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Emigrantes no Reino Unido indignados com saída de Portugal da 'lista verde'
Portugal 8 min. 17.06.2021
Reportagem

Emigrantes no Reino Unido indignados com saída de Portugal da 'lista verde'

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Emigrantes no Reino Unido indignados com saída de Portugal da 'lista verde'

Portugal 8 min. 17.06.2021
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Emigrantes no Reino Unido indignados com saída de Portugal da 'lista verde'

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
A saída de Portugal da lista verde causou revolta na comunidade portuguesa no Reino Unido. Emigrantes portugueses dizem não compreender a decisão de última hora e queixam-se dos custos associados às novas restrições.

Silvana tinha uma entrevista na Universidade de Leiria no dia 19 de Junho. Viagens compradas, testes marcados e a esperança de realizar um sonho e ingressar no curso de enfermagem. Poucos dias antes de viajar, Portugal saiu da lista verde do Reino Unido.

"Para além do dinheiro que gastámos em testes, o problema maior é mesmo a quarentena de 10 dias", conta a estudante, que trabalha como assistente num lar de idosos. Silvana não pode tirar tantos dias de férias e, por isso, poderá perder a oportunidade de ingressar na faculdade este ano. Por agora, espera que a instituição permita a realização de exames online em casos como o seu.

Silvana, estudante de enfermagem.
Silvana, estudante de enfermagem.
Foto: DR

O anúncio de que Portugal sairia da lista verde do Reino Unido veio estragar os planos dos muitos emigrantes portugueses no país, que se viram obrigados a cancelar as viagens de forma a evitar os dez dias de quarentena à chegada, que passou a ser exigida a todos os que regressem de Portugal a partir de dia 8 de Junho.

Os motivos por detrás da mudança foram amplamente criticados e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, chefiado por Augusto Santos Silva, chegou mesmo a emitir uma nota a dizer que esta era uma "decisão cuja lógica não se alcança".

Nos dias que se seguiram ao anúncio de Downing Street, a 3 de junho, foram muitos milhares que saíram do país de forma a evitar as novas medidas. Só no sábado, dia 5, 10.000 pessoas saíram do aeroporto de Faro, disse à Lusa João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve.

Foi o caso de Eduardo Fernandes, natural de Albufeira e a trabalhar numa cadeia de fast-food em Londres, que estava já em Portugal quando a decisão foi anunciada."Ainda tentei voltar antes de dia 8, mas os voos foram todos cancelados e já só consegui remarcar para depois do prazo. Tive de pagar uma nova viagem e pagar novos testes. Quando cheguei ao aeroporto de Faro faltava-me um número de referência dos testes a fazer ao segundo e oitavo dia de quarentena – porque não me foi enviado – e apesar de ter prova de compra não me deixaram embarcar. Tive de comprar mais testes, mais uma viagem e voltar mais tarde no mesmo dia", explica Eduardo, indignado.

Eduardo Fernandes trabalha numa cadeia de fast-food em Londres.
Eduardo Fernandes trabalha numa cadeia de fast-food em Londres.
Foto: DR

"As pessoas gastaram quase 500 euros e porque não preenchemos um formulário ou falta um papel ficamos em Portugal? Para quê? Para termos de comprar mais um bilhete e fazer outra vez testes? Isto é uma questão de dinheiro, não é por causa do vírus".

Os países na lista âmbar estão sujeitos a uma quarentena de 10 dias na chegada ao Reino Unido e dois testes PCR, no segundo e oitavo dia. Portugal, que entrou na lista verde a 7 de maio, era o único país europeu que dispensava estas restrições. A lista vermelha, que inclui países como Angola, Turquia ou Brasil, exige que os viajantes façam quarentena de dez dias num hotel designado pelo governo britânico, suportando o custo de 1.750 libras ou cerca de 2.000 euros, além dos dois testes PCR.

Para quem viaja de países da lista âmbar, é possível encurtar a quarentena se for feito um terceiro teste no quinto dia após a chegada a solo britânico. Se o resultado for negativo, não é necessário cumprir os dez dias de quarentena, mas o teste no oitavo dia mantém-se.

Eduardo planeia pagar o teste extra do quinto dia para poder voltar ao trabalho o quanto antes. Como não estava a contar com os dez dias em casa, não conseguiu tirar férias e os dias em que não trabalhará ser-lhe-ão descontados do ordenado. Apesar de tudo, diz não compreender a lógica das novas regras.

"Faço um teste ao segundo dia e dá negativo, outro ao quinto dia e dá negativo, saio de casa para ir trabalhar. Depois ao oitavo dia tenho de repetir novamente o teste, se der positivo andei a espalhar o vírus dois dias? Não tem lógica nenhuma".

Fábio Pica, original de Armação de Pêra, tinha também viagem planeada para se juntar a Eduardo, de quem é amigo próximo, mas resolveu não ir. A notícia de que Portugal sairia da lista verde foi devastadora: "já não vejo a minha família há um ano e meio", lamenta, "tinha tudo marcado, voo, testes, tudo, mas não tenho dinheiro para ficar dez dias em casa sem trabalhar. Isto fora o que já perdi em viagens, em testes...".

Fábio Pica, original de Armação de Pêra, não vê a família há um ano e meio.
Fábio Pica, original de Armação de Pêra, não vê a família há um ano e meio.
Foto: DR

Reino Unido adia última fase de desconfinamento

O governo de Boris Johnson anunciou esta semana que irá adiar a fase final do plano de desconfinamento de 21 de junho para 19 de julho, quatro semanas depois de a proibição de viagens não-essenciais ter sido levantada.

O atraso de um mês no fim das restrições do coronavírus no Reino Unido parece indicar que a maioria dos países europeus poderá permanecer na lista âmbar até início de agosto. Ainda assim, a próxima revisão das listas acontecerá a 24 de junho.

Muitos epidemiologistas têm, no entanto, criticado o sistema semáforo britânico, argumentando que as restrições a circulação só fazem sentido se as taxas de infeção de outros países forem altas e as do Reino Unido baixas, com pouca propagação comunitária.

Tim Spector, epidemiologista e investigador inglês responsável pela aplicação ZOE Covid Symptom Study, disse num tweet não entender por que o governo está a restringir viagens a países de menor risco quando o Reino Unido está com um dos mais altos níveis de infecção da Europa.

Também um estudo da Universidade de Washington, publicado em janeiro deste ano, indica que, apesar de a proibição de viagens poder efetivamente atrasar a chegada de uma doença infeciosa a um país, "há muito poucas provas que sugiram que uma proibição de viagens elimine o risco da doença atravessar fronteiras a longo prazo".

Para Bruno Teixeira, original da ilha das Flores e a viver no Reino Unido há dois anos, saber que Portugal estava na lista verde foi como uma lufada de ar fresco: "Antes de vir para aqui vivi no Canadá, então não via a minha família há quase seis anos. Tentei vir o ano passado, mas com isto da pandemia não consegui mesmo. Mal soube que se podia viajar sem quarentena, falei com o meu chefe e marquei o voo."

Recebeu a notícia de que afinal teria de fazer quarentena no regresso uma semana antes de embarcar rumo aos Açores. Resolveu ir na mesma. "Vim porque não via os meus pais há anos, a minha mãe está muito doente, com demência, e não consegui mesmo não vir".

Bruno Violante (à direita) e o companheiro, António.
Bruno Violante (à direita) e o companheiro, António.
Foto: DR

O pior, conta, não é o ter de ficar em casa, mas o dinheiro que vai perder. Bruno, que trabalha como assistente num armazém, teve de pagar 295 libras em testes (340 euros) para o regresso a terras de sua majestade. "Um abuso", considera, "mas o pior mesmo é perder uma semana e meia de ordenado, deixa-me mesmo numa situação financeira complicada".

Já para Bruno Violante e o seu companheiro António, o preço dos testes também foi determinante para decidirem se manteriam a viagem marcada para o início de julho. Naturais de Aveiro, há mais de um ano e meio que não voltam a casa. Compraram a viagem no dia antes de ter sido anunciada a saída de Portugal da lista verde. "Andámos tanto tempo a planear, queríamos vir ver os pais do António que estão mal de saúde", diz Bruno.

"Pealiassim que foi anunciado que já não era preciso quarentena, mas como Portugal estava numa boa situação resolvemos esperar até conseguirmos mais tempo para visitarmos também a nossa família no Algarve", conta.

"Organizamos tudo para ir no início do mês que vem, comprámos voos, avisámos a família e eu no dia a seguir recebo aquela notificação a dizer 'Portugal vai ser removido da lista verde' – pensei 'não...e agora?'. Foi desesperante".


Certificado Digital Covid. O que é preciso ter para viajar para Portugal, a partir de julho?
Os países da União Europeia chegaram a acordo sobre a informação que tem de apresentar na aplicação de telemóvel covid nas viagens aéreas entre os estados membros. Saiba o que é necessário para as viagens aéreas na UE.

Bruno trabalha para uma empresa de tecnologia e pode ficar em casa, mas António é gestor de um centro de psicologia. "Não tem como ele trabalhar de casa durante dez dias, então aos testes para ir, mais os testes do segundo e oitavo dia, teríamos de juntar o do quinto dia também para o António poder ir trabalhar mais cedo. A quase cem libras cada teste – uma fortuna!".

Entretanto, Portugal anunciou que é agora possível viajar para o país apenas com a apresentação de um teste rápido, que tem um custo consideravelmente mais baixo que os testes PCR. "Com essa notícia estamos novamente a pensar em ir. Continua a ser bastante, mas talvez compense".

Ainda assim, Bruno e António estão hesitantes: "não são claros os requerimentos. O site do governo britânico tem lá muita informação, mas é confusa e virada obviamente para quem é inglês, por isso fica difícil ter a certeza de que se tem tudo certo".

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A 17 de maio são levantadas as restrições de viagens para países nesta lista, para os quais deixa de ser necessária a realização de quarentena. O Luxemburgo mantém-se na lista amarela, com viagens não essenciais a serem desaconselhadas pelo governo britânico.