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Ricardo Araújo Pereira. “Que uma porta-voz passe a ser porta-voza parece-me uma estupideza”
Ricardo Araújo Pereira.

Ricardo Araújo Pereira. “Que uma porta-voz passe a ser porta-voza parece-me uma estupideza”

Foto: Estelle Valente
Ricardo Araújo Pereira.
Portugal 4 min. 05.04.2018

Ricardo Araújo Pereira. “Que uma porta-voz passe a ser porta-voza parece-me uma estupideza”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Deixou a salvação do mundo para a Miss Universo. Só sobrava a genialidade atormentada ou a engorda. Como não tinha qualificações para a primeira, optou pela segunda, garante RAP em entrevista por e-mail.

Consta que as pessoas que têm um grande martelo acham que todos os problemas são pregos. Nesse sentido, os humoristas podem ter uma sensibilidade mais apurada sobre questões de liberdade, e provavelmente algumas mulheres feministas uma atenção mais alerta para palavras que eventualmente as discriminem. Sendo certo que as palavras não são pedras, mas têm uma importância decisiva na forma como pensamos e orientamos a nossa vida, conversámos por e-mail com alguém que vive delas: Ricardo Araújo Pereira, que recentemente fez sair “Reaccionário com dois cês – Rabugices sobre os novos puritanos e outros agelastas” (novembro de 2017) – Tinta da China. Faça-se então a luz.

O riso serve para alguma coisa?

No sentido em que uma esfregona serve para alguma coisa, não, não me parece que sirva. Dançar serve para alguma coisa? Parece-me que o riso integra aquele grupo de coisas importantes que não “servem” para nada. Como a amizade, por exemplo.

O que o levou a decidir-se por esta carreira sinuosa?

Dois motivos bastante egoístas: primeiro, porque me pagam; segundo, porque gosto de ver o que acontece a uma pessoa quando ela ri.

Uma opinião contestável: as séries dos Gato Fedorento na SIC Radical eram geniais. Acha que, desde aí, cresceu ou engordou?

Espero ter engordado. O meu projecto sempre foi o da engorda. Deixei a salvação do mundo para a Miss Universo e a rebeldia artística para as estrelas de rock. Só sobrava a genialidade atormentada ou a engorda. Como não tinha qualificações para a primeira, optei pela segunda. Acho que fiz bem.

O humor é um exercício complicado no fio do arame. O que pode ser comédia para uns pode ser tragédias para outros?

Claro. É possível que a comédia seja uma modalidade especial de tragédia. E há pessoas que aceitam rir das tragédias dos outros mas não das suas. Não sabem o que perdem.

Foto: Estelle Valente

Hoje fala-se muito das fake news a propósito das redes sociais. As notícias são mais fake que no passado ou isso também é uma fake news?

Talvez as notícias sejam tão fake como no passado mas tenham agora uma divulgação mais rápida e ampla do que nunca. Uma maneira de mitigar o problema era os media tradicionais fazerem o seu trabalho de mediadores e fiscalizadores dos novos media. Infelizmente, parecem tomados por uma tecnofilia que os leva a reproduzir falsidades. Uma aldrabice publicada na internet, à qual se pode aceder através de zingarelhos todos modernos, tem um prestígio que as aldrabices publicadas em panfletos não tinham. Provavelmente porque o papel não provoca deslumbramento saloio.

Além de o Benfica poder não ganhar o campeonato há algo que o indigne a sério e o leve a comprometer-se?

Sim, claro. Tentativas de restringir a liberdade, por exemplo. Gente autoritária aborrece-me muito e a liberdade dá-me jeito. Até porque preciso dela para trabalhar.

Foi comunista. Quais as razões que o levaram a ser, e quais as razões que o levaram a deixar de ser?

Inscrevi-me como militante do PCP na sequência de uma derrota bastante dura do partido numas eleições autárquicas. Eu achava (e ainda acho) que o PCP desempenha um papel importante na sociedade portuguesa. Há alguns temas políticos que me interessam acima de outros. Entre esses estão a distribuição da riqueza e os direitos dos trabalhadores. Nessas matérias, o PCP é o partido do qual me sinto mais próximo. Saí, entre outras coisas, porque não tenho feitio para a militância partidária. Não se preocupe porque o PCP não perdeu nada.

Considera que se tornou mais conservador com o tempo em matérias como o politicamente correcto e sobre a discriminação de alguns sectores da população?

A sua pergunta parece assentar em três pressupostos com os quais não concordo: primeiro, que a minha posição sobre o politicamente correcto mudou – não é verdade; segundo, que todas as críticas ao politicamente correcto são conservadoras – não são; terceiro, que criticar o politicamente correcto equivale a ignorar ou até a apoiar a discriminação de alguns sectores da população – não equivale. Podemos mesmo argumentar – como faz Slavoj Zizek [filósofo esloveno] – que o politicamente correcto acentua a discriminação. Seria uma conversa longa, até porque teríamos de começar por definir “politicamente correcto”, o que é trabalhoso. Recentemente, em Portugal (e, há uns 10 anos, em Inglaterra e nos EUA), avançou-se com uma definição bastante excêntrica: o politicamente correcto é mera boa educação. No entanto, nem os proponentes desta definição parecem concordar com ela. Se o politicamente correcto fosse mera boa educação, os críticos do politicamente correcto seriam meramente mal-educados. Ora, não é assim que costumam ser apelidados.

(Leia a entrevista na íntegra no jornal Contacto desta quarta-feira)

Nota da redação: dada a resistência de Ricardo Araújo Pereira ao Acordo Ortográfico, perguntas e respostas nesta entrevista respeitam a preferência do entrevistado pelo direito a deixar de lado o referido Acordo.