Escolha as suas informações

Rui Patrício recorda invasão a Alcochete. "Só dava para pensar 'não nos matem'"
Portugal 5 min. 07.01.2020 Do nosso arquivo online

Rui Patrício recorda invasão a Alcochete. "Só dava para pensar 'não nos matem'"

Arguidos entram no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, onde decorre o julgamento do processo do ataque à academia de futebol do Sporting em Alcochete, em Setúbal, 21 de novembro de 2019.

Rui Patrício recorda invasão a Alcochete. "Só dava para pensar 'não nos matem'"

Arguidos entram no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, onde decorre o julgamento do processo do ataque à academia de futebol do Sporting em Alcochete, em Setúbal, 21 de novembro de 2019.
Foto: LUSA
Portugal 5 min. 07.01.2020 Do nosso arquivo online

Rui Patrício recorda invasão a Alcochete. "Só dava para pensar 'não nos matem'"

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
O guarda-redes que se formou e fez carreira no Sporting descreveu momentos de terror e reforçou a tese da ausência de relação do plantel com o então presidente Bruno de Carvalho. Assegura que viu "Bas Dost a levar pontos na cabeça e o mister Jorge Jesus a sangrar da boca e do nariz".

O antigo guarda-redes e capitão do Sporting, Rui Patrício, descreveu, esta segunda-feira, em tribunal, as agressões na academia do Sporting, em Alcochete, a 15 de maio, de 2018. 

O jogador dos Wolves fez o depoimento na 16° sessão do julgamento via Skype, a partir de Wolverhampton. Descreveu momentos de terror e garantiu que naquela tarde "só dava para pensar 'não nos matem'". 

O guarda-redes que, na altura era o jogador mais antigo do clube de Alvalade, foi obrigado a recordar o momento em que os adeptos entraram pelo balneário.  "Quando abrem a porta do balneário começaram a entrar uns atrás dos outros, entraram e começaram a agredir toda a gente, entraram com muita agressividade. Eles vinham com tudo, eu não sei se vinham para matar mas da forma que entraram", reforçou. 

Foto: Reprodução CMTV .

"Dirigiram-se para o William Carvalho, tentei separá-lo. Eu pedi calma, juntaram-se à nossa frente, disseram para tirarmos a camisola, que éramos uma vergonha e que não merecíamos a camisola. Um agarrou-me o braço e tentou torcer. Disse: 'Estás aqui? Estás a rir? Queres ir embora? Parto-te a boca toda", relatou. 

O guarda-redes contou ainda que William Carvalho foi agredido com murros no peito. "Havia muita confusão não dava para perceber quem estava a ser agredido, havia fumo, havia gritos", explicou mesmo antes de garantir que, nos minutos que se seguiram à invasão, viu "Bas Dost a levar pontos na cabeça e o mister Jorge Jesus a sangrar da boca e do nariz", quando o agora treinador do Flamengo foi ter com os jogadores ao balneário. 

Relação tremida com o presidente

O futebolista que vestiu a camisola de Alvalade 467 vezes revelou que, nessa altura, "já não havia" qualquer relação com Bruno de Carvalho que, depois do jogo em Madrid, criticou o plantel com o objetivo, diz, de "tentar virar os adeptos contra os jogadores".

Usou a imagem da reunião entre o plantel e a direção depois da derrota contra o Atlético de Madrid, depois dos adeptos se terem dirigido com violência a Jorge Jesus, para sustentar a argumentação. 

"Bruno de Carvalho tinha imagem forte com os adeptos e impacto neles. Sei que o William tinha dito que o presidente tinha mandado partir os nossos carros. Falou disso na reunião e ele negou. Não sei que relacionamento tinham. Mas Bruno de Carvalho e Mustafá conheciam-se. O que Bruno disse na reunião foi que se fosse para agredir alguém, não precisava de ninguém. Na reunião, o Bruno de Carvalho ligou ao Mustafá a perguntar se tinha mandado agredir ou partir os carros e o Mustafá disse que não", recordou o jogador que começou a carreira no Sporting. 

Patrício também recorreu à última jornada do campeonato que ditou o afastamento do Sporting da Liga dos Campeões para retratar as alegadas alterações de humor do presidente dos Leões. Contou que "após jogo da Madeira, no dia seguinte, houve reunião com administração e Bruno de Carvalho teve um comportamento completamente diferente, num tom mais calmo. No fim ainda disse 'somos uma família. Estou aqui para vocês. Algum problema falem com o Geraldes ou liguem para mim. Acuña porque fizeste isso e logo ao chefe da claque? Agora tenho um problema tremendo para resolver. Aconteça o que acontecer, quero que estejam bem para a final da Taça'. No mesmo dia houve uma segunda reunião. Foi Jesus que avisou que o presidente vinha pedir desculpa. Essa reunião acabou com ele a retirar a suspensão, a dizer ao mister que podia convocar quem quisesse, mas os processos disciplinares continuavam". 

Ainda sobre o encontro, Patrício relatou que Bruno de Carvalho "virou-se para o Acuña e perguntou ‘porque é que fizeste isso, agora tenho um tremendo problema para resolver, estiveram toda a noite a ligar, mas vou tentar resolver’".

O ex-capitão do Sporting contou ainda que nessa reunião Bruno de Carvalho quis saber se o plantel estava apto para jogar a final da Taça de Portugal contra o Desportivo das Aves, marcada para o domingo seguinte, 20 de maio. 

"O jogo foi triste ontem [contra o Marítimo], não conseguimos o objetivo, mas agora o jogo é outro, é a final da Taça [de Portugal]. Aconteça o que acontecer, vocês vão estar bem para jogar a final da Taça? Eu interpretei que iria haver mudança de treinador", referiu. 

Julgamento sem fim à vista 

O julgamento prossegue esta terça-feira. Num dos depoimentos mais aguardados, Jorge Jesus vai testemunhar em videoconferência a partir das 14h.

Convocado para depôr esta manhã, Ruben Rubeiro não compareceu. A Lusa conta que o advogado tinha, inclusivamente, o telemóvel desligado. A juíz que conduz o processo já fez saber, entretanto, que será marcada nova data para a inquirição do futebolista, que se constituiu assistente no processo e que é um dos atletas que rescindiu com o Sporting após o ataque à academia.

Bruno de Carvalho, Mustafá, líder da Juventude Leonina, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do Sporting, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro. Estes 97 crimes foram classificados como terrorismo.

Os três arguidos respondem, ainda, por um crime de detenção de arma proibida agravado. Mustafá responde ainda por tráfico de estupefacientes, segundo a acusação do Ministério Público.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à academia, o MP imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, também estes classificados como terrorismo.

Os 41 arguidos vão responder, ainda, por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

No dia 15 de maio de 2018, a equipa de futebol do Sporting foi atacada na Academia do clube por um grupo de cerca de 40 alegados adeptos encapuzados, que agrediram técnicos, jogadores e staff.




Notícias relacionadas

Bruno de Carvalho: "O Benfica anda desnorteado!"
O presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, atacou na terça-feira, na sua página Facebook, o Benfica, ao dizer que o clube da Luz está desorientado e que manipula a sua história, números de sócios e de títulos.