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Sílvia Nunes. “Não consegui trabalho como enfermeira em Portugal”
Portugal 4 min. 13.03.2019

Sílvia Nunes. “Não consegui trabalho como enfermeira em Portugal”

Sílvia Nunes. “Não consegui trabalho como enfermeira em Portugal”

Foto: DR
Portugal 4 min. 13.03.2019

Sílvia Nunes. “Não consegui trabalho como enfermeira em Portugal”

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
A portuguesa Sílvia Nunes foi galardoada com o prémio britânico Great British Care Awards, na categoria de melhor enfermeira pela inovação, criatividade e atenção no trabalho, anunciaram esta semana os organizadores. O Contacto falou com ela.

“A Sílvia representa o melhor da enfermagem num ambiente de lar. Ela é inovadora, criativa, apaixonada e faz tudo pelos residentes, famílias e pela sua equipa. Dá às pessoas o valor e a dignidade que elas merecem. Esforça-se para promover a enfermagem de alta qualidade dentro da sua equipa e é um excelente exemplo”, disse a organização Care England.

Os prémios nacionais foram atribuídos numa cerimónia, realizada na sexta-feira, com mais de um milhar de profissionais de enfermagem e cuidados de saúde em Birmingham que tinham sido vencedores nas respetivas regiões.

Sílvia Nunes, de 33 anos e natural de Vila do Conde, chegou ao Reino Unido em 2014 para procurar trabalho na sua área porque não conseguiu encontrar um trabalho como enfermeira em Portugal.

Apesar das dificuldades iniciais com a língua inglesa, ao fim de cerca de um ano foi promovida a diretora clínica e em setembro de 2016 a diretora adjunta do lar Ford Place, especializado em cuidados paliativos.

No ano passado foi finalista não vencedora, pelo segundo ano consecutivo, dos “National Care Awards”, também do Reino Unido.

Não conseguia ser enfermeira em Portugal?

Estava a trabalhar num apoio domiciliário em Vila do Conde e não conseguia nenhum trabalho a tempo inteiro como enfermeira. Cada vez que concorria para alguma posição ou não me chamavam ou não me ligavam de volta. Não consegui nenhum trabalho como enfermeira em Portugal.

E não se pode dizer que não são precisos enfermeiros em Portugal.

Os enfermeiros são precisos em Portugal, mas os locais para que eu estava a concorrer, hospitais e unidades de cuidados continuados, só estavam a pedir enfermeiros com experiência. E eu, na altura, tinha acabado de finalizar o curso. Licenciei-me em 2013 e não estavam a recrutar pessoas como eu.

Foi duro emigrar?

Foi duro. Foi uma decisão que eu não queria ter tomado até porque sou filha de pais que são emigrantes, estiveram em Angola muitos anos. Sempre os olhei com muito orgulho, mas nunca quis ter aquela vida de estar longe da família e no fim tive de fazer a mesma vida: abdicar de Portugal e de estar com a minha família para encontrar um trabalho em Inglaterra.

Li numa entrevista sua que não foi fácil, quando foi para aí nem inglês sabia falar muito. Como foi esse processo?

Foi muito difícil e muito árduo. Não entendia muito do que diziam. Conseguia ler melhor do que falava. Não sabia o som das palavras. Não conseguia falar direito e metia os pés pelas mãos. Mas sempre tive pessoas que trabalhavam comigo bastante atenciosas. Sempre me ajudaram e ensinaram-me a pronunciar. Ainda hoje, quando faço um erro de ortografia, a minha chefe corrige-me.

Já ganhou quantos prémios?

No total estive nomeada duas vezes para uma competição que se chama os National Care Awards. Nunca ganhei mas cheguei sempre aos cinco finalistas. Depois fui nomeada para os Great Brtitish Care Awards, que é uma competição que começa a nível regional, e na qual eu ganhei a distinção de melhor enfermeira da região Leste de Inglaterra; os vencedores regionais vão para uma final que terminou na sexta-feira à noite, com a entrega de prémios, que eu ganhei.

Tem um certo orgulho...

Sim, muito. Lutei muito para chegar aqui e luto bastante para cá estar. Sinto que o meu trabalho foi reconhecido.

Vejo que parte do seu trabalho é arranjar soluções novas e melhores para as pessoas a seu cuidado.

Tenho um apoio muito bom por parte dos diretores e dos meus superiores. Quando vejo alguma coisa que se pode melhorar, proponho e vemos se é possível de uma forma orçamental. É muito bom, porque é difícil haver diretores e patrões que tenham essa preocupação na satisfação dos clientes que temos aqui no edifício. Neste aspeto são muito bons. Estão abertos às nossas sugestões para melhorar o trabalho. Porque é isso que eles querem ter: uma companhia com lares de excelência em Inglaterra.

Está a ver-se ficar aí para sempre?

Gostava muito de voltar a Portugal e voltar para casa. Talvez seja uma coisa muito difícil de alcançar neste momento, mas quem sabe um dia...

O Brexit vai piorar a sua situação?

Não creio. Tenho muito apoio dos colegas e dos meus diretores, não sinto qualquer tipo de desagrado na rua. As pessoas já me conhecem na zona, fazemos parte da comunidade em que estamos inseridos e estamos bem.

Há milhares de enfermeiros portugueses que trabalham no estrangeiro. O que seria necessário para que eles regressassem a Portugal?

Acima de tudo as chefias tinham de aprender a liderar. O que falta em Portugal é aprender a liderar unidades de saúde. As chefias deviam ouvir um pouco mais os subordinados. Uma equipa é a força de todos juntos. Para isso é preciso saber trabalhar em equipa e valorizar a opinião e a ação de todos em prol das metas comuns. Os enfermeiros precisam de ser ouvidos, de ter direito a uma voz e uma palavra. Mesmo que nem tudo seja possível é necessário diálogo. É isso que falta. 

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