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Sai um “Brexit” suave para os “expatriados” britânicos em Portugal
Portugal 13 min. 10.09.2019

Sai um “Brexit” suave para os “expatriados” britânicos em Portugal

Sai um “Brexit” suave para os “expatriados” britânicos em Portugal

Foto: dpa
Portugal 13 min. 10.09.2019

Sai um “Brexit” suave para os “expatriados” britânicos em Portugal

“Expatriados” britânicos são tranquilizados por Portugal, enquanto que portugueses no Reino Unido são confrontados com o que significa ser “emigrante” num país onde cresce a xenofobia. No dia seguinte a um Brexit sem acordo, a 31 de outubro, as diferenças entre as duas comunidades não serão apenas de léxico.

A comunidade “expatriada” britânica que reside e trabalha em Portugal, onde é bem recebida sem qualquer animosidade, assiste com alguma ansiedade e estupefação às notícias sobre a evolução do Brexit, mas em simultâneo com uma certa tranquilidade garantida por Lisboa que contrasta com o sentimento de se viver no limbo experimentado pelos “emigrantes” portugueses naquele país.

Em Portugal, os britânicos têm ouvido repetidas declarações do governo para estarem “tranquilos”, assim como os turistas, com Lisboa a acreditar que aconteça o que acontecer “haverá igual atitude” do “velho aliado britânico”.

As palavras tranquilizadoras do governo português não têm tido eco equivalente no Reino Unido onde vivem e trabalham 400 mil portugueses e onde começam a ser frequentes ataques e insultos racistas e xenófobos.

“As medidas relativamente aos cidadãos britânicos residentes em Portugal podem resumir-se numa frase: estejam tranquilos, todos os vossos direitos estão respeitados e temos a certeza de que haverá igual atitude do lado do nosso velho aliado britânico”, afirmou, uma vez mais, recentemente, o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Depois do Primeiro-ministro António Costa, Augusto Santos Silva reiterou que Portugal “não pedirá visto e que encontrará canais dedicados aos visitantes que cheguem do Reino Unido aos aeroportos onde mais chegam, de Faro e do Funchal, e esperar reciprocidade para os cidadãos portugueses que trabalham e vivem no Reino Unido e para os turistas portugueses”. 

“Isentamos de visto os cidadãos britânicos por nossa iniciativa, não exigimos regulamentos adicionais aos operadores de transporte rodoviário britânico por nossa responsabilidade, consideramos que o Reino Unido é um país confiável em matérias de saúde animal e controlos sanitários, à nossa responsabilidade”, referiu.

Foto: dpa

Mesmo com todas estas, os britânicos que vivem Portugal mantêm reservas em relação às imprevisíveis e temidas consequências do Brexit sobre o seu futuro próximo. Questões ligadas à emigração e à livre circulação de pessoas e bens, já para todos tão familiares, poderão ser drasticamente postas em causa com a saída do Reino Unido da União Europeia. No imediato, a desvalorização da Libra é a maior preocupação para milhares de membros da terceira idade desta comunidade que integra dezenas de milhar de reformados que sentem no bolso todos os meses as suas pensões a encolherem com as quedas constantes no valor da sua moeda nacional.

Os nacionais britânicos perderão automaticamente todos os direitos de cidadania no dia em que o Reino Unido se separar definitivamente da União Europeia, a menos que sejam negociados acordos separados com cada um dos antigos 26 parceiros. Ou seja, acaba a liberdade de circulação, o direito a viver, estudar ou trabalhar em qualquer estado membro, o direito a receber benefícios sociais, de saúde, direitos de consumidor ou políticos.

 “Stressados, confusos e preocupados”

“Estamos numa situação em que não sabemos se vamos manter os nossos direitos na Europa, perdê-los, ou se vamos poder continuar a viver como até aqui, sem limitações de trabalho e circulação”, diz Tig James, uma britânica de 58 anos que co-lidera um grupo de britânicos preocupados com o Brexit no Algarve.

A viver há 13 anos em Portugal, Tig James diz que “há muitos cidadãos britânicos stressados, confusos e extremamente preocupados com o que o amanhã lhes pode trazer”.

Na sua opinião, um elevado número de pessoas que gerou os seus rendimentos no Reino Unido estão a ver agora os mesmos a reduzirem-se dramaticamente devido às taxas de juro, à queda da Libra e às dúvidas sobre a situação, nomeadamente os que recebem pensões de reforma do Reino Unido e que desconhecem se as mesmas serão ou não atualizadas.

“Os britânicos estão preocupados por não saberem se vão continuar a pagar as suas contas, se continuarão a ser bem-vindos em Portugal, dada a legislação de reciprocidade portuguesa”, afirma, sublinhando que “nenhuma” dessas preocupações tem ido aliviadas pelas últimas declarações do governo britânico.

“Viver no limbo, como temos estado a viver nos últimos três anos, é cansativo e essa pressão começa a tornar-se intolerável para muitos”, lamenta-se.

Para Tig, todas essas preocupações poderiam ser erradicadas instantaneamente se o Reino Unido e a UE acordassem na manutenção dos direitos dos milhões de cidadãos britânicos na Europa e europeus no Reino Unido.

 “E a Escócia?”

Gordon Young é um escocês de 56 anos que vive em Portugal há 24 anos. O 'Brexit' é para ele uma palavra que já entrou no léxico da língua inglesa e que adquiriu um lugar que seguramente figurará em qualquer dicionário atualizado.

Diz que é “uma palavra ambígua” e pergunta-se se será “um substantivo, um advérbio ou um verbo”, sublinhando: “To do a Brexit também é um paradoxo”.

Questões linguísticas à parte, Gordon Young considera que, para os escoceses, o Brexit é um desafio que os confronta como nação com a posição que desejam ter na cena internacional.

A maioria dos escoceses votou NÃO à independência, mas a maioria votou SIM à permanência na União Europeia, o que criou uma contradição nos termos, sublinha.

“O Reino Unido vai deixar a UE, e onde é que isso deixa Escócia”, pergunta, exclamando: “Entre a espada e a parede!”

Para Gordon Young, a decisão do Parlamento escocês de requerer outro referendo sobre a independência coloca a pressão sobre o governo britânico. “Se o Brexit for duro em termos negociais por parte da União Europeia, então suponho que o povo escocês deveria escolher o caminho da integração europeia (supondo que é isso que querem!) ”, diz.

Foto: AFP

“Para que isso aconteça, a Escócia teria de votar pela independência e não faço previsões sobre esse cenário. É tudo ainda muito fluido. Quem jamais pensaria que Donald Trump venceria a Presidência dos EUA?”, diz.

“Em suma – ironiza - se o resto do Reino Unido quer fazer comércio com a Gronelândia (sem desrespeito) ou com os povos indígenas da América do Norte, deixemo-los ir por diante, mas a Escócia merece uma voz melhor na arena internacional”, conclui.

“A minha geração vai pagar o preço”

R. Lake é uma jovem mulher de 33 anos que reside permanentemente em Portugal há cerca de um ano. É casada com um português e tem uma filha portuguesa.

“Sinto-me em baixo. Esta questão foi maioritariamente votada pelos mais velhos e não pelos jovens. Mas é a minha geração que vai pagar o preço”, lamenta-se.

A minha solução é ter residência em Portugal, obter a nacionalidade e o passaporte e integrar-me”, explica.

“Nunca tive de pedir um visto para me deslocar na Europa. E espero nunca ter de pedir porque o meu marido é português. Isso representa um triste capítulo, não ter liberdade de circulação”, diz com evidente tristeza e acrescenta que isso vai afetar o trabalho do seu marido que é fotógrafo de moda. “As pessoas têm de ir e trabalhar em Londres e agora isso não vai ser tão fácil…”

“Penso que o Reino Unido é um país europeu, talvez o país se reforce na Commonwealth. Não é o ideal, mas espero que o Reino Unido descubra um caminho…”, preconiza.

“Quanto aos meus amigos e aos meus clientes (venda de propriedades), estão muito preocupados com os cuidados de saúde”, diz, perguntando-se: “Quem os vai pagar? A maioria tem seguros, independentemente do que vai suceder”, diz.

Foto: AFP

Para esta jovem, começar um negócio agora no Reino Unido, sem o mercado europeu, é arriscado. “Porque havia de alguém de querer-se instalar-se no Reino Unido se tem todos os restantes países da UE?”, questiona-se. “Pessoalmente, acho que o Brexit em termos económicos e financeiros não faz sentido”.

Lake faz questão de recordar que quem decidiu ativar o artigo 50, conducente à saída do país da União Europeia, nem sequer foi eleita (Theresa May).

Para ela, um segundo referendo “não faria grande diferença agora. O país continuaria dividido. A nossa melhor hipótese é garantir um bom acordo de separação”.

Em contraponto, acha que Portugal “está a ter uma boa política para atrair investimentos, seja a nível de facilidades com os vistos Gold e que o país pode beneficiar com o Brexit. “Espero que o consiga. Portugal merece!”, diz, sublinhando: “Amo este país!”

A britânica que nãos e cansa de elogiar a vida em Portugal, chama a atenção para a existência de “milhões de reformados espalhados pela Europa que agora temem ficar abandonados”.

Numa derradeira nota de otimismo acredita que “no final tudo acabará por ficar bem. De uma maneira ou de outra” e dá um conselho aos portugueses: “Continuem a permitir gastar dinheiro no vosso maravilhoso país e beneficiem das pessoas que vão abandonar o Reino Unido. O vosso país é maravilhoso. Tem os seus problemas, mas é único. Portugal merece ganhar com a saída do Reino Unido da UE, atraindo empresas e pessoas que queiram aceder ao mercado comum.

“Tenho uma filha portuguesa de três anos de idade. Creio que ela ficará bem, porque também tem o passaporte português. De contrário ficaria muito triste e preocupada.

Eu estou a tentar persuadir os meus pais a mudarem-se para Portugal para poderem ter uma vida segura e saudável. O Reino Unido não é nenhum mar de rosas. As coisas são difíceis em todo o lado”.

O frágil rugido do velho Leão

Robin Apthorp é um tranquilo solicitador reformado que vive há 18 anos em Portugal, mas que não esconde alguma ansiedade por desconhecer o que vai mudar no futuro devido ao Brexit.

A sua primeira reação é relativa ao problema da aquisição de propriedades e ao pagamento de impostos sobre as mais-valias das transações.

“Se vendermos aqui uma propriedade temos de pagar impostos pelas mais-valias, a menos que as reinvistamos em três anos noutra propriedade. No Reino Unido e em Espanha é fácil conseguir empréstimos sobre propriedades. Se isso vai continuar após o Brexit não sei”, afirma.

Considera que o que se pode fazer é regressar ao Reino Unido e comprar lá uma propriedade em três anos, evitando perdas de até 25%. “Mas se calhar essa opção já não estará aberta depois de sairmos. Voltar ao Reino Unido poderia significar uma enorme perda de capital”, diz com ansiedade.

Apthorp chama a atenção para outro problema que está a surgir e a afetar os expatriados britânicos e que tem de ver com a desvalorização da Libra esterlina. “Isso começa a afetar fortemente a vida das pessoas que vivem aqui das suas pensões pagas nessa moeda”, sublinha.

Embora considere não achar que o Brexit tenha sido uma boa decisão, até porque a Grã-Bretanha foi beneficiada de boas condições para permanecer na Europa e no mercado comum, e provavelmente teria mais influência no futuro se ficasse do que saindo, acha que “tudo vai acabar bem”.

“Penso que sobreviveremos e, eventualmente, vamos sair bem, provavelmente melhor do que se tivéssemos ficado na UE”, antecipa confiante.

Uma coisa é certa, diz: “a responsabilidade pelo Brexit efetivamente é do eleitorado, ou seja, das pessoas que votaram no referendo. A maioria, embora por margem estreita, votou a favor da saída da União Europeia”.

Apthorp não esconde as suas preferências políticas e torna evidente ser um decidido apoiante dos Tories ao afirmar que, “se David Cameron não se tivesse demitido, estaria a liderar a Grã-Bretanha neste processo de saída da UE”. O velho inglês considerou Theresa May, seguindo a orientação do referendo, foi uma boa e eficaz primeira-ministra”.

Foto: PA Wire/dpa

“No fim de contas estou otimista”, diz Apthorp, considerando mesmo que a saída da UE “não será um desastre” para a Grã-Bretanha. “Não vejo as coisas assim. Penso que é apenas uma grande pena acontecer neste momento”.

Nitidamente defensor da velha ordem britânica, diz que o país se queixa principalmente da emigração descontrolada proveniente da europa oriental e dos regulamentos de Bruxelas que afirma “dizem como se deve viver no Reino Unido, como os Direitos humanos e coisas desse tipo”.

Para o solicitador, “há a perceção entre os trabalhadores britânicos de que os seus postos de trabalho estão ameaçados devido à imigração descontrolada de pessoas, proveniente principalmente da Europa Oriental, que afluiu em massa ao Reino Unido e que aceita trabalhar pelo salário mínimo”.

“O futuro não será tão assustador como parece”, diz convicto, explicando: “Vai ser inicialmente uma viagem turbulenta. Nos próximos dois anos, durante o processo de negociação de saída da UE e de renegociação de novos acordos comerciais, mas suspeito que leve mais tempo”.

“Muitos países estão interessados em fazer negócios com o Reino Unido. Se não pagarem tarifas aduaneiras na Europa acho que sairão disto muito bem. A Alemanha com certeza que vai continuar a querer os seus BMW e Mercedes no Reino Unido que é um mercado muito importante para a indústria automobilística alemã”, antecipa.

Repisando a retórica dos “Brexiteers” garante que, na Holanda ou França, há cada vez mais vozes a apoiarem a saída da União Europeia e “há imensa gente a dizer que a União Europeia está condenada a acabar de qualquer modo”.

Num velho assomo do antigo poder imperial britânico diz aborrecido: “E agora temos Gibraltar. Ao contrário das Falklands, faz parte da Europa continental, e mesmo á nossa porta. No entanto, o rochedo continuará a ser britânico e acompanhará o Brexit."

“…Esta é a minha casa”

Um outro britânico ouvido pelo Contacto e que pediu o anonimato, disse-nos: “Tendo vivido mais tempo em Portugal do que no Reino Unido considero estar em minha casa. A minha vida pessoal e profissional beneficiou imenso com a liberdade de movimentos dentro da UE. Nunca pensei que a UE fosse perfeita, nem nunca apoiei tendências federalistas na Europa.

Continuo a pensar que a maioria dos países guarda a sua própria identidade e sou definitivamente britânico. Se tivesse tido hipótese de votar, votaria pela permanência, mas os meus irmãos que vivem no Reino Unido são ferozmente a favor do Brexit, e dizem-me que eu só os poderia entender se vivesse no Reino Unido”.

Este súbito de Sua Majestade acha que “será encontrada uma solução amigável” e acrescenta sentir algum conforto com as garantias dadas pelos políticos portugueses que sugerem que, pelo menos em Portugal, não haverá dificuldades.

 “A minha posição é mais relaxada do que a de outros, porque já me candidatei à cidadania portuguesa e não tenciono regressar ao Reino Unido para viver”.

Como membro da UE, o Reino Unido integra cerca de 40 acordos comerciais que conferem mercados preferenciais aos estados da UE em 70 países. Caso se verifique uma situação de “não acordo” com o Brexit, Londres perderá o acesso preferencial a esses mercados com perdas estimadas de comércio avaliadas em pelo menos 15 mil milhões de euros, ou seja 7 por cento do total das suas exportações para a União Europeia, estima a UNCTAD, a Organização das Nações Unidas para o Comércio.

A imagem do Reino Unido degradou-se após a vitória do Brexit no referendo de 2016, sobretudo entre os mais jovens europeus. Segundo o instituto IPSOS, entre 36% dos europeus, entre os 18 e os 36 anos, apenas 17% consideram positiva a imagem do país.

Sérgio Ribeiro Soares

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