Souto não consegue recordar. Todos oposicionistas. Conceição Guerra tinha feito especialização em Paris com rins artificiais (hemodiálise). Todos tinham excelente reputação enquanto médicos. 

Ao doutor Pica precedia-o a mais alta insígnia dos estudantes-boémios de Coimbra. Um exemplar raro, com raro sentido de humor. Foi ele quem se lembrou de alcunhar o doente. “Salazar estava cheio de fios e de tubos ligados a si. Era, em si, um mecanismo”. Sempre que chegava a São Bento, Pica perguntava: “Então, como é que está o nosso PBX?” Do ponto de vista estrictamente médico, nos 11 dias que decorreram em São Bento, as respostas a essa pergunta não eram propriamente animadoras. Todos sabiam o que estava para acontecer. 


António de Oliveira Salazar recebe um grupo de estudantes de Coimbra pouco depois de ter recebido alta hospitalar.
Salazar. 'Requiem' por uma cadeira de lona
Até 15 de julho de 1970, Salazar foi acompanhado por 48 médicos das mais diversas especialidades. Não se sabe se foi Salazar quem traiu a cadeira ou se foi esta que traiu o ditador.

Na pequena secretária no quarto dos médicos, estava guardada uma carta com o protocolo a seguir quando António de Oliveira Salazar desse o último fôlego. “Salazar tinha uma infecção urinária grave. E foi daí que resultou a sua insuficiência renal”, diz Manuel Souto. Foi Cândido da Silva, urologista de Salazar, quem primeiro abordou Jacinto Simões.

O rim artificial era montado todos os dias por Conceição Guerra. “Ainda levava perto de uma hora a montar. Não era um rim como hoje são”. Embora na altura constituísse alta tecnologia, era na verdade um engenho algo rudimentar. “Tinha um conjunto de placas sobrepostas. Na parte interior, tinha uns sulcos por onde circulava a água, divididos por uma espécie de papel celofane. Não era celofane, atenção, era um papel especial”. Na casa de banho, no corredor do fundo, ficavam as máquinas de desmineralização da água, das quais partia um tubo, que por sua vez partindo da pressão da torneira, que atravessava a casa até à cama de Salazar, partindo de lá outro tubo, que desembocava directamente na pia do quarto de banho. 

Os tubos estendiam-se pelo corredor, entrando pela porta do quarto dos médicos, e depois pela porta do quarto de Salazar. Certa vez, recorda Manuel Souto, o doutor Pica resolveu colocar o tubo de escoamento à janela de Salazar, regando as flores do jardim de São Bento com o refluxo do ditador. O jardineiro, pôs-se a gritar para o primeiro andar: “Ó de casa. Ó de casa”. Pica foi à janela e disse-lhe: “O que foi? O senhor presidente não pode fazer chichi?” O jardineiro foi à sua vida.

Os médicos faziam turnos em São Bento. Manuel Souto almoçou e jantou muitas vezes com D. Maria, que só tinha um tema. “Estava sempre a contar histórias do senhor presidente do Conselho. Contava-as com indisfarçável orgulho. Era obcecada por Salazar”. Manuel Souto, que grande parte da sua vida tinha lutado contra o fantasma do quarto do lado, encontrava-se na circunstância de zelar pela sua vida. Por outro lado, nunca tinha ganho tanto na sua vida de médico no Hospital dos Capuchos, do qual se reformou em 2003 como director clínico. “Comparado com o que então ganhava, ganhei uma fortuna nestes dias”.

O estado de Salazar deteriorava irreversivelmente. Falência, após falência, o seu corpo sofria as decrepitudes de um homem vulgar. “Até que um belo dia (27 de Julho de 1970) estava lá eu quando ele resolveu deixar de respirar”. Manuel Souto foi acordado pelas enfermeiras de serviço, no caso eram freiras: “Senhor doutor, senhor doutor, o senhor presidente deixou de respirar”. Era o único médico presente. 

Seguiu o protocolo: “Massagens cardíacas, seguido de choques eléctricos para tentar a reanimação”. Não havia nada a fazer. Às 09h15, Salazar foi declarado morto. Manuel Souto abriu a carta que estava na secretária. Tinha um número de telefone, para o qual ele devia ligar. Foi a sua primeira chamada do dia. A segunda, só a fez em casa, depois de em São Bento ter assinado a certidão de óbito do ditador: “Liguei para um amigo do PCP para lhe dar a notícia”. O ditador tinha morrido. A ditadura nem por isso.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Estado Novo
Quando Salazar saiu do coma, já não era presidente do Conselho. No entanto, durante quase um ano e meio, recebeu em São Bento os mais notáveis atores do Estado Novo, que com ele despachavam como se fosse o presidente.
Um popular mostra um calendário de apoio a Salazar durante a manifestação pela construção do Museu do Estado Novo.
Até 15 de julho de 1970, Salazar foi acompanhado por 48 médicos das mais diversas especialidades. Não se sabe se foi Salazar quem traiu a cadeira ou se foi esta que traiu o ditador.
António de Oliveira Salazar recebe um grupo de estudantes de Coimbra pouco depois de ter recebido alta hospitalar.